George Best se consagrou pelos dribles e pela genialidade com a bola. Assim como por ser um ‘bon vivant’. Certa vez, o craque do Manchester United afirmou que “se eu tivesse nascido feio, vocês nunca teriam ouvido falar de Pelé”. Ao que parece, o Rei era o único que Best permitia ser colocado à frente de si, mesmo quando o norte-irlandês já estava longe de seus dias mais inspirados. E, pior, ele gostava de humilhar em campo quem era inferior: “Amo zombar dos jogadores. Colocar a bola entre as pernas deles e pegá-la de volta”.

Best tinha 30 anos em 1976. Sua carreira tinha declinado por conta do álcool, rodando por Stockport County, Cork Celtic, Los Angeles Aztecs e Fulham depois de ter sido descartado pelo Manchester United. Mesmo assim, continuava servindo a seleção norte-irlandesa. E, como um bom gênio, não tinha esquecido o seu repertório, pronto para dar provas, ainda que raras, de seu talento.

A Irlanda do Norte se preparava para enfrentar a Holanda, pelas Eliminatórias da Copa de 1978. A Laranja Mecânica, então vice-campeã do mundo, era ampla favorita para o jogo. E o jornalista britânico Bill Elliot resolveu saber de Best o que ele achava de Johan Cruyff, o gênio daquele timaço. “Fora de série”, respondeu. Melhor que você? Best começou a rir: “Você está brincando, não está? Contarei a você o que farei nesta noite: colocarei a bola por entre as pernas de Cruyff na primeira oportunidade que tiver”.

A aparição mítica de Best em Roterdã começou na entrada do campo. Um a um, os jogadores da Irlanda do Norte foram anunciados para a partida. O goleiro Pat Jennings, camisa 1, foi o primeiro. O número 11, o último. “E agora,  Georgie… Best!”. O ponta trotou ao gramado. Acima dele, uma bela loira se aproximou com uma longa rosa vermelha. Best viu a garota. Parou, voltou, pegou a rosa, beijou a mão da moça e entrou novamente no campo, acenando para os torcedores. Os aplausos se tornaram ainda maiores.

E Best não demorou a cumprir a promessa. “Com cinco minutos de jogo, Best recebeu a bola na ponta esquerda. Ao invés de ir em direção ao gol, ele se virou para o centro do campo, passou por três holandeses e chegou a Cruyff, que estava na lateral direita do campo. Ele conduziu a bola até a frente de seu oponente, curvou o ombro duas vezes e enfiou entre as pernas de Cruyff. Pegou a bola do outro lado e correu com o punho direito erguido”, relembra Elliot. “Só alguns na cabine de imprensa sabiam o que aquela fanfarronice realmente significava. Johan Cruyff, o melhor do mundo? Você está brincando? Só um idiota pensaria isso naquela noite”.

E não foi só isso. Best teve uma exibição digna de seus melhores tempos, ajudando a Irlanda do Norte a arrancar o empate por 2 a 2. O grande pesar é que o ‘rolinho’ de Best não possui vídeos na internet. No máximo, há um relato do jogo com os gols e os comentários de um ex-jogador da Irlanda do Norte, que confirma as peripécias de Best. A ótima história, porém, fica bem guardada na memória.

Já o relato completo de Bill Elliot sobre aquela ocasião pode ser conferido aqui, em depoimento ao jornal The Guardian.