Giovane Élber figura em uma lista seleta de grandes atacantes da história do Bayern de Munique. Em seis anos defendendo os bávaros, o brasileiro protagonizou momentos históricos com o clube. Conquistou quatro títulos da Bundesliga e, mais importante, brilhou na campanha que encerrou o jejum de 25 anos da equipe na Champions League – a ponto de voltar de uma cirurgia para decidir as semifinais contra o Real Madrid no Santiago Bernabéu. Foi artilheiro da Bundesliga, entrou para o Hall da Fama do clube e, com 139 gols, integra o Top 10 de maiores artilheiros da agremiação. Ainda assim, Élber é um elo que o Bayern tem com o Lyon, antes desta semifinal da Champions. Sua passagem pela França é menos lembrada, mas o veterano também pôde ser campeão e viveu uma grande emoção no reencontro em Munique.

Élber tinha 31 anos quando deixou o Bayern de Munique, mas não que seu desempenho fosse ruim. Pelo contrário, o atacante registrou seu recorde de gols na Bundesliga em 2002/03, quando terminou na artilharia da competição com 21 tentos e celebrou mais um título. Contratado junto ao Stuttgart em 1997, o brasileiro se tornou uma peça fundamental dentro das equipes formadas por Ottmar Hitzfeld. Seu estilo de jogo beneficiava os bávaros, com presença de área e faro de gol, mas também inteligência para se movimentar e para abrir espaços aos companheiros no ataque. Era um centroavante completo, que não precisava se limitar ao centro da área.

Entretanto, o Bayern preferiu se antecipar ao declínio e buscar a renovação de seu ataque antes que os números de Élber caíssem. Os bávaros pagaram alto para tirar Roy Makaay do Deportivo de La Coruña, ganhando um centroavante três anos mais jovem e avassalador por La Liga – foram 29 tentos na campanha de 2002/03 com os galegos. Além do mais, Claudio Pizarro e Roque Santa Cruz pareciam o futuro do time naquele momento. Hitzfeld preferiu abrir mão do antigo artilheiro e Élber ficou à disposição no mercado de transferências, apesar de seu desejo de seguir e do apoio dos próprios companheiros.

Élber até disputou as primeiras partidas da Bundesliga 2003/04 com o Bayern. O Monaco estava entre os interessados em sua contratação, mas o Lyon levou a melhor e pagou €4,2 milhões pelo centroavante. O brasileiro se sugeria o substituto perfeito a Sonny Anderson, grande referência dos Gones no início da década, que tinha aceitado uma proposta do Villarreal. Élber chegou três semanas depois e ocupava perfeitamente a lacuna deixada pelo compatriota, tanto por sua experiência quanto por sua capacidade de balançar as redes. Juntava-se a um time bicampeão nacional e com outros brasileiros – naquele momento, Juninho Pernambucano, Edmílson e Cláudio Caçapa já estavam em Gerland.

O sucesso de Élber no Lyon foi relativo. O atacante anotou dez gols no Campeonato Francês, suficientes para auxiliar o clube no tri. Seu melhor momento aconteceu em março de 2004, quando uma sequência de quatro partidas consecutivas balançando as redes contribuiu para que os Gones assumissem a liderança. De qualquer maneira, a partida mais lembrada ocorreu na Champions, diante do Bayern, quando as duas equipes se enfrentaram na fase de grupos. A comoção ocorrida em Munique foi digna do ídolo.

O desembarque do Lyon na Alemanha seria recepcionado por uma legião de jornalistas, a ponto de Juninho comentar na época: “Parece até que o presidente é que está chegando”. Já dentro do Estádio Olímpico, os 60 mil presentes faziam silêncio quando o artilheiro pegava na bola. O empate prevalecia até que o próprio Élber definisse a vitória francesa por 2 a 1, no início do segundo tempo. Passou pela marcação e tirou a bola do alcance de Oliver Kahn. Quando os alto-falantes anunciaram o autor do gol, o estádio inteiro passou a gritar seu nome – mesmo balançando as redes aos adversários. O veterano confessaria que seus olhos marejaram e ele começou a chorar.

“Naquele momento, perdi completamente os sentidos. Não ouvia, não enxergava. Mal podia imaginar a reação dos torcedores. Foi naquele momento que percebi o legado que construí”, declarou Élber, em entrevista à antiga revista Trivela, em dezembro de 2006. A dez minutos do apito final, mais uma homenagem, com o brasileiro substituído e saindo de campo ovacionado pela multidão. No fim das contas, os dois times avançaram aos mata-matas. Élber anotou três gols naquela campanha, incluindo um na eliminação contra o Porto, durante as quartas de final.

O problema é que, de fato, o físico começou a jogar contra Élber naquela idade. As lesões se tornaram mais frequentes e ele chegou a perder uma sequência de compromissos no meio da primeira temporada. Já em 2004/05, após marcar gols na estreia do Lyon na Ligue 1 e também na decisão da Supercopa Francesa, o veterano sofreu uma séria contusão no tornozelo. Durante o tratamento, entrou em conflito com o departamento médico do clube pela maneira como sua situação era gerida e preferiu romper seu contrato por antecipação, um ano e meio antes do prazo estipulado.

Em janeiro de 2005, o centroavante buscou novos rumos e assinou com o Borussia Mönchengladbach, tentando reencontrar seu melhor na Bundesliga. No entanto, foram apenas cinco aparições com os Potros antes de retornar ao Brasil e fechar com o Cruzeiro em 2006 – também sem muita continuidade por seus problemas físicos. Em setembro, Élber anunciaria a aposentadoria aos 34 anos e, com toda a justiça, ganhou uma partida de despedida diante de 70 mil torcedores na Allianz Arena.

“Se tivesse oportunidade de voltar no tempo, mudaria minha ida para o Lyon. Não que tenha sido ruim, mas estava acostumado a outro ritmo de futebol e de vida. Minha família sofreu bastante. Seria melhor ter ficado no Bayern ou ir para outro clube, quem sabe até voltado para o Brasil. É uma pena que eu tenha voltado velho e bichado. Se tivesse retornado um ano antes, daria para fazer um trabalho legal”, diria, também à Trivela, em dezembro de 2006.

Élber encerrou sua trajetória como o maior artilheiro estrangeiro da Bundesliga, autor de 133 gols, superado apenas por Robert Lewandowski e Claudio Pizarro desde então. E que a estadia em Lyon acabe esquecida, o centroavante ainda tem sua parte no inesquecível heptacampeonato dos Gones. Mas não com a aura do que fez e da idolatria que construiu pelo Bayern. Todo tributo quantifica o tamanho do que protagonizou pelos bávaros. E o papel de embaixador do clube atualmente só reforça o carinho que mantém em Munique.