“Johan e eu já chegamos a um acordo. Ele tem um ou dois problemas para resolver, mas estou esperançoso de que ele se juntará a nós na terça-feira. Gosto de pensar que parte do interesse do Johan seja por causa de nossa amizade pessoal. Conheço-o desde 1973, quando ele marcou um gol fabuloso pelo Ajax contra o Rangers, quando eu estava em Ibrox, na primeira Supercopa Europeia. As negociações têm acontecido por telefone nas últimas três a quatro semanas, e agora acho que consegui. Ele pode ensinar muito a meus meninos e ser um grande ‘anúncio’ para o Leicester City.”

Após intensas conversas pela contratação de Cruyff, Jock Wallace, técnico escocês que comandava o Leicester em 1981, anunciava, em entrevista ao jornal The Sun, publicada em 25 de fevereiro daquele ano, que havia chegado a um acordo pela contratação do lendário holandês. Após passagens por Los Angeles Aztecs e Washington Diplomats, Cruyff queria retornar ao futebol europeu para provar que poderia, quatro anos depois, voltar à seleção holandesa, da qual havia se aposentado em 1977, a tempo de disputar a Copa do Mundo de 1982. De fato, o acerto de Cruyff com a equipe que hoje lidera surpreendentemente a Premier League esteve muito perto de acontecer, mas a dura concorrência por uma das maiores estrelas da história do futebol mundial impediu o sonho de toda uma cidade.

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Era janeiro de 1981. O Leicester City, que, com um time jovem, havia subido à primeira divisão na temporada passada, tinha dificuldades para se manter na elite inglesa. A equipe de Jock Wallace, no comando do time desde 1978, era composta por muitos jovens, para os quais o desafio do primeiro escalão estava sendo duro demais. Não se engane, o time tinha talentos promissores, mas, com uma média de 23 anos de idade no elenco, toda aquela garotada precisava de um líder.

Nos Estados Unidos, o tempo de Cruyff no Washington Diplomats chegava ao fim. Contratado na reta final de 1978 pelo Los Angeles Aztecs, na época de bonança da North American Soccer League, que viu desfilar em seu gramados outras estrelas, como Pelé e Beckenbauer, o holandês teve sucesso em sua primeira temporada em solo americano, sendo escolhido o melhor jogador da liga. Transferiu-se para Washington, em que ficou até o fim de 1980, mas de onde teve que sair diante da crise financeira enfrentada pelo clube, incapaz de bancar seus altos vencimentos. Com o fim da aventura nos Estados Unidos, aos 33 anos, longe de seu ápice físico e buscando exposição para realizar a vontade de retornar à Oranje, era a hora de Cruyff voltar à Europa, e mesmo já no fim da carreira seria capaz de fazer a diferença em grandes ligas. Assim viam os times, pelo menos.

O holandês se encaixava exatamente no perfil buscado por Jock Wallace para salvar seu Leicester do rebaixamento. Poderia liderar e influenciar aquele grupo de garotos, além de servir como grande propaganda para os Foxes. A engenharia financeira para assegurar sua contratação precisaria ser meticulosa, mas o escocês faria o necessário para chegar até ela. Contava a favor de Wallace sua amizade com Cruyff, iniciada justamente quando o holandês decidiu a Supercopa Europeia de 1972 para o Ajax, contra o Rangers. Convencido de que sua proximidade com o holandês pesaria, o técnico investiu nas conversas.

Quando sabe-se que um jogador da estatura de Cruyff está buscando um novo clube, obviamente eles aparecem abrindo suas portas. Com alguns dos grandes europeus com dificuldades financeiras e um tanto desconfiados do impacto que o holandês poderia causar, equipes de menor expressão foram atrás do maestro. Além do Leicester, o Levante decidiu que queria o grande expoente da Laranja Mecânica em seu elenco. Fora os dois, um time alemão (o Hamburgo, segundo o Guardian) também tentaria a contratação de Cruyff.

O nome mais pesado dentre os interessados no holandês era o do Arsenal. Entretanto, os Gunners estavam receosos e preferiam ver como Cruyff se sairia naquele primeiro semestre de 1981. A ideia era oferecer um contrato para a temporada 1981/82 caso o jogador pudesse provar novamente seu valor nos primeiros meses daquele ano.

O interesse do Arsenal, de certa forma, era mais um dos trunfos do Leicester. O que Cruyff queria era exposição, e qual a melhor maneira de mostrar sua capacidade para os Gunners do que fazendo a diferença dentro da própria Inglaterra, salvando os Foxes do rebaixamento?

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Junto com as crescentes notícias de que Cruyff poderia estar a caminho da Inglaterra, o Leicester começara então sua reação na liga inglesa. A fase em janeiro foi horrível, e o confronto final daquele mês, no dia 31, era justamente contra o poderoso Liverpool, no Anfield. Os Reds não perdiam em casa há três anos, ou 85 jogos, especificamente. Talvez empurrados pelo ânimo da possibilidade de ter Cruyff, a garotada se superou, bateu de frente com os gigantes de Merseyside e conseguiu um triunfo por 2 a 1. Na sequência, vitórias contra Manchester United e Tottenham, com uma derrota para o Southampton entre esses dois. Além da amizade entre Wallace e Cruyff, os Foxes ainda poderiam argumentar para o holandês que a sorte por aqueles lados estava mudando.

O Levante, por outro lado, representava a oportunidade de Cruyff retornar à Espanha. A equipe estava na segunda divisão, mas, na quarta colocação, lutava seriamente pelo acesso. Projetava uma disparada na média de público com a contratação do holandês e, baseado nestes dois pontos, montou seu plano financeiro para fazer sua proposta pelo jogador. Com as notícias de que o time espanhol foi rápido em sua investida, Wallace pressionou a diretoria do Leicester e conseguiu montar o seu próprio planejamento para pagar os vencimentos de Cruyff.

O holandês seria contratado por 11 jogos, e um quarto da arrecadação do estádio cheio dos Foxes seria suficiente para pagar o holandês, que receberia £ 4 mil por jogo, uma quantia alta para a época. Foi com essa oferta e as conversas que teve com Cruyff que Wallace acreditou ter chegado a um acordo pela contratação do craque, o que o levou a fazer as declarações que abrem este texto. O The Sun as publicou, e toda a imprensa inglesa dava como certa a chegada do holandês, inclusive o jornal local Leicester Mercury, cujas páginas ilustram, acima, esta publicação.

Entretanto, enquanto a cidade de Leicester, empolgadíssima com as notícias e a recente boa fase do time, esperava por sua estrela, Cruyff acabou alcançando um acordo com o Levante, que lhe oferecera pagamento fixo, com bônus baseados nas arrecadações do estádio e na conquista da vaga na primeira divisão espanhola. No dia em que todos esperavam que Cruyff estivesse estrando pelos Foxes, contra o Nottingham Forest, o holandês estava na Espanha, fazendo seu primeiro jogo pelo Levante, contra o Palencia.

“Estou na Espanha. Assinei com o Levante e não me importo nem um pouco em jogar a segunda divisão. As negociações que tivemos por um mês foram finalizadas satisfatoriamente para todos. Decidi jogar pelo Levante porque, neste país, vivo bem. O futebol é de qualidade, e o clima também é ótimo. É verdade, é um clube de segunda divisão, e é um pouco estranho para um jogador como eu, mas minha vida não é apenas sobre dinheiro ou prestígio. Essa transferência me oferece uma chance de viver bem, conseguir uma grande quantia de pesetas e me dá a possibilidade de voltar ao futebol europeu. Acho que não posso pedir mais nada. O que posso oferecer? Meus relatórios mostram que, claramente, o time precisa de alguém que canalize o jogo. Estou convencido de que, com o Levante, em apenas 13 dias estamos na primeira divisão. Vivo por cada dia, estou preocupado apenas com a temporada atual. Nos últimos dois meses, tive ofertas de Leicester, Arsenal e um clube alemão, mas quero ser livre. Na próxima temporada, veremos se vou renovar com o Levante”, explicou Cruyff, à imprensa espanhola.

O fim da história acabou sendo negativo para todas as partes. Após fazer um primeiro jogo apagado contra o Palencia, Cruyff se contundiu em sua segunda partida e, prejudicado por problemas físicos, fez apenas dez jogos e dois gols pelo Levante, não conquistando a sonhada vaga em La Liga. Já o Leicester não sustentou sua reação do começo de fevereiro e, na penúltima colocação, acabou rebaixado para a segundona inglesa ao fim da temporada. Cruyff então deixou a Espanha, nunca voltou à Oranje, mas pelo menos acertou seu retorno ao país-natal, onde defendeu o Ajax por duas temporadas antes de se aposentar pelo Feyenoord, em 1984. Nada que diminuísse o que já havia feito antes. O que sobra do episódio é uma ligação improvável entre uma lenda do futebol mundial e um time que hoje surpreende um mundo desafiando os grandes na Inglaterra.

[Via Guardian]