Por décadas, o sentimento regional nas comunidades autônomas da Espanha foi reprimido pelo poder central. Tempos de Francisco Franco, que estendia suas proibições também ao futebol. O Athletic Bilbao, como outros, teve que alterar seu nome de origem inglesa e revigorou a política de contratar apenas bascos como uma postura identitária, algo seguido pela rival Real Sociedad. Mesmo após a morte do ditador, alguns temores prevaleceram. E os dois clubes tiveram papel fundamental para levar à tona novamente o nacionalismo basco. Episódio histórico, que completa 40 anos nesta segunda.

Em 5 de dezembro de 1976, os capitães de Athletic e Real entraram em campo carregando a ikurriña, a bandeira do País Basco. José Ángel Iribar e Inaxio Kortabarría, entretanto, cometiam um ato proibido naquele momento. Embora também representasse o sentimento da região, a bandeira também era relacionada ao grupo terrorista ETA. Por isso mesmo, o governo havia banido o símbolo e o tornado ilegal. Franco morrera meses antes, mas aquele gesto ainda era visto como uma contravenção.

A própria entrada da ikurriña no Estádio Atotxa (o antecessor de Anoeta) foi um evento em si. Precisou da destreza de José de la Hoz Uranga, reserva da Real Sociedad, mas o principal responsável pelo ato político. O meio-campista idealizou a manifestação e convenceu tanto seus companheiros quanto os adversários para que ela fosse realizada. Sua irmã confeccionou a bandeira, e nem ela sabia o intuito daquilo. Para ingressar nos vestiários com o símbolo, Hoz Uranga precisou entocá-lo entre seus materiais esportivos, passando pela revista comum da polícia. Curiosamente, o jogador chegou a ser preso tempos depois, por se envolver em um sequestro realizado pelo ETA.

Quando os times entraram em campo, todos se surpreenderam com a presença da ikurriña. Iribar e Kortabarría carregaram o símbolo até o centro do gramado, onde os demais jogadores o rodearam. Já nas arquibancadas, os torcedores vibravam pelo gesto. Uma maneira de desafiar o poder central, assim como de lutar pelo País Basco. Em tempos de raras manifestações, aquela fagulha já se fez suficiente.

Quando a bola rolou, a Real Sociedad atropelou o Athletic por 5 a 0, sua maior goleada no clássico. De qualquer maneira, a importância daquele dia se concentrou mesmo no ato político. A ikurriña exibida naquele jogo foi confiscada por policiais, mas, um mês e meio depois, a bandeira deixava de ser ilegal. Já em 1978, a comunidade autônoma dos bascos a adotou oficialmente. Vitória motivada pelo futebol.

“Foi um passo importante que ajudou à legalização final da ikurriña. Primeiro foi permitida e logo depois legalizada. Houve dúvidas, sem que se soubesse como iriam reagir e o que se iria passar, mas sempre nos pareceu impossível que algo pudesse ser feito a duas equipas inteiras de renome. Foi como um impulso final”, comentou Iribar, anos depois. Simbolismo que, tempos depois, inspirou até mesmo uniformes dos dois times.

Sobre o assunto, vale ler o especial do amigo Caio Brandão, sobre os jogadores bascos do futebol argentino.