A bola sabe o que faz. Você pode achar aquela gorduchinha um objeto inanimado, pronto para ser chutado, mas ela tantas vezes é providencial em seus caminhos. Até parece consciente. E a Jabulani, tão famosa por ter vida própria, sabia plenamente o que fazia. Afinal, o gol do título da Copa do Mundo de 2010 não poderia ter acabado em melhores pés. Se era para a Espanha ser mesmo campeã naquele 11 de julho, dentro do Soccer City, que fosse pelos pés de Iniesta. Don Andrés. O homem que para sempre será aplaudido nos estádios espanhóis por seu tento divisor de águas. O craque que seria muito mais do que o gol na final do Mundial.

“Tenho claro que aquela Copa significou um antes e um depois para mim, tanto a nível pessoal quanto a profissional. Vinha de um ano muito complicado, com muitas lesões. Depois de um início de Mundial com dúvidas, fui me encontrando cada vez melhor e tudo acabou da melhor maneira. Meu sonho era ser jogador profissional. Jogar uma Copa, ganhar e ter a sorte de marcar o gol da vitória é algo que sequer sonhava. Foi uma experiência que me fez crescer como jogador e como pessoa. Isso me deu muita força”, disse Iniesta, em conversa com o jornal ABC, nesta semana. O menino de Fuentealbilla, que deixou sua casa aos 11 anos para viver em La Masía e aprendeu a conviver cedo com a saudade da família, foi muito além de sua imaginação.

Quando chegou à Copa do Mundo de 2010, Iniesta já se colocava entre os grandes. Os grandes, mas não exatamente como uma lenda. O torcedor do Barcelona bem conhecia o seu talento, já presente em tantos momentos gloriosos. Mesmo coadjuvante, contribuiu à conquista da Champions em 2005/06, saindo do banco para ajudar a mudar a história da final contra o Arsenal. Seria um digníssimo protagonista sob as ordens de Guardiola, possibilitando a reconquista da Europa com seu inesquecível gol contra o Chelsea na semifinal de 2008/09 e também dando passe a um dos tentos de Messi na decisão, mesmo enfrentando o Manchester United em completo sacrifício por causa de uma lesão. Acabaria em quarto na eleição da Bola de Ouro naquele ano. Os blaugranas o adoravam. Mas Don Andrés teria um destino maior.

À seleção espanhola, Iniesta também já apresentara suas credenciais. Reserva na Copa de 2006, virou titular nos meses posteriores. Durante a Euro 2008, viraria uma das peças-chave no esquema de Luis Aragonés. Foi titular em todos os seis jogos do título continental. Constou até no time ideal do torneio, tanta bola jogou. Ganhou o direito de entrar nos livros, campeão europeu com a Roja. O talento de Don Andrés, porém, merecia a imortalidade. E quem abriu os olhos do mundo para isso foi a Jabulani, no Mundial de 2010.

Iniesta desembarcou na África do Sul ocupando um degrau alto na hierarquia da Espanha. Por fama, ainda estava atrás de Xavi, de Casillas, de Torres. Por bola, não. E essa confiança ao redor de Iniesta cresceu durante a Copa, jogo a jogo, à medida em que o maestro indicou que poderia ser o caminho dos ibéricos à inédita conquista. A ele, pessoalmente, a campanha também significava uma volta por cima desde o princípio.

Um ano antes, Iniesta viu pela televisão a Copa das Confederações. Recuperando-se da lesão que quase o tirou da final da Champions, perdeu o torneio com a seleção. O retorno não seria tão simples e a dor ganharia outros contornos em agosto de 2009, não só físicos, quando o meio-campista recebeu a notícia de que seu grande amigo havia falecido. Zagueiro do Espanyol, Dani Jarque se foi de maneira repentina, ao sofrer um ataque cardíaco na concentração. Don Andrés perdeu o companheiro das seleções de base, seu parceiro de todas as horas, por mais que vestisse as cores do rival. Sentiu um vazio imenso e não fez uma boa temporada em 2009/10.

“Tive um pouco de depressão, mas todo mundo passa por esse tipo de coisa pelo menos uma vez na vida, não é? Tive vários problemas pessoais que se acumularam, também problemas físicos. Eu me senti frágil. Essa é a vida, há bons e maus momentos. Atravessamos momentos de fraqueza, de situações que se acumulam. Você sofre uma lesão, tem dificuldades para recuperar seu nível, perde confiança, se sente fraco, não faz as coisas como quer, duvida de si mesmo. Eu não estava satisfeito. Tudo isso leva você a um caminho difícil de superar. Os meses eram totalmente sombrios. Finalmente experimentei o clímax, o melhor momento da minha vida, na África do Sul”, declararia à revista SoFoot, em 2014.

No Mundial de 2010, Iniesta pôde se agarrar ao futebol em seu estado mais puro. “Nunca cheguei ao ponto de dizer ‘desisto’. Entendi que estava passando por um momento delicado, mas eu me refugiei nas minhas pessoas e, acima de tudo, no futebol. Nunca senti que não queria mais jogar. Eu sabia que um dia daria um passo à frente, talvez no próximo eu daria três passos, e então, cinco… É um processo e é assim que você supera”, afirmaria também ao jornal The Guardian, em 2018.

Após procurar a ajuda dos médicos do Barcelona, mesmo sem estar em sua melhor forma, Iniesta chegou à África do Sul mais confiante em si. Mas, assim como o restante do time, aprendeu logo na estreia que o favoritismo da Espanha dependeria de um esforço maior para se cumprir. O meia esteve presente na derrota contra a Suíça e não se saiu bem, padecendo de uma sobrecarga muscular. Por causa de seus problemas físicos, ainda veria do banco a vitória sobre Honduras na segunda rodada. A volta do meia à equipe aconteceu na terceira partida, contra o Chile de Marcelo Bielsa, um duelo no qual os espanhóis precisavam dos três pontos. Don Andrés, então, se apresentou em seu esplendor.

O triunfo por 2 a 1, suficiente para a Espanha terminar na primeira colocação e não cruzar com o Brasil nas oitavas de final, passou pelos pés de Iniesta. O craque seria o melhor em campo naquela noite em Pretória. E sua marca ficaria impressa no segundo gol da Roja, anotado no primeiro tempo. Don Andrés roubou a bola e conduziu o ataque com sua característica maestria. Após os passes trocados com Villa e Torres, apareceu na área para concluir. “O início não foi o melhor. Mas, apesar de tudo, da lesão, de como foi a temporada, sempre senti o título que era nosso. Tinha que ser. A equipe cresceu muito depois de ganhar do Chile. Foi como uma libertação”, comentou, ao Marca, neste final de semana.

Iniesta também sofreu o mal comum àquela Espanha: tocar a bola de lado em demasia e demorar a arriscar um lance mais agudo, no enfadonho tiki-taka que dominava sem sufocar. O meio-campista, por mais que sempre tenha primado por seu drible desequilibrante e por seus giros ao redor da bola, tantas vezes se sentia mais cômodo em preservar a posse e não agredir o adversário. Chutar não era a sua especialidade e nem a sua predileção – tanto é que ficou quase dois anos sem balançar as redes pela seleção até o tento contra o Chile. Esta versão do camisa 6 se viu contra Portugal, mesmo participando da construção do gol de Villa, que concedeu a classificação à Roja rumo às quartas de final.

Já diante do Paraguai, na noite mais tensa dos espanhóis na África do Sul, Iniesta voltou a usar sua batuta de maestro. Era quem encontrava as frestas numa defesa fechada e foi assim que desencadeou o gol da vitória, numa jogadaça em que deixou dois no chão, antes de servir a Pedro e de Villa balançar as redes no rebote. Don Andrés sabe como poucos dominar o tempo do jogo, quando acelerar ou quando cadenciar. Os espaços se encurtam com seus passes, ao mesmo tempo que um pequeno pedaço de grama pode ganhar hectares com seus dribles. Foi o que aconteceu naquele lance, em que três paraguaios se petrificaram diante do craque e até se esqueceram de Pedro.

A Espanha de Vicente del Bosque realmente se acertou após o temor contra o Paraguai. E numa partida suficiente contra a Alemanha na semifinal, de novo sem ser brilhante, a Roja garantiu sua classificação à inédita decisão. As doses de dinamismo espanhol naquele duelo tinham a assinatura de Iniesta, mais consciente de seu papel como aquele que gera as superioridades em campo. Seria de novo um dos melhores do time, buscando mais o passe decisivo e o drible no mano a mano. O placar poderia ter sido mais elástico pelas chances que ele criou. E, em Xavi, encontrava sempre o parceiro perfeito para aplicar suas virtudes.

As horas anteriores a uma final de Copa do Mundo não devem ser fáceis. Aquele pode ser o momento definitivo de sua carreira. E não seriam fáceis também a Iniesta. Na véspera do duelo com a Holanda, Don Andrés demorou a dormir e vagou pelos corredores do hotel durante a madrugada. O craque, entretanto, seguiu em frente. Estaria pronto para cumprir seu destino e deixar o vazio para trás. Para encher sua mente com a maior alegria possível e também para encher de orgulho o peito de milhões de compatriotas que ansiavam por aquele momento, campeões do mundo.

A quem já viu Iniesta em seu esplendor, a exibição no Soccer City não foi a melhor de sua vida. Mas, por todas as circunstâncias, aquele seria, sim, o jogo de sua vida. A Jabulani buscou Iniesta. E pouquíssimos a tratariam com aquele carinho, ainda mais na tensão de uma final de Copa. Os passes fluíam, os domínios acariciavam a bola, os dribles o tornavam um dos alvos favoritos das faltas dos holandeses. Depois de um primeiro tempo mais contido, Don Andrés crescia na partida. Se os espaços eram negados, ele insistia para criá-los.

Entre rodopios em seu eixo e toques rápidos, Iniesta desnorteava a defesa da Holanda ainda mais no primeiro tempo da prorrogação. O gol da Espanha se tornava maduro. A Jabulani, todavia, aguardava seu escolhido. A bola já tinha negado a glória a Robben, parando em Casillas, e assim também não se seduziria por Jesús Navas, barrado por Stekelenburg após um passe na medida de Don Andrés. E se ainda não surgira brecha suficiente, o camisa 6 provocaria um rombo na zaga laranja pouco antes do gol, quando sofreu a falta que gerou a expulsão de Heitinga. Sete minutos antes da eternidade.

A jogada decisiva nasceu a partir de uma arrancada de Navas e de uma sucessão de passes. Já no caminho, Iniesta deu um lindo toque de calcanhar na Jabulani. E, mais à frente, quando Van der Vaart rifou mal o cruzamento, o craque estava à espreita. Don Andrés recebeu a assistência de Fàbregas e dominou com liberdade – tão livre que chegou a pensar que estava impedido. Mas não se desconcentrou e, ao levantar a bola, esperou sua queda para desferir o chute fatal. A pelota resvalou nas luvas de Stekelenburg, mas dormiria nas redes. Desta vez, apenas o gol interessava à Jabulani. Iniesta estava na história do futebol. O homem de poucos tentos assinalaria o maior da Espanha.

“No momento em que domino a bola, tenho claro o chute que desejo fazer e acaba no gol, como todos queríamos e todos esperávamos. Parece paradoxal escutar o silêncio, mas neste momento, em um campo de futebol com tanta gente, senti que estávamos só a bola e eu, e nesses um ou dois segundos da ação, a bola foi para dentro. Quando a bola entrou, você já imagina a alegria que vivemos, o êxtase. Esse momento é mágico para todos”, relembraria dez anos depois, à RTVE.

A comemoração é tão marcante quanto o gol em si. Afinal, em seu júbilo, Don Andrés não se esqueceu das dificuldades para chegar até ali. Não se esqueceu do amigo Dani Jarque, que também vibrava onde quer que estivesse. “Sempre conosco”, mostrava ao mundo, para também tornar o companheiro eterno. No maior dos momentos, o craque enfatizou quem era, por quem jogava, o que o futebol representava. Ali estava a essência do herói. “Aquilo me saiu de dentro. Tinha pensado porque estava acima de qualquer rivalidade entre clubes. Queria dizer que Dani também estava ali”, diria semanas depois, ao jornal El País.

Quando o gol saiu, restavam apenas mais quatro minutos para o término da partida. Iniesta desabou no gramado ao ouvir o apito final. Sequer podia falar. Chorava copiosamente, antes de ser abraçado por Valdés. “Percebi depois que todas as pessoas se lembram do que estavam fazendo naquele instante. Elas me contam reações incríveis, alguns que se feriram comemorando o gol, outros que eram incapazes de parar de chorar. Já não é a felicidade que você sente, é a que vê nos demais”, declararia nesta semana, ao Marca. “Mas aquele gol nunca teria chegado sem o de Puyol contra a Alemanha, sem a defesa de Iker diante de Robben, sem os tentos de Villa quando mais precisamos. Veio com o trabalho de todos”.

Taça em mãos, Iniesta não precisaria fazer mais nada no futebol para ser uma figura eterna. Mas acomodar-se não era do feitio do craque. E para quem o via como uma versão rejuvenescida de Xavi, cada vez mais Iniesta deixou explícito que os dois possuíam diferentes predicados, potencializados entre si – e, com todo o respeito ao magistral companheiro, Don Andrés conseguia ser mais refinado. Mais colada ao seu pé, a bola poderia reproduzir uma coleção de truques – e não por show, mas como puro recurso. O gol no Soccer City ajudaria o planeta a prestar mais atenção em Iniesta. A apreciá-lo mais em sua luz, um pouco parecido com o que ocorreu a Zidane depois de 1998.

Aos 26 anos na época da final, Iniesta seguiu atuando em alto nível por bem mais tempo. Aquele gol enfatizou como ele era mesmo um jogador de grandes partidas. Com a Espanha, faturou mais um título da Eurocopa sendo o melhor jogador do torneio. Com o Barcelona, vieram mais duas Champions, importante em 2011 e ainda mais genial na final de 2015, quando portava a braçadeira de capitão. O repertório inesgotável permitiu inúmeras exibições de gala do meio-campista. Por mais que aquela noite na África do Sul permaneça insubstituível.

Mais importante, Iniesta voltou a se sentir pleno com o gol em 2010, e isso se percebia em campo. “Cada um busca sua felicidade, seu modo de viver, de conviver com as pessoas, e a minha felicidade é essa. Sou feliz como sou, sem ser melhor nem pior. Gosto do que faço, sem muito barulho e aproveitando ao máximo. Mais recolhimento que exibição, é minha felicidade e minha forma de ser. A imagem que se tem de mim é o que sou. Não gosto de me fazer notar, estar na vitrine, mas muitas vezes preciso estar. Quero desfrutar das minhas coisas. Tenho demasiado para não ser feliz. Sentir-me feliz como pessoa é superior a qualquer vitória. No campo se reflete como sua vida está indo”, resumiu em 2011, ao jornal El País.

Foi possível aproveitar bem essa aura de Iniesta, admirá-lo nos maiores palcos. E também aplaudi-lo por seu caráter, por sua paixão pelo futebol, por seu amor à camisa, por sua fidelidade aos seus. Don Andrés é um jogador raro, e não apenas por seu talento. Lamenta-se a falta de uma Bola de Ouro em sua estante, quando a merecia bastante, por mais que não se tire as razões de entregá-la a Messi principalmente em 2012. Um gol decisivo na final da Copa do Mundo, de qualquer forma, reluz bem mais que o dourado dos troféus. A Jabulani foi sábia naquele 11 de julho.

“Sigo sentindo as sensações do momento do gol. Desde então, é como se 11 de julho fosse meu aniversário. Chegam muitas felicitações. O futebol tem a capacidade de superar muitas barreiras. Eu me sinto um privilegiado por ter feito tanta gente feliz. É a melhor recompensa que se pode ter. A verdade é que não fico tão cômodo quando me bajulam cara a cara. Mas cada vez que as pessoas mostram seu carinho ou respeito, é algo que me enche. Um simples ‘obrigado’ me basta para entender o que significou o que alcançamos”, recontou, ao Marca.

O craque afirma que não mudou nada desde aquele gol. Que é o público que se maravilhou, mas que ele segue o mesmo em sua essência, rodeado pela família e pelos amigos. Dá para notar. O que mudou, meu caro Iniesta, foi a percepção ao seu redor – e seu talento fluiu a partir disso. Há dez anos, o futebol realizou uma de suas maiores justiças quando concedeu a graça daquele instante a Don Andrés.