Diante de um Ajax que pratica um futebol tão vistoso, é natural olhar para frente. A qualidade sobra no setor ofensivo dos Ajacieden, e de diferentes maneiras. No entanto, a classificação contra a Juventus vai além do que o ataque produziu. Ela dependeu também dos pilares da defesa. O jogo encadeado e dinâmico se valeu de seus zagueiros, Daley Blind e Matthijs de Ligt, outros dois de talento privilegiado. Mais do que isso, a dupla ofereceu uma enorme proteção atrás e evitou qualquer temor em Turim. Atuação fantástica de uma parceria marcante, pronta para se marcar na memória da torcida. Enquanto o garoto foi o herói com o gol da classificação, o veterano exerceu uma liderança serena por sua segurança e sua experiência.

De Ligt faz por merecer todas as sondagens e elogios que recebe nesta temporada. O zagueiro anda num nível absurdo, muito mais preparado à primeira prateleira do que seus 19 anos podem indicar. A braçadeira de capitão entregue pelo Erik ten Hag é o sinal mais evidente de sua mentalidade, já uma voz influente dentro de campo e pronto a orientar os companheiros. Só que o nível de seu futebol também eleva o moral. O tempo de bola do garoto é invejável, assim como sua destreza para desarmar de maneira limpa. Já tinha feito excelentes partidas nesta Champions, com menção especial à ida contra a própria Juventus. Tem a regularidade e a firmeza que se espera de um grande em sua posição.

Ao seu lado, Blind parece o complemento perfeito. Aos 29 anos, o versátil defensor ainda possui uma enorme carreira pela frente. Sua inteligência dentro de campo está muito acima da média, assim como a capacidade técnica. Todavia, os problemas físicos cobraram o seu preço e a progressão desde a Copa de 2014 não aconteceu como o esperado. Retornar ao Ajax, após a badalada transferência ao Manchester United, até se sugeria um passo para trás. Longe disso. O camisa 17 justifica o negócio não apenas pelo sucesso revivido em Amsterdã, como também pelas virtudes que agrega ao elenco. É um exemplo mais do que necessário, em campo ou nos vestiários. E, que seja escada aos garotos que ascendem, sua importância ficou aparente durante o duelo em Turim.

O primeiro tempo guardou uma provação ao Ajax, diante da postura intensa da Juventus no início da partida. O meio-campo muitas vezes não ofereceu a proteção necessária e a zaga se viu exposta, precisando dar o combate. A exigência cresceu sobre a sólida dupla. De Ligt se desdobrava para evitar os perigos. Neste momento de pressão, Blind segurou a barra e foi perfeito no mano a mano contra os juventinos. Não dava trégua. Só que em lance que contou com a participação infeliz do jovem capitão, a Velha Senhora saiu em vantagem. Nada que abalasse os Godenzonen, prontos à reviravolta.

A calma que o Ajax exibiu na etapa final tinha sua influência atrás, com a paciência de Blind para coordenar a saída de bola ao lado de Frenkie de Jong. Os Godenzonen sabiam o que os aguardava, se mostrassem o futebol que possuem. Conquistaram a vitória de maneira indiscutível e poderiam ter feito mais. Tão importante quanto o caminhão de chances que se criou na frente foi a concentração defensiva, quando a Juventus prometia crescer. Os holandeses chegavam junto em todas, não aliviavam em uma dividida – mas sempre leais. Cristiano Ronaldo sofreu, assim como Moise Kean. E, ao final, o prêmio de salvador recaiu mesmo a De Ligt, que já comandava o espaço aéreo em sua área. Uma cabeçada que ressalta sua capacidade acima do comum, ao saltar entre dois marcadores para balançar as redes.

A parceria tende a não durar muito. De Ligt já se mostrou disposto a buscar novos desafios e o impacto na Liga dos Campeões deve aumentar o valor das propostas que o Ajax receberá. Enquanto isso, se quiser, Blind tem bola e tempo para escrever uma trajetória bem mais profunda em Amsterdã – quem sabe, orientando outros garotos talentosos. Independentemente do que acontecer, o momento foi providencial para unir dois jogadores especiais, que também se combinam na seleção holandesa. A um clube de vocação ofensiva, ver uma dupla de zaga deste quilate já representa muito. E vale ainda mais quando eles carregam o fardo, permitindo ao carrossel se tornar extremamente competitivo. Se alguns dos sucessos recentes dos Godenzonen terminaram destroçados pela fragilidade de sua defesa, desta vez parece que o setor melhora a cada partida. Ainda há mais três possíveis compromissos nesta Champions, para ver até onde De Ligt e Blind podem chegar.