“Os especialistas dirão agora que eu não estava bem, mas eu me sentia totalmente em forma. Num curto período de tempo, eu havia chegado duas vezes à grande área. Mas na segunda, algo se distendeu nas minhas costas. Daí foi para a virilha, e eu tive de sair. Para mim, ficou claro que eu não poderia continuar. Não dá para acreditar…”. Em declarações à emissora de tevê NOS, Arjen Robben descrevia sua lesão, que o tirará do jogo contra a Turquia, neste domingo, em Konya, pelas eliminatórias da Euro 2016.

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Mas o capitão que será forçado a deixar a seleção (“Nesta sexta já volto para Munique”, informou Robben) também começou descrevendo bem o desastre visto nesta quinta, em Amsterdã, com a derrota da seleção holandesa por 1 a 0 para a Islândia. Afinal, a Oranje começara controlando bem suas ações, impedindo temores excessivos. Só que a lesão que causou a saída do camisa 11, substituído por Luciano Narsingh, e a expulsão de Bruno Martins Indi foram os fatores que jogaram a equipe no cenário que temia: cair na admirável disciplina tática e nos contra-ataques islandeses.

Até os 26 minutos do primeiro tempo, quando Robben acusou a contusão, o time treinado por Danny Blind controlava as ações. Jogava bem? Não. Basta dizer que o 4-3-3 mantido pelo técnico seguia deixando desprotegida uma defesa indigna de confiança. Prova disso foi o gol perdido por Jón Dadi Bödvarsson, logo aos três minutos de jogo: afinal de contas, ele só recebeu a bola porque Daley Blind, atrasado na linha de quatro defensores, dera condição para que Johann Berg Gudmundsson a escorasse. Fosse como fosse, aos poucos a posse de bola tornou-se mais laranja, a defesa se recompôs, Martins Indi aparecia bem, Depay e Robben criaram algumas chances… enfim, parecia tudo sob controle.

Aí o destino riu da cara da Oranje. Primeiro, com a lesão de Robben. Oito minutos depois, com a expulsão de Martins Indi, que vinha sendo justamente o mais seguro dos defensores. A decisão do árbitro Milorad Mazic em dar o vermelho é até polêmica, já que Kolbeinn Sigthórsson também veio forte na disputa de corpo. Ainda assim, o zagueiro holandês foi inegavelmente ingênuo ao dar uma cotovelada que podia ser (e foi) interpretada como agressão. E essa ingenuidade foi criticadíssima por Robben: “Como capitão, eu devo proteger meus jogadores. Mas não tenho mais nada a fazer além de dizer que [a cotovelada] foi estúpida. Ele deixou o time na mão, e condeno isso”.

 

Pior: Blind, o técnico, tomou uma decisão criticada até agora na Holanda. Tendo de remontar a defesa, precisou queimar a segunda alteração, colocando Jeffrey Bruma no miolo de zaga. Até compreensível. Mas não ao lembrar que o substituído foi Klaas-Jan Huntelaar, única referência de ataque da seleção a partir dali. Foi a senha para trazer a seleção da Islândia mais e mais perto da defesa holandesa. Ainda assim, o treinador defendeu a substituição (“Não me arrependo, eu precisava tornar o time defensivo”), e também criticou, justamente, Martins Indi (“Ele estava razoavelmente bem no jogo, não havia razão nenhuma para fazer aquilo”).

E se o destino já rira da cara da Oranje, foi a vez da Islândia. Que manteve a compactação incrível de seu esquema tático (sem a bola, as linhas do 4-4-2 de Lars Lägerback e Heimir Hallgrímsson eram visíveis e próximas uma da outra), e soube esperar o momento certo de mais um erro holandês: o exagero de Gregory van der Wiel na chegada em Birkir Bjarnason em que foi marcado o pênalti. Outra ação impensada que mereceu a crítica de Danny Blind (“Ele é experiente o suficiente para saber que você precisa ficar em pé ali. Não dá para dar carrinho naquela situação, é o primeiro ensinamento”).

Aí, Gylfi Sigurdsson marcou. E o azar de Cillessen seguiu: 26 pênaltis contra ele, 25 convertidos. É bem certo que, com Cillessen no gol, o Jablonec até perdeu um pênalti contra o Ajax, nos play-offs da Liga Europa. Mas a bola foi na trave. Ou seja, o arqueiro nativo de Groesbeek continua sem defender penais, na prática… Depois, restaram as tentativas esparsas e até valorosas, com Memphis Depay, Narsingh e Sneijder. Mas todas indo nas mãos de Hannes Thór Halldórsson. Isso, sem que Blind arriscasse trazer uma referência de ataque de volta, colocando Van Persie ou até Luuk de Jong em campo.

E veio a derrota. Primeira da Oranje em partidas de eliminatórias em casa desde o 2 a 0 de Portugal, na qualificação para a Copa de 2002. Segundo revés doméstico na história da equipe em eliminatórias para a Eurocopa – a primeira derrota fora num longínquo 30 de novembro de 1963, 2 a 1 para Luxemburgo, em De Kuip. Mas, pelo gol de Valerijs Sabala que igualou Turquia e Letônia em 1 a 1, a Holanda seguiu na terceira posição do grupo A. Ou seja: incrivelmente, por mais força que esteja fazendo para ficar fora da Euro 2016, o time ainda depende de si.

O desastre de Amsterdã deixou claro: a Holanda pode até se cuidar defensivamente num 4-3-3. Ainda assim, qualquer golpe do destino – e do adversário também, já que os méritos da Islândia são inegáveis – fazem o time holandês se desmilinguir como um boneco de neve no calor. Resta à desesperada Holanda tentar salvar a via-crucis na decisão contra a Turquia, em Konya, pelo terceiro lugar que leva à repescagem (“Primeiro e segundo lugares não são mais alcançáveis”, reconheceu Blind). Ou então, esperar pelo desastre supremo: ficar fora de um grande torneio, pela primeira vez desde 2002. O que provaria que o terceiro lugar na Copa de 2014 não foi a regra, mas uma exceção. Se é que isso já não foi provado.

Dica/pedido

Com algumas alterações, esta coluna também está disponível no Espreme a Laranja, que decidi reativar nesta semana. Agradeço se os leitores aparecerem por ali.