A primeira participação do Fortaleza nas competições continentais tinha ares de sonho. O Leão do Pici desafiava o Independiente na fase inicial da Copa Sul-Americana. Mesmo derrotados por 1 a 0 em Avellaneda, os tricolores haviam realizado uma boa atuação. E o reencontro dentro do Castelão, nesta quinta, seguia o roteiro de uma noite memorável: arquibancadas em chamas, defesa segura, ponta esquerda infernal, substituto iluminado, imposição gradual até o gol da classificação na reta final. O time de Rogério Ceni abriu dois tentos de vantagem e tinha a façanha nas mãos, contra um gigante que sentia dificuldades de enfrentar os novatos.

Entretanto, o sonho seria interrompido aos 48 do segundo tempo, como se o Fortaleza despertasse em um cruel choque de realidade: o Rojo descontou nos acréscimos e, apesar da derrota por 2 a 1, avançou no torneio continental graças ao gol como visitante. Tão próximo de subir mais um degrau, o Leão se esborrachou. Um golpe fatal dos argentinos que, ao menos, não negou os aplausos da torcida aos seus heróis depois da vitória insuficiente. O Tricolor intimidou o Rey de Copas durante a maior parte do tempo e merecia mais, especialmente pela nova exibição fulgurante de Osvaldo. Fica remoendo, agora, o quase que não se cumpriu.

Antes que o jogo começasse, o clima no Castelão já era sensacional. Durante a entrada dos times, a torcida do Fortaleza realizou mais um de seus famosos mosaicos. Este, um dos mais fantásticos na longa lista de artes tricolores. E a mensagem dos 52 mil que lotavam as arquibancadas era claríssima: “Pra cima, Leão”.

De novo, o Fortaleza se agigantou contra o Independiente. O Leão do Pici fez o seu jogo com muita intensidade, tanto na marcação quanto na transição. David criou a primeira chance aos quatro minutos, mas o goleiro Martín Campaña pegou. E numa partida que tinha mais vontade dos times que lances de perigo, os argentinos tentavam desconcentrar os tricolores, com muitas reclamações e pequenos entreveros.

Osvaldo, novamente, fazia uma partida excelente pelo Fortaleza. O ponta chamava a responsabilidade e servia de escape às principais jogadas do Leão do Pici. Não deixava de se esforçar nem mesmo sem a bola, como em uma arrancada para frustrar o contra-ataque do Independiente, que rendeu muitos aplausos da torcida. E seria ele o responsável pela jogada do primeiro gol. Aos 23 minutos, Osvaldo recebeu o passe pelo lado esquerdo da área e, quando passava por Fabricio Bustos, terminou derrubado pelo lateral. Pênalti, que Juninho converteu. Campaña até acertou o canto, mas não alcançou a bola.

A vantagem permitia ao Fortaleza fazer o seu jogo com mais segurança. Ao menos a prorrogação estaria assegurada com aquele placar. E a torcida se empolgava, algo expresso durante a pausa para hidratação, em que milhares de luzes se acenderam nas arquibancadas do Castelão. Dominante, o Tricolor teria mais uma chance com Romarinho, que Campaña segurou sem problemas. Já aos 44, quem apareceu foi Felipe Alves. O goleiro não seria tão acionado ao longo da noite, mas realizou defesas essenciais, como na pancada de Leandro Fernández que ele se desdobrou todo para desviar com a ponta dos dedos.

Na volta ao segundo tempo, Osvaldo tocava o terror para cima de Bustos. O ponta fazia outra partida em alta voltagem, infiltrando a defesa do Independiente e dominando as ações do Fortaleza. Antes dos 10 minutos, foram ao menos três jogadas em que o atacante deu trabalho à zaga argentina, com seus cruzamentos. A resposta do Rojo veio com Leandro Fernández, de novo barrado por Felipe Alves. O goleiro também se antecipou bem a uma tentativa de Silvio Romero. O duelo seguia no limite, apesar da superioridade do Leão do Pici. Os argentinos, por outro lado, aumentavam sua posse de bola e saíam mais ao ataque.

Enquanto o Fortaleza insistia, o Independiente tentava encaixar seu golpe. A aflição tomava conta do Castelão, mas as chances cada vez mais concretas sugeriam que o segundo gol se aproximava. Martelando, o Leão do Pici desperdiçou algumas chegadas, com direito uma bola de David que Alan Franco salvou em cima da risca. E a festa se deu aos 33 minutos, com influência de Rogério Ceni. O treinador colocou Marlon no lugar de Romarinho e o meia precisou de três minutos para alargar o marcador. Gabriel Dias deu o passe rasteiro e Marlon, da entrada da área, chutou com categoria para vencer Campaña, mandando no cantinho.

O Fortaleza precisava apenas segurar o resultado. E, em meio à empolgação, os tricolores não se preocuparam muito em se retrancar. Pelo contrário, em uma partida que parecia em suas mãos, a equipe seguiu se impondo no ataque. Exausto, Osvaldo saiu de campo aos 44, aplaudidíssimo e com seu nome gritado pela massa tricolor. Mas, sorrateiramente, o Independiente começou a apertar o passo. O baque que estragou a festa aconteceu aos 48 minutos, protagonizado por Bustos, que já não precisava se preocupar mais com Osvaldo.

O lateral da Independiente recebeu pelo lado direito, passou pela marcação e, com dois à sua frente, bateu cruzado. A bola desviou no meio do caminho e entrou no canto do goleiro, rente à trave, sem que Felipe Alves pudesse se recuperar. Em um tipo de finalização que muito lembrava a de Alcides Ghiggia, o Fortaleza vivia o seu ‘Castelazo’. Restavam mais quatro minutos de acréscimos e, apesar da esperança tricolor em achar mais um gol, o time da casa não teve forças suficientes. Nas arquibancadas, a torcida reconhecia após o apito final. Muitos aplausos foram dedicados aos jogadores pela vitória, apesar da eliminação.

Dá para questionar se o Fortaleza não precisava de mais atenção na marcação ou mesmo de um reforço maior no setor. A confiança parecia alta demais e o descuido aconteceu no fim, justo contra um adversário conhecido como Rey de Copas. Porém, muito mais custosos ao Leão do Pici foram os gols perdidos durante a visita a Avellaneda. Arrancar o empate seria fundamental, ou ao menos arranjar um tento fora de casa. A quem foi melhor que o Independiente dentro do próprio Estádio Libertadores de América e dominou a partida em diferentes momentos, o resultado na ida condicionou a linha tênue na volta. Os acréscimos salvaram o Rojo.

Em crise, o Independiente alivia-se um pouco ao manter a sobrevida na Copa Sul-Americana. O Fortaleza, por sua vez, se despede de um sonho – sob esperanças de que a oportunidade se repita em breve. Os torcedores tricolores podem sentir orgulho pela maneira como o clube se portou em sua estreia internacional, sobretudo contra uma camisa pesadíssima nas competições continentais. Todavia, não é isso que anula o desapontamento de quem teve a classificação nas mãos. O Leão do Pici jogou melhor nos 180 minutos, mas paga por erros pontuais. O destino foi cruel, mas deixa a ambição para mais.