* Por Isabelly Morais, repórter da Rádio Inconfidência AM e setorista do Cruzeiro no portal VAVEL Brasil

“Na lata, permita-me dizer assim. Topas ser narradora de rádio?”

Essa pergunta talvez tenha sido a colocação que mais me inquietou em minha curta trajetória no jornalismo. Foi assim que José Augusto Toscano – chefe do Departamento de Esportes da Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte – respondeu, em 23 de maio do ano passado, ao meu pedido de estágio na emissora através do nosso primeiro contato.

Passaram-se, então, exatos 168 dias desde quando deixamos aquela conversa no Facebook e a irreverente proposta de Toscano de fato se concretizou. Em 7 de novembro, narrei a partida entre América Mineiro e ABC, pela Série B do Campeonato Brasileiro, feito inédito para uma mulher em toda a história do rádio mineiro. Uma visão revolucionária, um bocado de coragem e um canal radiofônico formaram a tríade de uma história que me marcou e marcou o meio no qual estou inserida.

Quando entrei na graduação em jornalismo, em agosto de 2015, não projetava esse tipo de oportunidade para a minha carreira. Poucas rádios abririam seus microfones para jornalistas graduadas conduzirem jornadas esportivas, mas Toscano o fez com uma de suas estagiárias, e com uma convicção elogiável. Ele é enfático, é certo do que faz, toma decisões e as protege como um goleiro que resguarda a sua meta.

“Olha!!! Eu nunca trabalhei com rádio, quero ir para um lugar em que possa aprender muito, o que penso encontrar na Inconfidência. Se eu daria certo como narradora? Não sei, porque realmente fiquei surpresa com sua pergunta, mas eu sou muuuuito aberta para me desafiar!”.

Minha resposta àquela primeira pergunta foi de quem realmente se surpreendeu com a proposta, mas que percebeu com bons olhos uma possibilidade de mergulhar ainda mais neste imprevisível campo da comunicação esportiva. Quanto ao desafio? De fato, eu me desafiei, fui desafiada e lancei um desafio no jornalismo.

Na mesma semana da conversa pelo Facebook, Toscano me contratou. Meu principal motivo para sair da empresa em que trabalhava foi o fato de não sentir mais que crescia, ainda mais por encarar minha profissão como uma possibilidade de crescimento que se renova a cada dia. Paralelo a isso, dividia meu tempo com a dedicação ao portal VAVEL Brasil, de jornalismo esportivo, do qual faço parte até hoje. Estando na Inconfidência, cheguei a desempenhar as funções de repórter, comentarista e apresentadora, mas o discurso da narração sempre esteve presente nas falas de Toscano. “Antes de acabar o ano, você vai narrar um jogo”, ouvia.

Ciente de que essa bola em jogo um dia entraria, narrei lances em casa e treinei sozinha. Em 26 de outubro, Toscano me informou que a narração de América e ABC seria minha, e uma reação imediata foi devolver logo uma afirmação: “Ok, beleza!”. Chamei um amigo em seguida e contei com certa apreensão. “Vou estrear em América e ABC. Meu coração está na mão, porque é o maior desafio da minha vida”. De fato, nunca passei por algo igual.

No dia da narração, em 7 de novembro, o mesmo amigo que outrora leu certo nervosismo em minhas palavras, acompanhou-me em uma chamada de telefone. A mania de conversar rápido e de forma ininterrupta em momentos de inquietude foi colocada à prova por exatos 52 minutos. A caminho do Estádio Independência, tentei manter meu foco em meio a incontáveis mensagens. Não foi possível negligenciar o nervosismo que me fez pensar em vários passos que dei em Belo Horizonte desde agosto de 2015 até aquele percurso em direção ao estádio – e como demorou. Quando o duelo entre América e ABC foi iniciado, nada mais existia ao meu redor: éramos jogadores, bola e eu. Apenas isso interessava para mim.

A dinâmica da narração é extremamente singular – uma disposição concomitante de sentidos, eu diria. O narrador fala o que vê e precisa atribuir um caráter imagético a quem ouve. Ainda, uma jornada esportiva tem certos protocolos que precisam ser seguidos, por mais dinâmica que seja na prática. Juntar todos esses pontos em uma transmissão ao vivo é extremamente desafiador.

(Foto: Daniel Hott / América)

Retomo agora o dia 26 de setembro, exatamente um mês antes de Toscano me dizer que narraria o jogo do América. Karina Amélia, uma amiga da redação, alimentava a apreensão de trabalhar na final da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Flamengo. Na ocasião, ela cobriria o time carioca, em duelo agendado para o dia seguinte. Um amigo de um de nossos operadores, que estava na rádio, percebeu a ansiedade que teimava em perturbá-la. Sacou, então, um trevo de quatro folhas plastificado e desejou sorte à Karina. No outro dia, em pleno Mineirão abarrotado de torcedores, ela fez um trabalho incrível.

A empatia daquele homem não parou por aí. Assim que cheguei ao Independência para a minha primeira narração, Karina – que atuou como repórter no duelo do Coelho frente ao ABC – esperava por mim. Com ela, estava o mesmo amuleto que pouco tempo antes fez com que mantivesse a calma diante do Gigante da Pampulha com mais de 60 mil torcedores.

Quando a minha primeira jornada terminou, as luzes do Independência já estavam apagadas. Por minutos, continuei na tribuna olhando para cada canto do estádio, quase sem acreditar no que havia feito. Com 20 anos, narrei um jogo por uma das rádios mais tradicionais de Minas Gerais, emissora que já entrou na casa dos 80 anos. A partir disso, iniciou-se uma repercussão que inevitavelmente aconteceria, e passei a conviver com críticas e elogios, de pessoas desconhecidas  em sua maioria.

Dias antes da narração, Toscano me disse o seguinte: “Vai, erra e faz”. Mesmo não sendo físico como o trevo de Karina, esse pedido certamente foi outro amuleto que carreguei comigo e carrego até hoje. Fui, errei, mas narrei. Decidi me expor em um meio que historicamente reivindicou um protagonismo masculino sem considerar as vozes femininas que tentaram ser ouvidas. O futebol é machista e assim se revela diariamente.

Em tempos de busca por igualdade, muito se fala sobre a mulher alcançar o seu espaço, porque, por anos, o que se viu foram territórios sendo limitados para as profissionais. “Tal função é coisa de homem, tal função é coisa de mulher”. Essa divisão já foi muito imposta dentro da comunicação esportiva em oportunidades e discursos, e após a narração percebi que continua sendo. “Não é machismo, mas mulher comentando futebol já é estranho, agora narrando é uma coisa que não tem nada a ver. Estão acabando com o tradicional futebol”, continha um tweet que li, exatamente com essa mensagem.

Quando a palavra “machismo” vier acompanhada de um “mas”, há uma enorme chance de conter algo velado, porém latente por trás do respectivo posicionamento. Muitas vezes, o uso dessa conjunção (não à toa adversativa) tenta camuflar uma realidade que, convenhamos, não pode mais ser escondida. Não vejo problema em manter certas tradições dentro do futebol, inclusive percebo algumas como fundamentais para a perpetuação de marcas dentro da modalidade. No entanto, que isso ocorra desde que não se limite algo/alguém ao que aspira, não enquadre uma jornalista dentro de um cerco que seria o “ideal” para ela.

Em todo esse contexto da narração, um certo dualismo chamou minha atenção: homem e mulher, ou reproduzindo alguns discursos, homem x mulher. Em alguns comentários, vi mulheres afirmando a necessidade de mostrar para os homens o valor delas, mas, em contraste, vi também mulheres negando a narração. Às vezes, fica nítida a separação dos sexos em polos, em extremos, criando um universo conflituoso. Essa visão maniqueísta recorrentemente é reproduzida, e o machismo acaba sendo atribuído apenas a homens. Porém, é importante resgatar seu conceito e vê-lo por esse aspecto. Há homens machistas, há mulheres machistas, e é o discurso dessa crença que precisa ser banido. As barreiras independem do gênero que as impõem.

Passei a conviver também com comparações, mas aqui cabe um ponto importante: grandes narradores tiveram suas inserções na área em contextos totalmente distintos do meu. Vivo numa era de comunicação difusa, na qual tudo pode viralizar em um tempo frenético e sem o mínimo de controle. Por isso, a resposta à minha primeira narração foi muito mais atordoada que a de profissionais que estão no mercado há mais tempo; não é possível equilibrar numa balança nossos trabalhos, equiparar nossas trajetórias.

(Foto: Mourão Panda / América)

“Estranho”. De novembro para cá, esse foi um dos adjetivos que mais ouvi sobre minha narração e aos poucos encontrei uma explicação para isso. Quem gosta de acompanhar futebol certamente já teve a prazerosa sensação de ouvir uma partida pelo rádio, e a voz masculina sempre esteve presente nesse universo. É simples: tudo o que envolve um certo costume se torna natural (por isso tanta defesa do “tradicional”). Por outro lado, quem se acostumou com a voz feminina à frente de jornadas esportivas se não há espaço para mulheres na função? Com essa quase inexistência, é mesmo entendível que muitos ouvintes tenham estranhado. O movimento pelo qual prezo, então, é justamente o da naturalização da voz feminina, o que só vai ocorrer se cada vez mais forem dadas oportunidades às mulheres.

Como em qualquer profissão, meu trabalho foi criticado. “Voz fina”, “entonação ruim”, “pouca garganta”, “voz aguda demais”, tudo isso compôs uma gama de análises que esperava e até compreendo. Mas, o que de fato me incomodou não foi isso. O problema foi ver disparos à minha condição, ao fato de ser uma mulher na narração. Críticas surgem a narrador A ou B pelas características de seu trabalho, mas nunca porque é um homem conduzindo a jornada.

Outro dia, fui questionada se acho que a voz feminina passa menos credibilidade dentro do futebol. Quanto a isso, não se pode pensar apenas pelo viés da profissional. Credibilidade é algo construído por um lado, mas não deixa de ser uma atribuição do outro. Uma situação possível seria uma jornalista não apurar bem os fatos ou passar informações incompletas (o que pode acontecer também com um jornalista); outra questão totalmente diferente é a voz por si só carregar menos ou mais credibilidade. Muitas vezes, o que torna algo mais ou menos crível parte de quem assim o atribui.

Se houve uma reação negativa, o oposto também ocorreu. Recebi mensagens incríveis de várias partes do país e de fora dele, o que teve um peso bem maior para as minhas projeções dentro da área do que os discursos pejorativos. Não só elogios, mas também críticas positivas formaram o motor de uma temporada enxuta na narração que olha com ânimo para 2018.

Em menos de um mês, narrei dois jogos do América (ABC e CRB), dois do Atlético Mineiro (Bahia e Grêmio) e um do Cruzeiro (Avaí). Ao todo, foram 18 gols em cinco partidas. Do dia 7 de novembro a 3 de dezembro, traduzi a emoção nos tentos de Thiago Neves, Judivan, Junior Dutra (2), Robinho (2), Edigar Junio (2), Fred, Elias, Otero (2), Pepê, Batista, Jean Pyerre, Giovanni e Rafael Lima (2). Se a voz de um (a) narrador (a) conta casos dos gramados, treze atletas distintos me forneceram bons enredos.

Depois da minha narração, Elaine Trevisan também estreou pela Rádio Poliesportiva, de São Paulo, ao lado de Natália Santana e Juliane dos Santos em uma transmissão completamente feminina. Conheci ainda as narradoras Clairene Giacobe, da Estação Web (RS), e Núbia Alves, da Rádio Universitária (GO), colegas contemporâneas. Como já afirmei em outros espaços, existem inúmeras mulheres apaixonadas por futebol e que anseiam que suas carreiras sejam protagonizadas por ele.

O caminho está aberto e a bola logo vai rolar para 2018. Uma nova temporada será iniciada dentro e fora dos gramados para quem conta e cede contos no futebol. Quanto a nós, mulheres, a única demarcação com que queremos lidar são as quatro linhas que limitam os campos dos quais contamos histórias.


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