Foi uma batalha em Assunção, como era esperado. O Fluminense entrou em campo com aquela ideia de conseguir um gol que complicaria o Olimpia, depois do empate por 0 a 0 no Rio. Era o pensamento do técnico Abel Braga, que chegou a dizer, antes do primeiro jogo, que preferia empatar por 0 a 0 do que vencer por 2 a 1. Isso mesmo: o técnico tricolor achava que empatar sem levar gols era melhor do que vencer tomando um. Um desafio à matemática, fruto de um exagero em relação à regra do gol fora de casa. Um exagero que parece ter feito o Fluminense até esquecer que do outro lado tinha um adversário, um time de peso, tradição, três vezes campeão da Libertadores, em um ambiente hostil, com uma torcida fanática.

E olha que o Fluminense teve todas as chances para avançar. Logo no início do jogo, uma daquelas infelicidades que torna a vida dos zagueiros muito difíceis. Manzur atrasou mal a bola de cabeça, Rhayner aproveitou, chegou antes do goleiro e tocou por cima. Gol do Flu. Aquele esperado gol, de um acaso terrível, a chamada bola vadia, bateu à porta do tricolor e Rhayner, logo ele, que ainda nem tem tanta intimidade com a rede, não perdeu a chance. Agora, a missão do Olimpia era fazer dois gols e não tomar mais nenhum. A partir daquele momento, não havia mais possibilidade de disputa de pênaltis.

Dono do jogo, o Fluminense parecia mais calmo, enquanto os paraguaios, apressados, pareciam jogar no desespero. As jogadas trabalhadas não era frequentes, mas o Olimpia se armou para a pressão. Jogou mais um atacante entre os zagueiros e foi para o campo de ataque. Campo que o Flu deu, sem hesitar. O Olimpia trabalhou no campo de ataque o primeiro tempo todo depois de sofrer o gol. As chances não eram claras, o Olimpia tentava. O Flu parou de jogar. Se fechou, deu campo e especulou. E o futebol às vezes é cruel com essas vantagens.

Por aqueles motivos que pouco se pode explicar, veio o gol. Salgueiro cobrou uma falta para a área, mas ela tomou o caminho do gol, surpreendeu o goleiro Diego Cavalieri, a defesa do Flu e talvez até o próprio Salgueiro. Gol do Olimpia. Mas a vantagem ainda era do Flu. O empate por gols era tricolor. Mas aí…

Veio um chutão para frente, que acabaria no domínio de Bareiro, que caiu na área depois de se enroscar com Digão. Um lance duvidoso, mas que o árbitro uruguaio Daniel Fedorzuck não teve dúvidas em apontar a marca da cal. Salgueiro, novamente, foi para a bola e mandou no canto, sem chance. Olimpia 2 a 1. E o árbitro deu mais combustível para as teorias da conspiração de que a Conmebol não quer um time brasileiro avançando. Mas se é isso, o Fluminense ajudou bastante.

A torcida do Olimpia, que fazia muita festa desde o início. A cantoria era pesada. A pressão enorme. O Defensores Del Chaco, um dos palcos mais tradicionais da Libertadores, fervia. Um mosaico da torcida lembrava as três Libertadores do clube. Lembrança que os jogadores do Flu pareceram não lembrar ao final do jogo, depois de ver o time tentar pressionar, mas se bagunçar em campo e levar pouco perigo ao gol de Martín Silva. Na base do abafa, bolas na área e tentativas pouco produtivas, o Flu viu o sonho da Libertadores se desmanchar nas mãos de uma torcida que conhece bem como é levantar a taça. O tricolor esperava uma bola vadia que procurasse o artilheiro Fred, que faz gols, além de fazer sucesso. Ela não veio.

O Olimpia é o único time classificado às semifinais que já ganhou a Libertadores. Passe o Atlético Mineiro ou o Tijuana (improvável, mas futebol é jogado no campo), nenhum dos dois levantar a taça da Copa até hoje. O Olimpia já. Ao final do jogo, Abel Braga, Edinho, Rafael Sóbis e outros jogadores do Flu disseram que o time não mereceu ser eliminado. Sóbis foi além e disse que o Fluminense perdeu para ele mesmo. O atacante deu entrevista dizendo isso enquanto a torcida do Olimpia se esgoelava ao fundo, comemorando. Abel disse que estava orgulhoso do time, que lutou muito. Sim, é verdade, lutou muito. Mas lutar é pouco. Não é boxe, não é MMA. É preciso lutar sim, mas jogar futebol também. Time de Guerreiros é uma boa estratégia de marketing, mas é péssima estratégia de campo. Em campo, é preciso saber o que fazer em situações adversas, saber o que o adversário faz, criar alternativas usando as próprias armas. O Fluminense não fez nada disso.

É verdade, o Olimpia não era um time tecnicamente tão bom quanto o Flu. Continua não sendo. Mas futebol, ainda bem, não é um jogo de supertrunfo. Não basta jogar um atributo melhor. Futebol é preciso ser jogado. E em campo, nem sempre os orçamentos muito maiores se traduzem em vitórias. É preciso ir além dos números. Ninguém vence por osmose, ainda mais em um dos ambientes mais hostis da Libertadores. O Olimpia usou de todas as armas possíveis, algumas até que já não deveriam mais ser possíveis, como sumir com os gandulas em boa parte do segundo tempo. Essa é a parte da Libertadores que ainda é preciso mudar. Mas que não servem de desculpa para quem é eliminado. O Olimpia é tricampeão da Libertadores, campeão do mundo. É preciso respeitar essa camisa.