O dérbi se joga em casa: O País Basco expressou seu orgulho por Athletic e Real no sábado da final adiada

“Enquanto a tarde caía na Andaluzia, a multidão tomava as ruas na Ilha de La Cartuja. De um lado, uma massa ornada de vermelho, fundia-se com outra adornada de azul. As palavras proferidas, incompreensíveis à maioria que via de fora, a eles tinha sentido de festa. E não seria aquele momento, o mais importante da história do Dérbi Basco, que sobreporia o histórico cordial entre os lados opostos. Rivais, sim, mas não inimigos. As multidões também se misturavam e compartilhavam a euforia pelos 90 minutos que estariam por vir. O clássico de todos os clássicos também valia para exibir o orgulho de uma gente, e de uma região que possui dois grandes emblemas: Athletic Bilbao e Real Sociedad estavam prontos à memorável final”.

A narrativa épica, que realmente poderia estampar as páginas esportivas e trazer detalhes de uma das mais simbólicas decisões da Copa do Rei a partir deste sábado, torna-se apenas um exercício imaginativo e literário por motivo de força maior. Athletic Bilbao e Real Sociedad não se enfrentarão no Estádio de La Cartuja neste de 18 de abril, conforme programado de início. As preocupações são muito maiores que o futebol neste momento, sobretudo na Espanha, um dos países mais afetados pela pandemia do coronavírus. Ainda assim, a mente não deixa de trabalhar. De imaginar. E mesmo sem que a bola role em Sevilha, a final aconteceu de outras maneiras no País Basco. O orgulho resiste e não deixaria de ecoar.

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Athletic e Real possuem um histórico de rivalidade, mas também de aproximação em diversos momentos difíceis. Em tempos nos quais a identidade basca era suprimida pela ditadura franquista, os dois clubes davam seu jeito de tentar preservar a cultura e as raízes. Os estádios de San Mamés e Atotxa eram raríssimos espaços nos quais o pertencimento local se expressava. Os clubes eram escassos lares à resistência. Assim, enquanto o franquismo sucumbia e a democracia voltava, os dois rivais se levantaram juntos. Aquele 5 de dezembro de 1976, em que os capitães de ambos os times carregaram a bandeira basca ao gramado antes do clássico, tem um significado muito além do futebol.

Desde então, Athletic e Real tiveram seus momentos dominantes no Campeonato Espanhol durante os anos 1980, mas também enfrentaram períodos de vacas magras e precisaram lidar com a escassez de glórias. A final da Copa do Rei de 2020, assim, será a chance de conquistar o título nacional de primeira grandeza que não vem para ambos há mais de três décadas. Mas não só isso. Porque, afinal, alvirrubros e alviazuis não deixaram de ser grandes bandeiras regionais, de atrair multidões no nordeste do país ou de aglutinar as pessoas por um sentimento comum. O orgulho basco poderia estar adormecido nas tabelas de classificação, mas nunca no peito de sua gente. E isso já torna viva a decisão da Copa do Rei, mesmo à espera do momento oportuno.

Com as pessoas em isolamento, a final foi jogada nas sacadas e janelas dos apartamentos ao redor do País Basco. Segundo relatos da imprensa local, milhares de torcedores expuseram sua torcida neste 18 de abril através de bandeiras, camisas e cachecóis pendurados. Bilbao e Donostia foram os epicentros de tal onda, uma mais vermelha e a outra azul. De qualquer maneira, a expressão do pertencimento se viu em outras cidades menores da comunidade autônoma, e mesmo fora dela. A decisão se joga em casa, e com muito mais gente que nas arquibancadas de La Cartuja.

A capacidade do estádio, aliás, seria superada de qualquer maneira neste sábado. Ao todo, 60 mil ingressos foram colocados à venda para a decisão da Copa do Rei. Todavia, a rede hoteleira local recebeu uma demanda muitíssimo superior a esses números e, além da disparada nos preços, não existiam mais quartos disponíveis para locação em Sevilha – e isso sem contar os milhares que dariam seu jeitinho ficando na casa de conhecidos, dormindo no carro ou acampando em algum canto da cidade litorânea. A invasão basca seria muito maior.

Muita gente até perdeu dinheiro nessa história, mas não a paixão e a expectativa. A resposta dada pelos torcedores no País Basco demonstrou isso. A federação espanhola cogita encerrar previamente o campeonato e compartilhar as vagas nas competições europeias. Entretanto, por todo o sentimento que desencadeou, é muito difícil imaginar que esta decisão da Copa do Rei não aconteça de alguma forma – mesmo sem a chancela oficial, mesmo que meses ou anos se passem até que o sinal verde seja dado. Por suas torcidas, Athletic e Real devem dar um jeito ou outro para que esse momento se celebre – com arquibancadas lotadas e gente nas ruas.

Os dois clubes já declararam seu desejo de que a decisão aconteça. Não pretendem ver o torneio cancelado. E também preferem que ocorra com o público presente. Afinal, mesmo que os portões de La Cartuja fiquem fechados e a bola role para 90 minutos definitivos ao clássico, é improvável que a massa se contenha completamente em casa. As urgências do momento são outras e as autoridades, sobretudo as sanitárias, devem pensar bastante antes de permitir um jogo de tamanha importância.

Através de suas redes sociais, Athletic e Real Sociedad contribuíram ao clima da final latente. Os alviazuis reproduziram dezenas de fotos das sacadas enfeitadas e também um vídeo do duelo imaginado com bonequinhos de Playmobil. Os alvirrubros elaboraram um vídeo recontando a caminhada na Copa do Rei, além de divulgarem também algumas fotos das janelas – inclusive de seus futebolistas. E, juntos, tal qual aquele dezembro de 1976, uniram os jogadores em uma mensagem gravada de suas casas. Os ídolos lembraram que, quando a partida finalmente ocorrer, será o sinal de uma vitória maior do País Basco e da Espanha como um todo.

“Pela primeira vez depois de mais de 100 edições da Copa, a Real e o Athletic se enfrentarão em uma final. A ‘Final Basca’, a chamam. Será uma partida histórica. Carregada de rivalidade, mas também de alegria e união entre as torcidas. E, quando for, será uma grande final. Primeiro, porque significará que superamos os piores momentos desta pandemia. Segundo, porque conseguiremos entre todos. E, sobretudo, eskerrik asko [obrigado] a todos os que estão lutando na linha de frente desta final contra o vírus. Não importa quais sejam suas cores, esta final é de todos e, entre todos, a ganharemos”, ressaltaram os atletas, no vídeo. Iker Muniain, Aritz Elustondo, Aritz Aduriz, Willian José, Iñaki Williams e Asier Illarramendi participaram.

A consciência coletiva, por enquanto, precisa preponderar. Os exemplos vêm dos próprios clubes, nos quais os elencos aceitaram reduções salariais próximas aos 20% para evitar que outros funcionários sofram as consequências e que as agremiações corram riscos financeiros. E se o engajamento sempre teve um pano de fundo identitário na rivalidade, pensar na comunidade como um todo é um ato natural de solidariedade à história do dérbi basco. Juntos, os clubes podem sair mais fortes dessa.

A decisão se prorroga, mas reforça seu caráter especial, mesmo que a bola não role. E que, quando isso enfim acontecer, possa fazer valer a vontade de muitos torcedores neste momento: com pessoas reunidas, abraços em gente querida e a leveza inerente pelo fim dos maiores temores. A Final Basca poderá ter um simbolismo além.

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