Do Monumental “U”, a convite da Rexona Brasil

O Flamengo é um clube que, para entendê-lo por completo, não basta conhecer sua história ou entender o ethos de sua torcida. Boa parte do que é ser Flamengo se concentra em uma crença. A grandeza do ser rubro-negro constitui-se não apenas por fatos inapeláveis ou números imponentes, mas também por uma série de místicas, às vezes com certos toques folclore. O Flamengo ganha proporções gigantescas naquilo que se crê, que se torna a verdade absoluta na mente dos torcedores. E muitas dessas marcas características se cumpriram neste sábado eterno, numa tarde em Lima que preenche os anseios de todos os flamenguistas. O sonho que se arrastou por décadas virou realidade da forma mais apoteótica. Mais inesquecível. Mais Flamengo.

A equipe de Jorge Jesus materializou nos últimos meses um Flamengo ideal. O Flamengo do jogo bonito, de uma imagem que se construiu através de diferentes equipes, e que não se via realmente tão forte desde os dias mais importantes, aqueles vividos entre novembro e dezembro de 1981. Entre o toque de bola envolvente, a fome de gols insaciável e a impressão de que em todas as posições há jogadores acima da média, os rubro-negros protagonizavam o ápice de seu DNA ofensivo, que permaneceu ao longo dos últimos 38 anos com manifestações mais esparsas. Ainda assim, para atingir esta versão imortal, o Flamengo precisou ser Rocky Balboa no Estádio Monumental “U”. Apanhou até evocar a essência por completo.

A aura de um clube, afinal, não se contorna apenas por traços positivos. E o Flamengo parecia entregue a outros clichês que tanto aborreceram os seus torcedores nos últimos tempos. O River Plate sufocava um adversário que sentia o peso da final da Libertadores. Via-se o mesmo time desencontrado e impotente de outras edições recentes do torneio continental. Os erros se acumulavam, os principais jogadores não funcionavam e os millonarios se mostravam propensos a punir qualquer erro – como fizeram com Rafael Santos Borré, e poderiam ter castigado mais, se fossem um pouco mais eficientes na hora de concluir as suas jogadas.

O River Plate se mostrava um adversário matreiro, copeiro. Uma equipe que entendeu muito bem o jogo do Flamengo e soube controlá-lo como quem segue um manual. As saídas de bola do time de Jorge Jesus não funcionavam. Os laterais eram um ponto frágil, pela forma como os argentinos exploravam suas costas. O meio-campo não exibia sua fluidez, estático e perplexo com a forma como os oponentes atacavam os espaços. E o ataque via seus dois grandes nomes completamente travados. A fama negativa de um clube atormentado pelo “cheirinho” era perfume às narinas dos millonarios, que farejavam o sangue na cancha do Monumental.

Mas se o Flamengo, nas cordas, era tudo o que não deveria ser durante o primeiro tempo de um rival supremo, começou a dar seus sinais de melhora na etapa complementar. Começou a se recobrar do que é feito o Flamengo. Tudo ainda parecia por um triz, pela forma como o River Plate se mostrava pronto a açoitar o mínimo deslize. Mas o Rocky Balboa, tão surrado nos minutos anteriores, recuperava os seus sentidos. E percebia, pouco a pouco, o que representa o vermelho e o preto em seu uniforme. Vibrou, teve muita fibra e as libras pesaram toneladas para amassar os argentinos nos últimos instantes.

A torcida do Flamengo em Lima acreditou até o fim (Getty Images)

Se o cansaço da maratona de jogos e do sol ardido pareceram diminuir o ritmo do Flamengo nos primeiros atos da decisão, o desgaste sobre as pernas desapareceu em seu clímax. Foi o River Plate quem sentiu mais a intensidade que impôs, e as trocas que fez. O tônico essencial, aliás, seria a maior mística rubro-negra: a torcida, a magnética, que passou a jogar ainda mais junto com o time. Se já vinha participando ao longo da tarde e rivalizando com os argentinos na voz, mesmo com a derrota parcial, a massa flamenguista explodiu em certo momento para deixar claro como o Fla ainda estava vivíssimo em seu sonho pela taça. Tudo o vivido anteriormente na campanha não era em vão.

Os riscos ainda existiam, era perceptível. Mas o Flamengo virou o Flamengo que deveria ser desde o início, com atitude. E a isso se une a qualidade, bem como outras tantas entidades flamenguistas. O camisa 10 da Gávea? Apareceu, transfigurado em um Diego que deixou para trás toda a empáfia dos fracassos anteriores, se tornando a tarimba que o time precisava, e também em Everton Ribeiro, o cérebro que aparecia em diferentes cantos para ajudar a organizar o pensamento. O Fla teve jogadores tão talentosos quanto combativos, que tiraram energias de onde não mais parecia haver para sobreviver nos minutos finais, quando muitos no estádio se viam desenganados. Os rubro-negros se impuseram com todo o gigantismo que autoproclamam. Com a grandeza que seu nome suscita.

Ao contrário do que poderia se pensar a um time em suas condições de extrema unção, respirando por aparelhos, o Flamengo não partiu ao abafa dos chuveirinhos. E certamente alguns deram o caso como perdido naquela sequência de arremates em que a bola insistiu em não entrar. Mas os rubro-negros mantiveram o foco pelo objetivo, jogaram com a bola no chão. Durante os mágicos minutos finais, fizeram valer este misto de raça e talento que, nos clamores da torcida, se fundem como a versão ideal do time. Uma simbiose tão bonita ao Fla quanto é o vermelho e o preto de seu manto.

No primeiro gol, o do empate, percebe-se exatamente isso. Arrascaeta foi o jogador de decisão, aquele que não é só nome ou cifra. Deu o carrinho para iniciar o contra-ataque e arrancou também para definir a jogada. Bruno Henrique, na máxima velocidade que lhe é tão característica, até parecia tomar a decisão errada ao cortar para dentro. Teve seu lampejo até devolver a Arrascaeta dentro da área. Então, veio o passe para Gabriel. A bola limpa e consecratória do predestinado.

Gabigol marca o primeiro gol dele na final (Getty Images)

Gabigol embebeu-se de outras tantas essências do Flamengo nestes últimos meses, e como nunca nos últimos minutos. Há um quê de folclore em sua imagem, como tão característico em outros goleadores de grandes títulos pelo Fla. E, assim como à maioria destes, há muita bola no centroavante que pressente o gol, cumprindo-o com muita técnica. Gabriel foi diamante, foi batuta, foi danado, foi brocador, melhor que Eto’o ou qualquer outro nesta cena final do filme do Monumental. Foi o Gabigol que agora tem passe livre a exercer toda a sua marra, e a permitir ao flamenguista ser o marrento de sempre no deboche que tanto é marca do futebol carioca – assim como da própria maneira do carioca ver a vida.

O Flamengo tinha encontrado a fresta à sua salvação. De tanto bater na parede, aprendeu que era preciso tentar algo diferente e espetar um pouco mais os passes contra um adversário exausto. E a partir do minuto 43, o mesmo de tão boas lembranças, fez valer o velho lema: o “deixou chegar” em seu ápice, elevado à máxima potência. A um clube que se recuperou diversas vezes em campanhas para alcançar títulos que pareciam impossíveis, o Fla aproveitou a decisão tão aguardada e assistida para ensinar ao resto das Américas o que é tal espírito. A lenda tão real do time que cresce no momento preciso, para transformar tudo que era nebuloso em uma plena certeza de que a taça ficará em mãos.

O River Plate sentiu o baque. E também com sua fama tão desgraçada, aquela que rendeu o apelido de galinhas em 1966, o peito do time de Marcelo Gallardo esfriou como já havia acontecido contra o Lanús em 2017. Desta vez, a zero absoluto, de uma maneira ainda mais cruel. Ainda mais redentora ao Flamengo. A bola longa da defesa rendeu um bate-cabeça da dupla de zaga millonaria, como não ocorrera ao longo de toda a tarde. O destino seria mesmo de Gabriel. O desfecho perfeito a um Fla que não chegou tão longe à toa. Era destino, e talvez nem ponto final.

Muitos podem até dizer que a vitória do Flamengo “foi injusta” pela maneira como a partida se construiu. Mas também seria injusto negar tamanha alegria a uma torcida que se deslocou em massa ao Peru. Também seria injusto ver um ano tão fantástico terminar de forma tão apática aos rubro-negros – e que afetaria as impressões sobre o provável título incontestável no Brasileirão. Justiça se fez ao clube que ressurgiu das cinzas contra o Emelec e que pulverizou o Grêmio numa atuação histórica. Justiça com ares epopeicos, guiados pelo sebastianismo ao redor de Jorge Jesus. Com uma vitória agônica, a uma torcida que tão bem soube apreciar esse tipo de triunfo em diferentes momentos de sua história. Este – com o perdão a Rondinelli, Petkovic ou Valido – mais hiperbólico do que nunca.

O Flamengo ganhou do River Plate para, no fim das contas, tentar evocar agora outro grande capítulo de seu passado: a da final do Mundial contra o Liverpool. Resta mais algum tempo nesta preparação e não será um revés que diminuirá tudo o que se viveu neste momento, num ano onipotente em vermelho e preto. Mas seria a chance de cumprir as estrofes entoadas a cada átimo pelos torcedores, trocando apenas o dezembro de 1981 por 2009. Enquanto muitos desdenhavam da grandeza que os rubro-negros sempre afirmavam, ela se erigiu de uma maneira que ninguém pode negar. Foi a partida em que todas as místicas se comprovaram, para contar e escancarar o que é Flamengo.