Daniel Alves conquistou suas primeiras chances na Seleção logo após a Copa do Mundo de 2006, quando já estourava no Sevilla. Disputou uma série de amistosos, até estrear em uma competição oficial durante a Copa América de 2007. Mesmo perdendo a posição para Maicon, o novato viu as portas se abrirem a partir do torneio. Sobretudo, porque ele seria um dos responsáveis por demolir uma Argentina favoritíssima na decisão em Maracaibo. Entrou no decorrer do jogo e anotou o gol que fechou a vitória por 3 a 0, coroando o inesperado título.

Passaram-se 12 anos desde então. Com 114 partidas nas costas, o lateral é o terceiro jogador que mais defendeu o Brasil na história – emblematicamente, atrás apenas de Cafu e Roberto Carlos. Faltam troféus mais importantes para referendar sua grandeza na equipe nacional, mas nem por isso deixa de ser um nome marcante. E ele foi o cara que bateu no peito em mais um duelo contra a Argentina. Daniel Alves sentiu o jogo no Mineirão e jogou como quem não sente o peso da ocasião. Na bola e na atitude, fez uma senhora exibição nesta semifinal. Aquela que pode ser a memória definitiva do capitão de 36 anos na Canarinho.

Tudo pareceu confluir para a atuação excepcional de Daniel Alves contra a Argentina. O camisa 13 desempenha um papel importante nesta Copa América: é praticamente um armador na Seleção, centralizando o jogo e aparecendo para criar. Já vinha de boas aparições no torneio. Nenhuma como a que se viu contra a Albiceleste. A ausência de Filipe Luís, que vinha bem pela esquerda, aumentou o protagonismo do outro lado do campo. A própria equipe argentina não possui o melhor sistema de marcação pelos lados. Era uma avenida aberta para o veterano fazer o que sabe de melhor. No entanto, isso ainda dependia de sua vontade. Daniel Alves teve fome de bola nesta noite em Belo Horizonte.

Daniel Alves era onipresente. Em qualquer ponto do lado direito do campo, lá estava o defensor, com espaço para avançar e criar. Chamá-lo de defensor, aliás, acaba sendo uma limitação a tudo o que o camisa 13 proporcionou no Mineirão. Contra uma Argentina com suas carências coletivas, o camisa 13 viu o campo se abrindo para si. Pôde chamar a bola e conduziu a partida para o Brasil.

O lance de Daniel Alves no primeiro gol é a arte do improviso elevada à máxima potência. Primeiro veio a roubada de bola. Depois, o lateral vislumbrou a jogada em sua cabeça e a inventou no campo com enorme perfeição. O chapéu deixou perdido Marcos Acuña. Depois, não teve trabalho em dar um corte seco no pobre Leandro Paredes, que veio com muita ânsia e passou lotado. E teve a visão, sem precisar direcionar o olhar, para perceber Roberto Firmino passando livre ao seu lado. O craque uniu o drible, o passe, a leitura. Fundamentos completos para ser o grande artista na pintura.

As combinações ao redor de Daniel Alves se tornaram a melhor válvula de escape para o Brasil. Não seria uma partida de muitas chances de gol ao time de Tite. Todavia, sempre que o lateral subia, causava temores óbvios aos marcadores argentinos. Jogava de cabeça erguida e buscava o diferente, especialmente por seus dribles e cruzamentos. Tornou-se a bola de confiança do time e, não à toa, terminou como o atleta mais acionado da equipe. O ritmo da partida tantas vezes estava ali, na direita, no camisa 13.

Mas não foi apenas ofensivamente que Daniel Alves apareceu bastante. Também deu duro e chegou junto em uma partida de entradas firmes. Ficou no limite de ser expulso. Mesmo assim, brigou pela bola e conseguiu ajudar nos momentos em que a Argentina buscava pressionar. Correu riscos em suas subidas, como na bola em que Lionel Messi carimbou a trave. Porém, se acabou mais preso durante o segundo tempo, depois da primeira etapa exuberante, foi justamente porque se empenhou para segurar o resultado. Ángel Di María entrou por ali e não se criou nos minutos finais.

Daniel Alves está longe de ser unanimidade. Algumas de suas declarações fora de campo não caem bem, enquanto os erros causados por sua postura ofensiva incomodam seus críticos. Isso, contudo, acaba sendo uma exceção em uma grandiosa carreira. E o lateral vitoriosíssimo, que se colocou entre os melhores da história por aquilo que fez em seus clubes, carregou esse lastro na Seleção nesta semifinal de Copa América. Era o exemplo, pela vontade. Era o líder, pela forma como o time orbitava ao seu redor. Era o craque, por tudo o que concretizou. O tempo do veterano com a camisa amarela se esgota. Ainda mais por isso, foi ótimo ver o ápice de um jogador com sua grandeza em uma partida desse calibre.