Os Aliados já haviam conquistado a guerra na Itália e Benito Mussolini acabara de ser assassinado. Pode até soar estranho que, em meio a essa convulsão de acontecimentos, Adolf Hitler tenha se casado com Eva Braun em 29 de abril de 1945. Na verdade, estava apenas se preparando para a morte. No dia seguinte, o ditador alemão se suicidou ao lado da esposa. Há 70 anos, o povo alemão se via livre de um dos maiores psicopatas da história, enquanto o resto do mundo tinha o caminho aberto para encerrar a Segunda Guerra Mundial e retomar a paz. Em 8 de maio, com Berlim tomada, é declarado o Dia da Vitória.

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Os devaneios de Hitler botaram em risco diversos povos e transformaram a história da Alemanha. Um capítulo do país do qual a maioria absoluta quer passar por cima. E o futebol, inserido dentro de uma sociedade extremamente militarizada e nacionalista, obviamente sofreu as suas consequências. O esporte como um todo era utilizado no conceito de superioridade ariana proclamado pela ditadura. Algo que também respingou sobre os clubes, os jogadores e a própria seleção alemã.

Segundo os registros históricos, Hitler apareceu apenas uma vez em um estádio para ver futebol. As cenas de reverência ao nazismo até se repetiram em algumas oportunidades, como no Inglaterra 6×3 Alemanha de maio de 1938 (quando Stan Cullis se tornou o único a não realizar a saudação) ou no Suíça 4×2 Alemanha da Copa de 1938. Entretanto, em nenhuma delas o Führer estava presente. Sua única partida aconteceu em um “projeto maior”, as Olimpíadas de 1936. O duelo contra a Noruega, no Poststadion de Berlim, ao lado de outros 55 mil espectadores.

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Favorita ao título, a Alemanha já havia massacrado Luxemburgo por 9 a 0 nas oitavas de final. Confiante no resultado, o regime levou não apenas Hitler às arquibancadas, mas também Joseph Goebbels, Hermann Göring e outros líderes do nazismo. “O Führer está bastante empolgado, eu mal posso me conter. Estamos realmente nervosos”, escreveu Goebbels, antes do jogo. Acabaram assistindo à vitória inapelável dos noruegueses por 2 a 0. Hitler, que antes planejava assistir a uma disputa no remo, saiu do estádio antes mesmo do apito final. Furioso talvez também pela desfeita que sofreu de um de seus craques.

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Wilhelm Simetsreiter nasceu em Munique e começou a frequentar o Bayern quando tinha apenas oito anos. Cresceu no ambiente de reconstrução após a Primeira Guerra Mundial e aprendeu a conviver com o ambiente plural do clube, bem diferente à perseguição fomentada pela ascensão do nazismo. Aos 17 anos, o promissor ponta esquerda viu das arquibancadas os bávaros conquistarem seu primeiro título alemão, em 1932. Um time presidido e treinado por judeus. Que sofreria as consequências após o surgimento do Terceiro Reich, no ano seguinte.

O presidente Kurt Landauer renunciou ao cargo em março de 1933, obrigado pelos nazistas. Da mesma maneira como o técnico Richard Dombi retornou ao Barcelona, antes de trabalhar também no Basel e no Feyenoord. O Bayern sofria um desmanche. Ao mesmo tempo em que Simetsreiter chegava ao primeiro time, em 1934. “Eles eram pessoas boas e decentes, não mereciam essa perseguição”, declarou em uma entrevista, anos depois. A partir daquele momento, judeus só eram permitidos nos próprios clubes para judeus, excluídos de toda a estrutura do futebol alemão.

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O principal torneio no currículo do ponta esquerda é justamente o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1936. Simetsreiter era um dos únicos dois jogadores do Bayern que reforçavam a base formada em 1934, semifinalista na Copa do Mundo daquele ano. O jovem talento se permitiu defender o seu país, mas não o nazismo ou o conceito de raça superior proposto por Hitler. Nem mesmo a presença do técnico Otto Nerz, membro do partido nazista e futuro prisioneiro de guerra, fizeram o jovem de 21 anos se curvar.

Hitler visitou o vestiário antes da partida contra a Noruega. Era bajulado pela maioria absoluta dos jogadores. Mas Simetsreiter não se interessou. Justo ele, que havia sido o principal destaque contra Luxemburgo, balançando as redes três vezes. Enquanto os companheiros aclamavam o Führer, ele se distraía amarrando as chuteiras. Só abandonou seu afazer “mais importante” quando chamaram o seu nome para apertar as mãos do ditador. “Foi claramente um ato de provocação”, comentou depois Hans Schiefele. Nervosos os outros jogadores erraram lances bobos pela mera presença de Hitler nas arquibancadas. Acabaram derrotados.

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A eliminação não fez Simetsreiter deixar de aproveitar as Olimpíadas. Inclusive, se tornou fã do maior símbolo contra o arianismo naqueles jogos: Jesse Owens. O jogador de futebol, famoso por sua grande velocidade, se encontrou com o atleta americano, dono de quatro medalhas de ouro no atletismo. Mais do que isso, tirou uma foto e recebeu um autógrafo com a lenda. Reproduziu centenas de cópias daquela relíquia, que costumava distribuir aos fãs e amigos durante e depois da guerra. “Owens foi um tremendo atleta e um homem muito gentil. Além disso, ele foi muito mais rápido do que eu”, se recordaria no livro ‘Die Bayern. Die Geschichte des Rekordmeisters’.

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Com o fim das Olimpíadas, Hitler intensificou ainda mais sua perseguição aos judeus, extinguindo os clubes antes marginalizados. Simetsreiter manteve firme o seu compromisso com o Bayern, mas, por senso se sobrevivência, optou por servir a força aérea alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Não quis ser um novo Matthias Sindelar, o gênio austríaco que, segundo alguns, teria sido morto pelos nazistas após se recusar a defender a seleção anexada e ajudar amigos judeus em Viena – chegando a ser vigiado pela Gestapo por isso.

Mesmo nas forças armadas, Simetsreiter tentou ser fiel as suas convicções. “Ele escolheu o serviço mais inócuo que poderia fazer. Era compulsório que muitos jogadores tivessem que se alistar, pelas condições atléticas”, explica Herbert Moll, outro ex-companheiro do ponta esquerda. Ainda no Bayern, o craque esteve presente no amistoso contra a seleção suíça em 1940, quando os jogadores festejaram o ex-presidente Kurt Landauer, exilado em Genebra.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, Simetsreiter sobreviveu. Para defender o Bayern por mais dois anos, antes de pendurar as chuteiras. O atacante não conquistou um título em 13 anos de carreira, embora tenha sido um dos principais artilheiros dos bávaros. E se manteve nos bastidores do futebol, se tornando técnico e também membro do conselho dos bávaros. Dono de uma história riquíssima, uma foto ao lado de Jesse Owens e o orgulho de contar a maneira como peitou Adolf Hitler. O veterano faleceu em 2001, aos 76 anos.

Como o futebol sofreu nos 12 anos de Terceiro Reich

The England team (l) join the Germany team (r) in giving the Nazi Salute before the kick-off. England went on to win the match 6-3 infront of 120,000 fans

De uma maneira diferente do que aconteceu na Itália de Mussolini, a Alemanha de Hitler também se apoderou dos clubes de futebol em seus mecanismos políticos. Não mudou tanto o modelo do Campeonato Alemão, embora tenha reproduzido a paranoia coletiva nos bastidores. Os times se tornaram instituições estratégicas, enquanto os povos perseguidos nas ruas também sofriam as consequências no esporte.

Aqueles ligados a instituições proletárias ou religiosas passaram às mãos dos membros do próprio partido nazista. Já os jogadores precisavam de dois depoimentos de que “não eram comunistas” para formalizar a inscrição nas competições. E quem não se adequasse sofria perseguições. Além do Bayern, o Alemannia Aachen teve um de seus membros judeus presos pelo regime. O Borussia Dortmund viu dirigentes opositores ao governo destituídos do cargo. Já o Hertha Berlim, dono dos títulos de 1930 e 1931, acabou apossado pelo poder.

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Durante os 12 anos do Terceiro Reich, o Schalke 04 reinou no Campeonato Alemão. Os Azuis Reais conquistaram seis títulos e foram três vezes vice-campeões. O sucesso inegável do clube durante o regime nazista criou suspeitas nos anos seguintes. No entanto, apesar de rumores de que Hitler “torcia” pelo Schalke, nunca ficou provado nada. Historiadores do time de Gelsenkirchen se debruçaram sobre o tema, sem nunca encontrar evidências suficientes. No máximo, o que ocorreu foi o próprio partido embarcar sobre o sucesso dos Azuis Reais, utilizando o esquadrão para sua propaganda. Afinal, era o clube mais popular do país, em uma região repleta de trabalhadores, massa de manobra importante para os intuitos do Führer.

Enquanto isso, o Campeonato Alemão também absorvia as conquistas militares do Terceiro Reich. A partir da anexação da Áustria, os clubes locais passaram a disputar a liga, e o Rapid Viena até conseguiu ficar com a taça, em 1941. À medida que os nazistas expandiam suas possessões, o torneio absorvia mais campeonatos regionais. A ponto de contar com times de cidades que hoje pertencem a Polônia, República Tcheca, França, Luxemburgo e Rússia. Além disso, o campeonato também contava com equipes ligadas a instituições militares.

No entanto, a derrota na guerra enfraqueceu a disputa, especialmente com as perdas no front. Em 1943 e 1944, o esquadrão do Dresdner do craque (e futuro técnico) Helmut Schön imperou no Campeonato Alemão com o bicampeonato. Já no ano seguinte, o torneio sequer aconteceu. A partir do armistício, era hora de livrar os clubes dos resquícios nazistas e reabrir as portas os perseguidos. Uma recuperação que gerou resultados especialmente a partir da conquista da Copa de 1954 (polêmicas à parte) e da criação da Bundesliga em 1963.