Paul Gascoigne se eternizou como um símbolo da seleção inglesa na década de 1990. Em tempos de transição no futebol do país, com a instituição da Premier League e a abertura do mercado a jogadores estrangeiros, o meio-campista foi o representante derradeiro de uma era. Genial e genioso, representava não apenas o espírito de muitos torcedores, como também os seus anseios. O filho de uma família operária, batizado Paul John em homenagem aos Beatles, que se fazia tão humano por suas paixões e fraquezas constantemente expostas. E que honrou a camisa dos Three Lions como pouquíssimos. Em suas únicas aparições em competições internacionais, o geordie gastou a bola. Comandou a equipe nacional rumo às semifinais da Copa do Mundo de 1990 e da Eurocopa de 1996, acumulando atuações grandiosas e imagens icônicas. O choro ao receber o cartão amarelo nas semifinais do Mundial ou a comemoração enlouquecida após o golaço contra a Escócia na Euro são imagens imediatas quando se fala do craque.

A carreira de Gazza, entretanto, vai muito além da seleção inglesa. Por mais que os feitos e até as decepções (como a queda nas Eliminatórias da Copa de 1994 ou a ausência em 1998) pelos Three Lions quase sempre dominem as lembranças sobre o meio-campista, ele também construiu sua reputação respeitável em clubes. O lado emocional inconstante e os problemas físico muitas vezes minaram o sucesso do meia. Mesmo assim, dá para dizer que ele causou impacto em quatro clubes tradicionais da Europa: Newcastle, Tottenham, Lazio e Rangers. Na semana em que o camisa 8 completa 50 anos, relembramos estes quatro principais momentos e o final da carreira, em que rodou por outras equipes expressivas, como Middlesbrough e Everton.

Newcastle

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Torcedor dos Magpies durante a infância, Gascoigne se juntou ao clube quando tinha 13 anos. E, apesar de lidar com problemas psicológicos e a indisciplina, o garoto não demorou a usar o futebol como uma válvula de escape à realidade. Mais do que isso, era também um meio de ajudar sua família, o que se transformou em um norte para seguir em frente, apesar de todas as dificuldades. Não havia melhor remédio para o jovem conturbado do que a bola rolando em um pedaço de grama. Assim, o talento do meio-campista falou mais alto para que ele estreasse com a camisa alvinegra em 1985, às vésperas de completar 18 anos, após comandar os juniores na conquista da FA Youth Cup – principal competição de base do país.

Após ganhar uma chance com Jack Charlton e se transformar em xodó da torcida, Gascoigne passou três temporadas completas como titular do Newcastle. Tinha a missão de ocupar a lacuna de Chris Waddle, mas não demorou a fazer seu próprio caminho. Pesou o futebol ofensivo, de ótimo trato com a bola, mas que também se potencializava com a explosão física – embora o novato fosse um tanto quanto egoísta, preferindo partir para cima dos adversários e passá-los com seus dribles a tocar a bola. Ainda assim, o prodígio logo se afirmou como uma das referências ofensivas em St. James’ Park, ao lado de Peter Beardsley, tanto por seus gols quanto por suas assistências. Depois de duas campanhas modestas, uma no meio da tabela e outra flertando com o rebaixamento (quando, por lesão e por suspensão, o jovem passou boa parte da temporada fora), o melhor momento veio em 1987/88.

Aos 21 anos, Gascoigne demonstrava regularidade o suficiente protagonizar a equipe, treinada por Willie McFaul. Ao lado do brasileiro Mirandinha e de Michael O’Neill, Gazza estrelou o Newcastle na campanha rumo ao oitavo lugar do Campeonato Inglês. Não à toa, ganhou o prêmio de melhor jovem da competição, assim como foi eleito para a seleção do certame. Ao final da temporada, o St. James’ Park já tinha ficado pequeno demais para o seu talento. O meia chegou a se apalavrar com Sir Alex Ferguson para assinar sua transferência ao Manchester United, mas acabou acertando a mudança para o Tottenham, no maior negócio da história do futebol inglês até então, custando na época £2,3 milhões. Os Spurs, aliás, tinham sofrido uma das últimas grandes exibições com a camisa alvinegra, em triunfo por 2 a 0 que convenceu os londrinos.

Tottenham

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Por seu sucesso no Newcastle, Gascoigne logo ganharia a primeira convocação para a seleção inglesa, em outubro de 1988. E não demorou a cair nas graças da torcida do Tottenham. Conta-se que no primeiro treino, aliás, arrancou aplausos dos colegas por driblar oito jogadores antes de estufar as redes. E logo na primeira partida em White Hart Lane (depois de estrear sob críticas dos antigos seguidores, em empate contra o Newcastle em St. James’ Park) o reforço fez seu primeiro gol contra o Arsenal. Em um lance no qual perdeu a chuteira, mandou a bola para dentro mesmo de meia. Uma pena que os anfitriões tenham saído derrotados daquele jogo, por 3 a 2.

O Tottenham encerrou o Campeonato Inglês na sexta colocação. Um dos principais parceiros de Gascoigne, curiosamente, era Chris Waddle – que, outra vez, tomou novos rumos rapidamente ao aceitar proposta milionária do Olympique de Marseille. Contudo, o clube aproveitou o dinheiro para trazer Gary Lineker e dar um passo à frente na campanha seguinte, com a terceira colocação da liga, vencendo oito de seus últimos dez jogos. Gazza era reverenciado em White Hart Lane, bem como no restante do país por seus serviços prestados à seleção. Ao lado de Lineker e Waddle, entre outros, o geordie de 23 anos resgatou o orgulho do país, tão abalado após Hillsborough e os episódios sucessivos de hooliganismo, com a campanha até as semifinais da Copa do Mundo de 1990.

De volta ao Tottenham, Gascoigne viveria aquela que foi sua temporada mais impactante pelo clube. E não eram só os resultados, mas a maneira como o meio-campista exibia a sua categoria. Era o seu momento mais completo: combinava qualidade na armação e excelente visão de jogo; aparecia para concluir, especialmente pela força de seus arremates da entrada da área; driblava os adversários com uma facilidade imensa, produzindo filas a cada partida; transformava qualquer cobrança de falta em um perigo claríssimo, tanto pelas bombas que soltava quanto pela mira cirúrgica. Que nem sempre a forma física o permitisse atuar durante os 90 minutos, enfrentando o recorrente problema com o sobrepeso, não havia o que diminuísse o seu talento. E, mais do que a bola nos pés, valia à torcida sua paixão e o seu esforço em cada jogada. Aquilo que o tornava ainda mais adorado.

A campanha no Campeonato Inglês deixou a desejar, com um modesto décimo lugar, apesar do jogo voraz do meio-campista. Todavia, o craque deixou sua marca inesquecível na Copa da Inglaterra, seu principal título por clubes. Ao longo da campanha, foram várias as atuações memoráveis. Anotou dois gols contra o Oxford e repetiu a dose contra o Portsmouth. Comandou a reação diante do Notts County. Até o momento insubstituível nas semifinais, em Wembley, diante do rival Arsenal. De volta ao time após passar por uma cirurgia de hérnia, abriu o placar logo aos cinco minutos. Acertou um chutaço em cobrança de falta, no ângulo, sem qualquer chance para David Seaman. Além disso, carregou o time com suas jogadas, servindo Gary Lineker em um dos dois gols que o artilheiro marcaria, fechando a conta em 3 a 1. Um triunfo que não só garantiu os Spurs na decisão, como também frustrou os Gunners de faturarem a dobradinha nacional.

A final, porém, marcou uma tremenda infelicidade para Gascoigne. Já negociado com a Lazio, o meio-campista entrou em campo sabendo que aquele seria seu último jogo pelo Tottenham. Queria dar seu máximo. Mas acabou se empolgando demais. Ao cometer uma falta dura, que permitiu ao Nottingham Forest sair em vantagem, ele rompeu os próprios ligamentos do joelho. Saiu de campo e, do hospital, viu os companheiros buscarem a virada na prorrogação, para ficarem com a taça. Como consolação, Gazza recebeu a visita dos colegas logo após deixarem o Wembley. Também faturou diversos prêmios ao final da temporada: foi eleito para a seleção do Campeonato Inglês, recebeu o troféu de jogador do ano pelo Tottenham e seu gol contra o Arsenal foi apontado como o mais bonito da temporada pelo programa Match of the Day, da BBC.

Uma pena que, em meio a tudo isso, Gazza passou meses de molho, lidando com sua recuperação. O jogador perdeu a temporada inteira de 1991/92, antes de rumar à capital italiana. O próprio valor da transação caiu, com a Lazio pagando £5,5 milhões, quase £3 milhões a menos do acordado inicialmente. Neste intervalo, o meio-campista se envolveu em algumas confusões extracampo. De qualquer maneira, se juntaria aos biancocelesti como um nome de peso nos anos áureos do Calcio.

Lazio

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No Estádio Olímpico, a passagem de Gascoigne deixou muito a desejar. O meio-campista era mais notícia pelos entreveros com os jornalistas do que propriamente por seu futebol. E, embora ele voltasse de longo período afastado dos gramados, a paciência dos laziali não foi tão grande. A primeira temporada foi a única que se salvou. Embora tenha sido coadjuvante no time de Dino Zoff, ajudou a equipe a se classificar para a Copa da Uefa, depois de 16 anos. Mas não que tenha sido tão preponderante, em tempos insaciáveis de Giuseppe Signori.

Ainda assim, Gascoigne conquistou certa reputação junto à torcida. Durante o primeiro turno, anotou o tento do empate por 1 a 1 contra a Roma aos 41 do segundo tempo. Voltou ao campo às lágrimas, após comemorar com seus companheiros diante da curva. Outro momento marcante veio em amistoso contra o Sevilla, em jogo que marcava o retorno de Diego Maradona aos campos após suspensão por doping. O inglês viajou à Disney de Paris às vésperas da partida, mas retornou para marcar um gol no empate por 1 a 1. Encontro com aquele que, por seu caminho tortuoso e por seu talento, de certa maneira se assemelhava com Gazza.

Já as duas temporadas seguintes de Gascoigne foram piores. Em 1993/94, além de lidar com a frustração de não conseguir classificar a Inglaterra à Copa do Mundo, também passou parte da campanha fora por excesso de peso. Quando entrou na linha, largando a bebida, e parecia disposto a se recuperar, sofreu uma fratura na perna durante um treinamento, passando mais de um ano no departamento médico. Tanto que, em sua terceira temporada, mal conseguiu jogar sob as ordens de Zdenek Zeman. Com pouquíssimas partidas, deixou a Itália sob sensação negativa. Voltaria à Grã-Bretanha, mas desta vez para atuar na Escócia, como maior contratação da história do Rangers.

Rangers

20/04/96 BELL'S PREMIER DIVISION MOTHERWELL v RANGERS (1-3) FIR PARK - MOTHERWELL Rangers midfielder Paul Gascoigne celebrates his goal.

Em Glasgow, Gascoigne encontraria um ambiente favorável. Chegava em um time que dominava o Campeonato Escocês e estava motivado para disputar a Eurocopa ao final da temporada, em seu país. Não à toa, o craque voltou a voar como não fazia desde o começo da década. Comprometido com o seu ofício, teve o ano mais prolífico de sua carreira. Marcou 19 gols em 42 partidas, ajudando os Teddy Boys a conquistarem o octacampeonato nacional, assim como a Copa da Escócia e a Copa da Liga Escocesa. No jogo do título da liga, contribuiu com o hat-trick estupendo diante do Aberdeen. Além disso, logo em sua primeira Old Firm, o inglês atravessou o campo em poucos segundos para anotar um gol diante do Celtic, em contra-ataque, o suficiente para ganhar a idolatria dos torcedores.

Assim, Gazza foi eleito o jogador da temporada na Escócia. Não havia como negá-lo na seleção. Voltou a defender a Inglaterra e brilhou na Euro 1996, especialmente por sua atuação contra os próprios escoceses na fase de grupos. Na temporada seguinte, manteve o ritmo fortíssimo e impulsionou o Rangers ao nono título consecutivo do Campeonato Escocês. Mesmo sem contar com a explosão de outrora, até pelos problemas físicos, o talento do meio-campista continuava se sobressaindo, especialmente por seu poder de definição e pela qualidade na construção das jogadas.

No Estádio Ibrox, Gascoigne também veria o início do fim de sua carreira. Em sua terceira temporada no Rangers, o meio-campista passou a se afundar cada vez mais no alcoolismo. O rendimento caiu, enquanto a frequência das noitadas aumentaram. Pior ainda, chegou a ser ameaçado de morte pelo IRA após provocar a torcida do Celtic em uma Old Firm, com gesto sectarista. Por isso, acabou suspenso e multado. Nem ficou para o final da campanha, em que os alviverdes encerraram a sequência de títulos dos rivais e reconquistaram o Campeonato Escocês. Em março de 1998, voltaria à Inglaterra, contratado pelo Middlesbrough por £3,5 milhões. No Estádio Riverside, reencontraria Bryan Robson, seu antigo companheiro de seleção, então treinador dos alvirrubros.

O fim da carreira

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Gascoigne chegou ao Middlesbrough dando uma pequena ajuda para que o time terminasse a Championship na segunda colocação, além de estrear no vice-campeonato da Copa da Liga. Todavia, sua conduta pesava contra e, mesmo disputando alguns jogos pela seleção naquele ano de 1998, acabou ignorado pelo técnico Glenn Hoddle na convocação à Copa do Mundo. A temporada seguinte foi de altos e baixos para o meio-campista, chegando a ser internado durante algumas semanas por seu problema com o álcool, por mais que tenha participado de boa parte da temporada com o Boro. Mas o fim seria breve, especialmente depois de dar uma cotovelada em George Boateng durante confronto com o Aston Villa.

Por fim, a última grande chance de Gazza veio no Everton. As lesões, o alcoolismo e a depressão, mais uma vez, marcaram a sua ruína, pouco jogando em suas duas temporadas no Goodison Park. Passaria ainda por Burnley, pelo chinês Gansu Tianma e pelo Boston United, da quarta divisão. Tentativas em vão de levar o futebol em frente, quando a vida já era dramática o suficiente.