Havia um roteiro pronto a se aguardar no clássico de Itaquera neste domingo. Esperava-se o duelo entre duas propostas de jogo bastante distintas, entre a postura defensiva geralmente preservada por Fábio Carille e a mentalidade ofensiva praticada por Jorge Sampaoli. No entanto, o Corinthians x Santos fugiu das cartilhas básicas. E, melhor que a encomenda, ofereceu um bom jogo, apesar do 0 a 0 que persistiu no placar da Arena. Os corintianos não foram nem um pouco passivos e agrediram em boa partida do encontro, sobretudo no início do primeiro tempo. Não que os santistas tenham abdicado também de suas ideias, melhorando no segundo tempo e criando chances para marcar do outro lado. Ao final, os goleiros Cássio e Vanderlei terminam como principais responsáveis por manter as metas invictas no movimentado embate pelo Paulistão.

Antes que a bola rolasse, uma cena cômica aconteceu na Arena Corinthians. A torcida da casa fez uma belíssima festa na recepção aos times, com direito a uma enorme chuva de papel picado . O problema é que os papéis tomaram o campo e a arbitragem indicou que não era possível visualizar as linhas. O pontapé inicial aconteceu com mais de 10 minutos de atraso, depois que funcionários do estádio entraram com vassouras e um aspirador para limpar o gramado.

Já durante os primeiros minutos, o Corinthians mostrou que poderia jogar para frente. Adotou uma postura agressiva, pressionando a saída de bola do Santos e se postando no campo de ataque. Atrapalhava bastante a utilização de Alisson mais recuado desta vez, na linha defensiva. Boselli se entregava bastante na missão de apertar a saída de bola, enquanto o Peixe tinha dificuldades para acionar o seu lado direito. As primeiras chances vieram para os anfitriões, sem que o gol acontecesse. Clayson e Sornoza apareciam bastante. O equatoriano deu um susto aos 11 minutos, em tiro que passou por cima do travessão de Vanderlei. Pouco depois, o goleiro faria sua primeira defesa, em chute desviado de Danilo Avelar. As ligações diretas e as bolas alçadas eram um caminho aos paulistanos.

Com mais posse de bola, o Santos demorou a encaixar o seu jogo, sentindo dificuldades para se aproximar da área de Cássio. Referendando a boa fase, Jean Mota era quem mais aparecia entre os jogadores santistas, mas sozinho não conseguia criar tanto, diante dos passes conservadores de seu time. E a primeira oportunidade real do Peixe seria negada por Cássio, ainda que o lance tenha sido anulado por impedimento. Aos 33, Carlos Sánchez cruzou e o arqueiro rebateu uma bola difícil, até que o assistente levantasse a bandeira. De qualquer maneira, o Corinthians deixou o primeiro tempo com a noção de que poderia sair com a vitória parcial. A marcação se encaixou perfeitamente e as ações diretas garantiram mais lances de perigo. Gustagol, em sua fase inspirada, acabou fazendo falta.

Para o segundo tempo, Sampaoli veio com duas alterações. Mandou Cueva e Rodrygo a campo, deixando o Santos mais ofensivo e acionando mais a faixa da esquerda do ataque. Precisando da vitória para buscar a classificação, o Corinthians mantinha o seu trabalho empenhado ao pressionar a marcação. Só que os santistas ficaram próximos do gol aos nove minutos, em cruzamento para Jean Mota chutar dentro da área. Cássio realizou uma ótima defesa. Depois, o arqueiro rebateria um cruzamento venenoso de Rodrygo. O jogo era aberto, com o Santos mais incisivo do que no primeiro tempo e um Corinthians ainda ligado em alta voltagem. E se os visitantes cresceram com as alterações, os corintianos voltariam a responder depois que Vágner Love substituiu Pedrinho. Logo em sua primeira jogada, o veterano cortou a marcação e parou em Vanderlei. Logo depois, Henrique cabecearia com muito perigo contra a meta praiana. E Júnior Urso ainda arriscaria da entrada da área, levando perigo.

Durante os 15 minutos finais, a impressão era de que qualquer time poderia ter saído com a vitória. Cássio chutou uma bola em cima de Cueva e quase entregou o gol ao peruano, que encobriu o goleiro e errou o alvo por pouco. Enquanto isso, também depois de uma saída de bola ruim dos santistas, Vanderlei parou Boselli, antes que Aguilar tirasse a bola na pequena área – em jogada cancelada por impedimento. Só que o excesso de erros também começou a atravancar os times, sem que a pressão prevalecesse nos instantes derradeiros. Derlis González era o mais disposto a fazer o resultado se tornar favorável ao Santos, puxando os contra-ataques. Aos 44, na última chance clara, Cássio mais uma vez realizou boa intervenção e manteve o placar inalterado em Itaquera. Que não tenha sido um resultado favorável a qualquer um dos rivais, foi um clássico satisfatório pelo que se viu em campo.

O Santos está garantido na fase final do Paulista e aproveita o embate em Itaquera como um laboratório. Alguns problemas do time ficaram expostos e somente no segundo tempo é que o Peixe os consertou. De qualquer maneira, não foi um resultado ruim, dentro do contexto. Já o Corinthians ainda precisa buscar a classificação, mesmo que ela já pareça encaminhada. O duelo serviu para Carille apresentar uma ideia de jogo diferente e mostrar as adaptações possíveis ao seu sistema. A imprecisão de seu ataque e a falta de fôlego no final pesaram contra. Ainda assim, é um saldo positivo, especialmente pela postura dos alvinegros. Foi a melhor atuação do time na temporada, afinal.