Contratações milionárias e negócios de ocasião, estrelas e craques discretos, equipes organizadas e sem um padrão tático definido. O Corinthians conseguiu a proeza de vencer o Campeonato Brasileiro de pontos corridos das duas formas, sendo Mister Hyde em 2005 e Doutor Jekyll em 2011. Dois times completamente diferentes e um bom exemplo de que não existe fórmula para conquistar esse tipo de torneio.

TEMA DA SEMANA: 5 times que se tornaram emblemáticos nos pontos corridos

Para entendermos a formação do Corinthians de 2005, precisamos voltar ao ano anterior, quando Tite teve sua primeira passagem pelo Parque São Jorge. O Corinthians estava na 18ª posição e havia acabado de sofrer uma goleada por 5 a 0 para o Atlético Paranaense, no Pacaembu. O risco de rebaixamento era mais um temor, como ouvir um barulho na cozinha e achar que é um vampiro, do que uma realidade, quando o gaúcho assumiu a equipe, na oitava rodada, mas era melhor não arriscar. Ele usou jovens, como Jô, Bobô e Rosinei, e terminou em uma honrosa quinta colocação.

Chegaram a MSI, Kia Joorabchian e dinheiro. Muito dinheiro. A nova cúpula alvinegra não queria que fosse Tite o capitão do iate, mas os jogadores exigiram a permanência dele. Ficou, mas sem o respaldo da diretoria. Na primeira oportunidade – uma derrota para o São Paulo pelo Paulistão – foi mandado embora para dar lugar a Daniel Passarella. O argentino, apesar de toda a banca, durou apenas 15 partidas antes de ser mandado embora. Márcio Bittencourt assumiu como interino, venceu algumas partidas e levou o time até a segunda colocação. Mas foi trocado por Antônio Lopes, em nome da experiência, e o delegado conduziu a equipe ao título.

A relação de Tite com a diretoria realmente não era das melhores, mas a contratação de Passarella mostrou-se um erro e não havia real necessidade de demitir Márcio Bittencourt. Foram decisões mais baseadas na emoção do que no raciocínio lógico, que acabaram dando certo de alguma forma. Com tantas trocas de treinadores, o Corinthians quase não existia coletivamente. Mas, individualmente, ninguém tinha tantas armas. A MSI gastou os tubos para contratar Carlos Tevez por aproximadamente R$ 40 milhões. Javier Mascherano custou cerca de R$ 30 milhões, valor parecido ao de Nilmar – que acabou sendo pago pelo Corinthians depois de uma das negociações mais enroladas do futebol brasileiro. Ainda vieram os coadjuvantes Carlos Alberto, por R$ 24 milhões, e Roger, por R$ 12 milhões. Um alto investimento, sem contar os salários.

O problema é que o elenco ficou muito desequilibrado. A MSI gastou bastante com Mascherano, mas o volante passou boa parte daquela temporada machucado. Outros investimentos na defesa, como Marinho e Marcelo Mattos, foram muito menores. A dupla de ataque era Tevez e Nilmar, mas a de defesa era Betão e Marinho, sem contar que Bruno Octávio, Sebá Domínguez, Wescley e Wendel muitas vezes tinham que ser colocados em campo. O nível dos reservas era muito distante dos titulares.

Foi uma banana à cartilha dos pontos corridos que prega um grupo balanceado, coeso e o trabalho longo de um treinador. O Corinthians teve três treinadores na campanha, contava com umas três ou quatro estrelas e o sistema ofensivo era basicamente lançar Tevez e Nilmar. Em um Campeonato Brasileiro meio maluco, com os jogos manipulados por Edílson Pereira de Carvalho, posteriormente anulados pelo STJD e aquela entrada de Fábio Costa em Tinga no confronto direto entre os dois líderes, deu certo de alguma forma – e ninguém aqui está falando que houve uma operação secreta para roubar o título para o Corinthians.

Obviamente, uma hora não daria mais certo. A MSI foi embora junto com suas estrelas e seu dinheiro. Émerson Leão ainda conseguiu manter o clube na primeira divisão em 2006, mas, na temporada seguinte, com Vampeta no lugar de Mascherano, Lulinha no de Nilmar, Clodoaldo ao invés de Tevez, e novamente com três treinadores, o rebaixamento foi inevitável.

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Atingido o fundo do poço, o Corinthians decidiu que era hora de se organizar. Andrés Sánchez assumiu a presidência e tocou a modernização do clube, que conquistou o acesso sem sustos. A chegada de Ronaldo foi um marco para o marketing do clube e ajudou a gerar receita. Com Mano Menezes, o time conquistou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil de 2009, mas a seleção brasileira apareceria para interromper esse trabalho. Depois de uma passagem desastrosa de Adílson Batista, voltou Tite, aquele mesmo que havia sido chutado pela porta de trás pela MSI, agora muito mais maduro.

Brigou pelo título em 2010, mas terminou em terceiro, com vaga na Libertadores. Um excelente trabalho. Só que foi eliminado pelo Tolima, ainda na fase preliminar da competição continental, e a pressão ficou quase insuportável. Andrés, porém, decidiu que o time estava no caminho certo e uma mudança de treinador atrapalharia tudo. Tite ganhou autoridade e respaldo, o que nunca teve na sua primeira passagem, para renovar a equipe.

Tomou decisões difíceis. Ronaldo e Roberto Carlos foram embora, o capitão Chicão caiu para o banco de reservas e Dentinho foi vendido para o Shakhtar Donetsk. Houve mudanças significativas, mas nenhuma ruptura de trabalho. Jogadores importantes, como Leandro Castán, Alessandro, Ralf, Paulinho, Danilo e Jorge Henrique participaram da campanha de 2010 e permaneceram para o ano seguinte. A base foi reforçada com o meia Alex, que estava no Spartak Moscow e exigiu um investimento de R$ 14 milhões, Emerson Sheik, cujo contrato havia sido rescindido com o Fluminense, e Liedson, retornando ao clube depois de uma bela carreira no Sporting.

Tite formou uma equipe vencedora ao longo de mais ou menos um ano. Sobreviveu ao baque que foi a derrota para o Tolima e soube buscar as peças certas para não ficar no quase outra vez. Mais do que isso, montou um time coletivo, sem estrelas e homogêneo. O único que destoava um pouco era Adriano, uma aposta da diretoria para tentar se aproximar do potencial de marketing de Ronaldo. O Imperador não contribuiu tanto quanto poderia, mas fez um gol importantíssimo contra o Atlético Mineiro na reta final. Até isso funcionou.

Foi um trabalho muito mais sólido que o de Passarella, Márcio Bittencourt e Antônio Lopes seis anos atrás. A equipe tinha um plano de jogo, roubando a bola o mais próximo possível do gol adversário e criando as chances com passes rápidos. Era bem montada taticamente e o treinador soube usar os jogadores com sabedoria. Aquela história de merecimento, oportunidade e desempenho que virou piada por causa do jeito de falar do técnico gaúcho.

A continuidade pagou seus dividendos e Tite seguiu para as conquistas da Libertadores e do Mundial. Por mais que eventualmente a bagunça funcione, e jogadores como Tevez e Nilmar sejam trunfos espetaculares em um nível técnico baixo como o do futebol brasileiro, as chances de ser campeão com organização e planejamento são muito maiores, e o sucesso dura mais tempo. Certamente, o Corinthians aprendeu isso.

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