Entre camisas e bandeiras, o vermelho das arquibancadas parecia transformar o Estádio Pascual Guerrero em um grande coração. A fumaça escarlate tomava a atmosfera em Cali. O estádio pulsava conforme o ritmo dos torcedores. Também se afligia, carregando a ansiedade que perdurou por longos cinco anos. Estava pronto para infartar, em um jogo decisivo de contornos dramáticos. Mas, ao apito final, pôde bater acelerado como nunca nesta década. Bateu mais forte. Bateu feliz. O América de Cali voltou à primeira divisão do Campeonato Colombiano após cinco temporadas militando na segundona. O acesso foi garantido neste domingo, graças ao triunfo por 2 a 1 sobre o Deportes Quindío, em confronto no qual só a vitória interessava para os gigantes.

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Difícil encontrar um caso no mundo parecido com o do América. O maior campeão nacional até o momento da queda, mas que precisou sofrer por tanto tempo até conseguir retornar à elite. Obviamente, há um contexto por trás da penúria. O clube atravessou longos anos de dificuldades econômicas, especialmente depois que o governo norte-americano o embargou por conta das ligações com o narcotráfico. O América deixou a lista negra da Casa Branca em 2013, quando já havia superado o risco maior de falência, contornado a partir de sua transformação em sociedade anônima, em 2010. De qualquer maneira, a crise financeira não justifica tamanha dificuldade contra oponentes menores. O inferno dos Diabos Vermelhos durou muito mais do que qualquer um imaginava.

Ao longo dos últimos anos, o América de Cali lidou com persistentes crises institucionais. Foram cinco mudanças de presidente nos últimos sete anos. O mais duradouro no cargo foi Oreste Sangiovanni, que fez bom papel administrativo, mas saiu criticado pelos frequentes erros na montagem do time. A partir de maio, Tulio Gómez assumiu a direção. O empresário se tornou acionista majoritário e teve grande parte em montar o time capaz do acesso. A começar pela contratação do técnico Hernán Torres. Responsável pela ascensão do Tolima na virada da década (incluindo a eliminação do Corinthians na Libertadores) e campeão nacional com o Millonarios, o treinador moldou o elenco para superar os traumas. O oitavo a assumir a prancheta nos cinco anos de amargura.

A partir de então, o grande desafio ao América seria escapar das armadilhas do regulamento da segunda divisão do Campeonato Colombiano. O funil apertado sempre dificultou a vida aos Diabos Vermelhos. Em algumas temporadas, apenas um time era promovido. E nada supera a dor de 2012, quando o clube de Cali perdeu dois confrontos que valiam o acesso – a decisão da segundona e os playoffs contra o penúltimo da primeira. Contando com alguns jogadores tarimbados, o grupo finalmente teve sangue frio não só para aparecer outra vez entre os melhores da fase de classificação, mas também para se impor na etapa decisiva.

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Dono da segunda melhor campanha até então, o América entrou como favorito em seu quadrangular decisivo. Venceu três de seus primeiros cinco jogos. Mesmo assim, chegou à rodada final sob pressão. O Deportes Quindío já havia ganhado o primeiro confronto e vinha a Cali com a vantagem do empate. Um ano após ver 50 vândalos travestidos de torcedores tentarem invadir os vestiários com outro fracasso na luta pelo acesso, o Diabo tinha a oportunidade de fazer diferente. Sofreu, mas conseguiu.

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Grande referência da equipe, o argentino Ernesto Farías abriu o placar aos 20 minutos. Capitão, em seu segundo ano com o clube, o veterano marcou 13 gols na segundona. O empate saiu apenas seis minutos depois, da maneira mais dolorida, em gol contra de Jonny Mosquera. Entretanto, o alívio se concretizou antes mesmo do intervalo. Em pênalti discutível, Cristian Borja estufou as redes e recuperou a confiança da massa escarlate. Deu para segurar o nervosismo até o apito final, quando o êxtase, enfim, voltou a tomar o Pascual Guerrero.

A maior protagonista do acesso é mesmo a torcida. A multidão que não abandonou o América em todos esses anos. Que sofreu junto, que chorou junto, que esperou junto. E, agora, teve a alegria de comemorar junto, com arquibancadas lotadas. O ambiente no Pascual Guerrero certamente influenciou neste quadrangular final. Das quatro vitórias conquistadas pelo Diabo nesta etapa, três aconteceram dentro de casa. Carnaval que se espalhou pelo gramado e transbordou para as ruas neste domingo.

Para os torcedores, doeu esperar estes exatos quatro anos, 11 meses e 10 dias. Doeu servir de piada. Doeu sofrer o ‘quase’ repetidas vezes, com tamanho sadismo. Doeu ver o América sem poder se medir com a elite do futebol colombiano. Doeu sequer poder calar os rivais em campo. Mas as cicatrizes se fecham no júbilo do acesso que, por ser tão doloroso, se faz tão saboroso e valorizado. São cinco anos que nenhum torcedor do América vai esquecer e que todos os adversários farão questão de lembrar. Trauma que persistiu, para ressaltar o tamanho da fidelidade dos escarlates com sua grande paixão. Com seu coração, sempre pulsante no Pascual Guerrero.