Os sonhos mais prazerosos não são aqueles que acontecem à noite, de cabeça encostada no travesseiro, e por vezes se perdem na memória com o mero despertar. Os melhores sonhos tomam a mente como um devaneio, porque custa a acreditar que tudo aquilo é de verdade. A realidade que, de tão fantástica, nos deixa suspensos no ar. Nem um beliscão é suficiente para provar que estamos mesmo acordados, enquanto nosso corpo resiste a não sucumbir, com medo de que o adormecer leve consigo todo o prazer de viver como se estivéssemos nas nuvens. Mas, por vezes, é preciso abrir os olhos. Ver que os sonhos reais, como aqueles em meio ao sono, também passam. E que, ao menos, não se apagam, porque não são sonhados sozinhos. Nove meses depois, o Leicester abriu os seus olhos. Despediu(-se de) Claudio Ranieri, o homem que tornou todo aquele devaneio palpável, em forma e brilho de taça.

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A demissão de Ranieri surge como um choque. Afinal, por mais que o presente escancare à vista de todo mundo o vermelho da zona de rebaixamento logo abaixo do Leicester, é difícil renegar o sucesso do italiano. Ele foi capaz de fazer o que nenhum outro conseguiu, de uma forma como nenhum torcedor imaginava. Colocou o virtual candidato à queda no topo da tabela. E o manteve. O manteve por semanas, quando muitos esperavam que logo saísse dali. Por meses, quando outros tantos questionavam se dava para manter até o final. Por um ano, quando mais ninguém questionava o conto de fadas concretizado no Estádio King Power. Ranieri, posteriormente eleito o melhor técnico de 2016, era o grande responsável.

O belo trabalho realizado em Leicester não se concentrava em táticas engenhosas e superlativos, como manda o futebol moderno. Construiu-se a partir do simples, cultivado pelo comandante. A relação simples, de quem levava os jogadores para comer pizza e tratava todos como filhos. O treinamento simples, sem forçá-los, para que chegassem tinindo aos jogos. A estratégia simples, baseada em muito empenho sem a bola e o avanço mais incisivo possível com ela. O elenco simples, de jogadores em busca do reconhecimento e extremamente entrosados.

vardy ranieri

Ranieri fez da simplicidade sua principal virtude. E, do carisma, a amálgama de sua glória. Primeiro, manteve o grupo em suas mãos. Fez todos eles acreditarem naquilo que quem estava de fora não creria. Depois, conquistou também os de fora, seja pelas frases de efeito em frente aos microfones, pelo sorriso inquebrantável à beira do campo, pela história belíssima no futebol, pela volta por cima de quem já parecia um técnico ultrapassado. O italiano conseguiu ganhar a todos. O sonho do Leicester só foi possível porque se transformou em transe coletivo, do fascínio por aquela campanha que se afirmava a cada rodada real e mais real.

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Nove meses desde a conquista da Premier League, o Leicester vive uma situação difícil. A magia se perdeu. A venda de N’Golo Kanté foi custosa, claro, mas só isso não explica a queda de rendimento. Vários jogadores não mantiveram o nível. A direção arriscou demais apostando em seus campeões, pecando nos reforços necessários. A confiança do elenco em Ranieri se esvaiu, com problemas de relacionamento sendo noticiados nos últimos tempos, sobretudo por desacordos sobre escolhas do comandante. A simplicidade não se fez suficiente por mais um ano. As Raposas cada vez mais se aproximam da zona de rebaixamento da Premier League, enquanto caíram de maneira humilhante na Copa da Inglaterra, diante de um adversário da terceira divisão.

Apesar de tudo isso, a surpresa com a demissão de Ranieri ainda é grande. Há 16 dias, a diretoria emitiu um comunicado apoiando o seu treinador. Pior, nesta quarta o time arrancou um resultado digno contra o Sevilla no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán, que mantinha as esperanças de classificação na Liga dos Campeões. A continuação da epopeia no torneio continental, todavia, não vale muito. Como o próprio clube afirmou em comunicado, a prioridade é no longo prazo. E, sem um gol sequer na Premier League desde a virada do ano, a falta de reação na tabela pesou muito mais para a decisão, por mais que a troca de treinador talvez fosse propícia semanas mais cedo.

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“O status de Claudio como o mais bem sucedido técnico do Leicester está fora de questão. No entanto, os resultados na atual temporada colocaram a permanência do time na Premier League sob ameaça. Relutantemente, a diretoria sente que uma mudança de liderança, embora seja admitidamente dolorosa, se faz necessária para o interesse do clube”, declarou a direção, em nota oficial.

Neste momento, aliás, o conflito entre razão e emoção gera o maior debate sobre a saída de Claudio Ranieri. Apesar da gratidão, o Leicester apelou para o extremo racionalismo, quando passou a avaliar que as habilidades do treinador já não seriam suficientes para a fuga do rebaixamento. Só que a emoção ainda pesa demais em relação à imagem do italiano, porque justamente ela serviu de ponte com o elenco e a torcida no Estádio King Power. Não à toa, seu nome continuava sendo cantando nas arquibancadas com a mesma força e a mesma fé, independentemente do fracasso na Premier League. E as primeiras notícias sobre a reação dos torcedores não são as mais positivas, com muita gente desaprovando a falta de crédito a Ranieri. Algo expresso nas palavras de Gary Lineker, comentarista, mas também nascido e idolatrado em Leicester: “Depois de tudo o que Claudio fez pelo Leicester, demiti-lo agora é inexplicável, imperdoável e extremamente triste”.

ranieri

Por outro lado, apesar da tentativa de agregar sentimento, a frieza se expressa no comunicado de Aiyawatt Srivaddhanaprabha, vice-presidente das Raposas. “Foi a decisão mais difícil que precisamos tomar em quase sete anos desde que chegamos ao Estádio King Power. Mas nós somos obrigados a colocar os interesses de longo prazo do clube acima de todo o sentimento pessoal, não importa o quão forte ele possa ser. Claudio trouxe qualidades excepcionais e nós seremos eternamente gratos a ele por aquilo que nos ajudou a alcançar”, afirmou o dirigente. “Nunca esperamos que os feitos extraordinários da última temporada se replicassem nesta. Na verdade, a permanência na Premier League era nosso primeiro e único objetivo. Mas nós estamos lutando para alcançá-lo e sentimos que uma mudança é necessária para maximizar a oportunidade apresentada pelos 13 jogos finais”.

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Agora, o Leicester tenta olhar para frente. A equipe será assumida provisoriamente por Craig Shakespeare, assistente técnico, que já enfrenta uma pedreira com a visita do Liverpool ao Estádio King Power na próxima segunda. Talvez a equipe vá para a zona de rebaixamento antes mesmo de entrar em campo. Enquanto isso, discute-se quem será o substituto. Muitos nomes são aventados pela imprensa local, de Roy Hodgson a Roberto Mancini. Um dos mais factíveis é o de Nigel Pearson, o antecessor de Ranieri, responsável pela incrível arrancada que evitou a queda em 2014/15. Ele contaria com o apoio de parte dos jogadores, embora sua saída tenha acontecido por desacordos com a diretoria.

Tão difícil quanto melhorar a situação do time na tabela será buscar a coesão em um Leicester repleto de perplexidade. A lenda de Ranieri durará para sempre no Estádio King Power e não é a demissão que afasta os planos da construção de sua estátua. Pelo contrário, só reforça os planos para saírem do papel. Mas, no momento, prepondera a incredulidade – bem diferente daquela vivida meses atrás. É ver como será a resposta do elenco e também da torcida nas arquibancadas. Que a realidade tenha voltado a se tornar dura, o adeus do italiano é a prova definitiva de que o sonho realmente acabou. Será difícil, também, acordar para o pesadelo de agora em diante.