Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta e sexta é dia da Olé, com informações e análises sobre o futebol espanhol. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

Athletic Bilbao, Real Sociedad, Granada e Mirandés. A Copa do Rei mudou o seu regulamento nesta temporada, entre outros motivos, para aumentar a imprevisibilidade e permitir que algumas surpresas pintassem nas fases mais agudas da competição. A expectativa se cumpriu logo e o impacto dos novos mata-matas, com jogo único na casa do time de menor divisão, saiu melhor do que a encomenda. Os azarões atuaram com mais ímpeto pelos 90 minutos, não mais 180, e as goleadas foram raríssimas a partir dos 16-avos de final, quando os clubes da primeira divisão entraram. E as zebras passearam bem soltas pelos gramados espanhóis ao longo das últimas semanas.

As classificações de Athletic Bilbao, Real Sociedad e Granada são pontos fora da curva por acontecerem ao mesmo tempo, mas não espantam tanto assim. Athletic e Real se valem de seu peso histórico. Costumam fazer bons jogos contra as potências e, em fases pouco confiáveis de Barcelona e Real Madrid, partiram com a faca entre os dentes. O Granada derrubou o Valencia, no que é um símbolo da boa temporada dos andaluzes no retorno à primeira divisão. Zebra, zebra mesmo, atende pelo nome de Mirandés. E nem tão inédita assim. Poucos nanicos no mundo podem se dizer tão copeiros quanto os Rojillos. Poucos clubes na Espanha possuem duas semifinais de Copa do Rei nos últimos oito anos.

A primeira revolução do Mirandés na Copa do Rei aconteceu em 2011/12. Naquele momento, o clube de Miranda de Ebro (cidade na província de Burgos, próxima ao País Basco) nunca havia superado a terceira divisão do Campeonato Espanhol, embora já tivesse alcançado as oitavas de final da copa em 2004/05. Aquela jornada há oito anos seria transformadora para os Rojillos. Nas fases mais agudas, a desconhecida equipe eliminou três adversários da primeira divisão: Villarreal, Racing de Santander e Espanyol. Terminaria atropelada pelo Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa nas semifinais, com o placar agregado de 8 a 3, o que não diminuiria o tamanho do passo dado naquele momento.

O Mirandés ainda era um time semi-profissional oito anos atrás. Pablo Infante, o destaque da campanha, trabalhava durante o dia como diretor da sucursal de um banco e calçava as chuteiras para os treinamentos à noite. Apesar do sucesso, aos 32 anos, o atacante permaneceu na equipe. O que mudou foi o patamar dos Rojillos, que aproveitaram o embalo na temporada e também conquistaram o inédito acesso à segunda divisão em 2011/12. Campeão de seu grupo regional na terceirona, o time venceu o jogo da promoção contra o Atlético Baleares.

Curiosamente, o degrau subido pelo Mirandés colocou em xeque sua situação financeira. O clube não cometeu loucuras na segunda divisão e fez uma campanha suficiente para escapar do descenso, terminando no 15° lugar. Prejudicial mesmo foi a legislação espanhola, que obrigou a transformação do clube em uma sociedade anônima para disputar os níveis profissionais. Por mais que os Rojillos não tivessem dívidas, precisavam de €2,2 milhões de capital social para a conversão em S.A. A diretoria até cogitou um descenso administrativo, após juntar apenas €900 mil entre os sócios. Um empresário prometeu o dinheiro restante, até admitir uma semana depois que tudo não passava de um blefe. Foram os próprios jogadores e diretores que levantaram mais €1,3 milhão como solução.

Até por seus limites, jogando em um estádio para 5,8 mil espectadores e localizado em uma cidade de 35 mil habitantes, o Mirandés manteve os pés no chão. Disputou cinco edições consecutivas da segunda divisão, com destaque ao oitavo lugar em 2014/15, quando ficou a dois pontos dos playoffs de acesso. Acabou rebaixado apenas em 2016/17, numa conturbada temporada em que quatro técnicos passaram pela casamata. Em compensação, neste ínterim, até se viveu outro sonho na Copa do Rei: em 2015/16, os Rojillos eliminaram Málaga e Deportivo de La Coruña, antes de sucumbirem ao Sevilla nas quartas de final. O terror dos gigantes voltava a despontar.

E que os anos dourados parecessem com uma data de validade marcada, o Mirandés não demorou a dar a volta por cima. Nas duas últimas temporadas, brigou pelo novo acesso na terceirona. Os Rojillos ganharam seu grupo regional em 2017/18, mas sucumbiram nos playoffs posteriores. Já em 2018/19, mesmo com uma campanha inferior na fase de classificação, sobreviveram aos mata-matas. Superaram Atlético de Madrid B e Recreativo de Huelva, até comemorarem a promoção outra vez em cima do Atlético Baleares.

O retorno do Mirandés à segunda divisão na atual temporada permitiu à diretoria fazer sua aposta no comando técnico. O clube de Miranda de Ebro abriu as portas para Andoni Iraola, um velho conhecido. O ídolo do Athletic Bilbao participou das semifinais em 2011/12, mas como carrasco dos Rojillos, ao marcar Pablo Infante na lateral direita. Já nos últimos meses, transformaria-se no mentor do ressurgimento do “moleque travesso”. Iniciando sua carreira como treinador, após uma breve experiência no Chipre, o basco de 37 anos seria responsável por dar liga a um elenco praticamente novo – e de imediato competitivo.

O Mirandés trouxe 20 jogadores durante a atual temporada, nas duas janelas. Sete deles vieram ao final de seus contratos, 11 chegaram por empréstimo e dois estavam sem clube. Num campeonato de pontos corridos que exige fôlego, como a segundona, os Rojillos fazem um papel digno. Demoraram para se acertar e venceram apenas uma partida nas dez primeiras rodadas, passando pela zona de rebaixamento. Em compensação, engrenaram depois disso e ocupam um confortável 11° lugar, sem derrotas como mandantes desde agosto. Se há apenas sete pontos de distância em relação à zona de rebaixamento, a equipe também fica a três pontos dos playoffs de acesso.

Ainda assim, o verdadeiro potencial do Mirandés sob as ordens de Iraola veio na Copa do Rei. É irônico pensar que os Rojillos sofreram nas primeiras fase da competição. Por duas vezes, dependeram da prorrogação para superar adversários da terceira divisão. Todavia, a vantagem de atuar dentro do Estádio de Anduva ajudou bastante a partir dos 16-avos de final, quando a equipe passou a desafiar os grandes. A vitória sobre o Celta aconteceu também no tempo extra, mas com direito a um pênalti perdido pelos anfitriões. Já diante de Sevilla e Villarreal, quando o sarrafo teoricamente estaria mais alto, o Mirandés teve o domínio das partidas. Jogou melhor que os adversários mais badalados e fez sete gols em 180 minutos.

Um dos méritos do Mirandés foi justamente não se apequenar contra os favoritos. A equipe apresentou sua consistência defensiva, mas pressionando os adversários no campo oposto. Tratou bem a bola, atacou com objetividade e criou ocasiões condizentes ao número de tentos anotados. Em seu 4-2-3-1, Iraola encontrou o equilíbrio de um time sem os jogadores mais badalados, mas que soube aproveitar suas virtudes para destronar oponentes bem mais qualificados. E, até por isso, a história dos Rojillos se torna maior. Quando chegou, o treinador declarou que “não queria uma equipe covarde” e suas palavras se cumprem nesta jornada histórica na Copa do Rei.

O maior símbolo desta valentia do Mirandés é brasileiro. Matheus Barrozo faz uma competição maiúscula até o momento, sobretudo pela maneira como encarou os adversários de maior peso. Nascido no interior paulista, passou pela base do Cruzeiro e da Ponte Preta, mas se transferiu antes mesmo de se profissionalizar ao Granada. Defendeu o time B dos andaluzes e rodou por outros times das divisões de acesso na Espanha, até fechar com o Watford em 2018. Nunca entrou em campo pelos ingleses, logo pinçado pelos Rojillos e levado a Miranda de Ebro na temporada passada. Após ajudar no acesso, renovaria o seu empréstimo, para se tornar ainda mais importante. E isso porque, na segundona, costuma ficar no banco para outro brasileiro comandar a linha de frente: Marcos André, este cedido pelo Valladolid.

Matheus agarra as chances na Copa do Rei e é um dos artilheiros do torneio com cinco gols. Marcou em todos os embates contra os adversários da elite. Abriu o placar contra o Celta de pênalti, antes de fazer uma partidaça contra o Sevilla e anotar dois gols. Por fim, diante do Villarreal, atendeu aos pedidos dos torcedores nas arquibancadas para “fundir o Submarino Amarelo” e marcou o primeiro, para se livrar da pressão inicial dos visitantes. Por aquilo que se viu nestas ocasiões, Matheus possui inteligência para atacar os espaços e aquela mistura de raça com técnica matadora que se pede a qualquer centroavante. Aos 23 anos, o camisa 9 poderia muito bem se tornar um projeto de novo Diego Costa. Isso, é claro, se o Watford deixar.

Ao seu lado, quem também brilha na campanha é o meia Martín Merquelanz, cedido justo pela Real Sociedad. O espanhol de 24 anos derreteu o Villarreal com um gol e três assistências. E isso superando os seus próprios dramas pessoais. Em 2017, quando atuava pela filial da Real, rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo. Demorou um ano para voltar e, já no time de cima, quando fazia sua estreia por La Liga, rompeu o ligamento cruzado do joelho direito logo em seu primeiro toque na bola. Recuperado e emprestado ao Mirandés até o final da temporada, já tinha se firmado como o principal jogador da equipe na segundona. São nove gols e cinco assistências, líder do plantel em ambos os quesitos. E uma boa semifinal contra os donos de seu contrato pode provar seu valor.

Em uma equipe essencialmente jovem, na qual vários titulares estão emprestados por clubes da primeira divisão ou por suas filiais, Merquelanz e Matheus Barrozo encabeçam a lista daqueles que podem dar um salto além do Mirandés. E existem esperanças até maiores sobre o futuro da carreira de Iraola como técnico. Desde os seus tempos como lateral, o basco já era descrito como um futebolista de muita personalidade, que se interessava pelo trabalho dos treinadores e estudava cada um dos rivais. Por sua liderança, era sempre um dos pupilos favoritos de seus comandantes. O Mirandés exibe as capacidades de Iraola e até cria ilusões na torcida do Athletic. Quarto jogador com mais partidas pelos leones, o ídolo talvez não demore a retornar.

O futuro do Mirandés e de seus componentes se jogará já a partir da próxima semana. E a campanha na Copa do Rei não vale apenas pela história que os torcedores contarão ou pelo gosto de derrubar os grandes. Chegar tão longe rende também dinheiro. Passar à final representaria uma bolada, inclusive com a participação na Supercopa. A um clube que ainda depende da bilheteria de seu diminuto estádio e que não conta com o apoio da prefeitura ou de qualquer organismo público, as cifras são preciosas na ponta do lápis.

O presidente Alfredo de Miguel é o mesmo desde o conto de fadas em 2011/12 e que ajudou a evitar o descenso administrativo em 2013. O orçamento dos Rojillos se limita a €7,7 milhões anuais, o menor da segundona. O valor equivale a menos de um terço daquilo que o Villarreal desembolsou por Paco Alcácer na última semana. Ou, ainda, a 1/28 do orçamento total do Sevilla. É esse o tamanho do abismo que os nanicos saltaram.

A Real Sociedad, portanto, representa uma nova fronteira ao Mirandés. E não tão desconhecida assim: os Rojillos eliminaram os bascos nos pênaltis para alcançar as oitavas de final em 2004/05. Muito mudou desde então, seja em Anoeta ou em Anduva. Os jogos em ida e volta apenas nas semifinais da Copa do Rei dificultam um pouco mais a missão dos azarões, até pelo bom momento que a Real atravessa no Campeonato Espanhol. Mas, a um clube que já provou ser capaz de repetir o impossível, este será somente mais um obstáculo na epopeia que se amplia.

O Mirandés transformou uma pequena cidade de 35 mil habitantes em coração pulsante da Espanha. Pela segunda vez faz isso acontecer na Copa do Rei, aliás. E os Rojillos não jogam apenas com 11: eles encarnam juntos a ambição de qualquer pequeno clube do interior ao redor do mundo. Quem não gostaria de causar pesadelos nos grandes e avançar tão longe na copa nacional? É por isso que o encanto provocado pelo novo épico não se limita às fonteiras espanholas. Ele se assemelha a outros tantos sonhos.