Conquistar um acesso não é o mesmo que faturar um título. A sensação de ser promovido a uma divisão acima pode ser ainda melhor. Ela representa não só a glória, mas também o desafogo pelos anos afastado de um nível maior, a esperança de dias melhores, a recompensa por todas as penúrias nas divisões inferiores. E, por vezes, a ascensão também significa uma missão desbravadora, de não só premiar toda a torcida, como também de liderar o próprio estado. É isso que o Confiança sente, ao recolocar Sergipe na Série B do Brasileirão após 19 anos. O Dragão não era o favorito contra o Ypiranga de Erechim nas quartas de final da Terceirona. No entanto, depois de vencer a primeira partida no Batistão por 1 a 0, arrancou o empate por 1 a 1 dentro do Colosso da Lagoa, já nos minutos finais, e pôde desatar a comemoração por seu feito.

Presente na elite do futebol brasileiro desde os tempos de Taça Brasil, o Confiança possui oito aparições na primeira divisão, além de nove participações na segundona. No entanto, a Série B parecia uma realidade distante ao Dragão ao longo das últimas décadas. Sua última aparição no segundo nível acontecera em 1992. Desde então, o rival Sergipe havia sido o último bastião do estado na Segundona, mas o rebaixamento em 2001 também já soava como uma realidade longínqua. Por 19 anos, o futebol sergipano precisou se contentar com o alicerce dos campeonatos nacionais, transitando no máximo entre a Série C e a Série D.

Ao longo dos últimos cinco anos, porém, o Confiança fez a sua torcida acreditar que era possível almejar patamares mais altos. Não foi fácil cair na Série C em 2009 e o clube chegou a passar três anos consecutivos fora de qualquer divisão nacional, enquanto também encarava uma seca de títulos no Campeonato Sergipano. A recuperação veio da melhor maneira, em 2014. De volta à Série D, o Dragão conquistou o acesso de imediato, em cima do Jacuipense. Antes, já tinha faturado o estadual naquela temporada e logo emendaria o bicampeonato. Os sergipanos se mantiveram firmes como dignos concorrentes no Grupo A da Terceirona desde então.

Foram duas aparições anteriores nos mata-matas, em que o Confiança bateu na trave. Apesar da comoção da torcida, o time sucumbira por duas vezes no jogo de volta fora de casa. Em 2015, depois do empate sem gols no Batistão, viu a festa do Londrina de camarote no Estádio do Café. Já em 2017, o algoz foi o São Bento, que conseguiu uma boa vitória em Aracaju e só precisou administrar o empate no interior de São Paulo. O Dragão teria que perseverar e se superar na luta pela segunda divisão nacional, mas a sequência de campanhas na Série C dava a impressão de que o momento chegaria em breve.

A atual edição da Série C guardou uma montanha russa de emoções ao torcedor do Confiança. Depois de um começo morno, o time engrenou a partir de junho e conquistou seis vitórias em uma sequência de oito rodadas. Foi o suficiente para entrar na zona de classificação e se colocar como um candidato aos mata-matas. O problema seria o final da bonança. O Dragão entrou em uma maré ruim no final de julho e correu sérios riscos, após uma série de três derrotas em quatro rodadas.

No último compromisso da fase de classificação, os sergipanos dependiam apenas de si, mas não poderiam dar bobeira no confronto direto com o Ferroviário em Fortaleza. Arrancaram o heroico empate por 2 a 2 no PV, após os cearenses abrirem dois gols de vantagem. O Confiança ainda contou com tropeços de Santa Cruz e Botafogo da Paraíba para assegurar a passagem às quartas de final. Ficaram na quarta colocação do Grupo A e veriam o desafio se repetir, com a definição do acesso fora de casa. Agora, para escrever um final diferente.

O Confiança fez jus ao nome e pôde inflar o peito após a partida de ida contra o Ypiranga de Erechim, líder do Grupo B. Mesmo sustentando uma sequência de cinco partidas sem vencer, o Dragão rompeu o jejum de um mês com uma ótima apresentação na ida. A torcida proletária compareceu em massa nas arquibancadas do Batistão e deu sua força ao time, que correspondeu. Contra um adversário satisfeito em se defender, os sergipanos se impuseram e abriram o placar aos 24 minutos. Melhor do time, Ítalo assinou uma jogadaça e entregou para Tito marcar. Os azulinos até poderiam ter saído com um placar mais amplo, pela superioridade que se manteve. O triunfo por 1 a 0, ainda assim, permitiria a vantagem do empate em Erechim.

Não seria um ambiente simples de se encarar neste sábado. O Colosso da Lagoa também se encheu e o Confiança precisou lidar com as armadilhas do Ypiranga, além de não contar com o suspenso Ítalo. Os gaúchos preferiram dar a bola aos adversários e, a partir dos contragolpes, conseguiram abrir o placar no primeiro tempo, com Paulinho. O resultado levava a definição do acesso aos pênaltis e o Confiança precisava balançar as redes na etapa complementar, sem se descuidar atrás. Numa partida sofrida, com poucas chances de gol, o Dragão encontrou o caminho das redes só aos 39. Cobrança de escanteio pela direita e Felipe Lima mandou a bola na área. Gorne desviou e, em cima da linha, Vinicius Simon se tornou o herói ao arrematar para os sergipanos. O tempo restante seria insuficiente para a reação do Canário, em desesperados minutos em busca de chuveirinhos na área.

O apito final proporcionou uma emocionante festa em Erechim. Os jogadores do Confiança explodiram na comemoração e agradeceram o apoio dos fiéis que fizeram a viagem até o Rio Grande do Sul. Foi só o começo de uma noite que não terá fim em Aracaju. A celebração deverá se estender pelas ruas da cidade, onde uma multidão já havia se reunido para ver a partida em telões, e se ampliará durante a recepção ao time no retorno da viagem. É um feito imenso ao clube que, apesar das aparições em divisões acima, sempre havia se classificado a elas através do estadual. O acesso à Segundona tem um sabor inédito à massa proletária.

Depois de uma longa passagem como assistente e interino no Sport, Daniel Paulista registra o maior feito de sua carreira como técnico, aos 37 anos. O ex-meio-campista chegou ao Batistão em março e justificou a aposta realizada pela diretoria, conduzindo todo o trabalho na Série C – na primeira vez que pôde viver uma sequência estável na carreira. Recuperou-se dos maus momentos durante a caminhada e ajudou os sergipanos a superarem os favoritos nos duelos decisivos, sobretudo pelas boas mudanças realizadas em Erechim.

O sonho do Confiança não se encerra neste sábado. Os azulinos ainda têm o direito de lutar pelo título da Terceirona, o que seria uma façanha imensurável ao futebol sergipano. Além do mais, este é só o início da promessa de novos tempos, com a Série B garantindo um calendário mais longo, novas possibilidades comerciais e uma injeção financeira superior com os contratos da TV. A quem vem em crescimento paulatino, sem dúvidas as perspectivas melhoram. Mas, por enquanto, comemorar o acesso já basta ao Dragão. A espera de 28 anos se encerrou no clube. Sergipe se rearranja no mapa do futebol nacional e os torcedores estão em seu direito de desfrutar o raro momento.