A cerimônia de encerramento da Olimpíada de Londres 2012

Se você gosta tanto de Copa do Mundo e Olimpíadas quanto eu, provavelmente já lhe fizeram aquela pergunta manjada sobre qual dos dois eventos você prefere. Mesmo que ninguém lhe tenha feito diretamente, é certo que você já a viu sendo lançada ao vento por aqueles que acham que tudo na vida tem de ser cansativamente comparado. Como se alguém não pudesse gostar igualmente de cerveja clara e escura, chocolate ao leite e meio-amargo, loiras e morenas, ruivas e negras, orientais e latinas, altonas e baixinhas, magrinhas e gordinhas… E vamos parar por aqui, que essa lista pode ir longe. Como se todos fossem obrigados a escolher um lado na disputa entre José Roberto Guimarães e Bernardinho, elevados dia após dia aos postos de Marlene e Emilinha Borba do vôlei brasileiro.

Muitos fanáticos por futebol encaram o apreço de alguns pelas Olimpíadas como se estes estivessem cometendo uma pavorosa traição. Não é porque o futebol é o esporte mais legal do mundo (e quanto a isso não cabe discussão) que você não pode se interessar por outras modalidades. Exageradas, tais figuras cobram que você entenda cada regrinha do combate de esgrima que está assistindo, que saiba qual é o recorde do salto em altura e que acompanhe todas as etapas da Copa de Mundo de judô para ter direito a criticar uma punição por falta de combatividade. É verdade que muitos tentam se passar por especialistas em todos os esportes, o que é irritante. Mas outros tantos apenas se informam regularmente e tentam aprender um pouco mais de outras modalidades a cada ciclo olímpico.

“Que legal, agora todo mundo é entendido de handebol!”, manifesta-se com ironia o boçal que abre um berreiro para reclamar que o seu esporte não é valorizado, mas secretamente quer evitar que ele caia na boca do povo, para poder manter a pose de autoridade no assunto. Frases parecidas são utilizadas pelo jornalista esportivo que não gosta de esporte, um tipo inacreditavelmente cada vez mais comum. Ele não consegue esconder o ressentimento em ver o seu ganha-pão colocado em segundo plano por duas semanas, fingindo não ser mais do que o suficiente que o futebol reine inabalável por três anos, onze meses e duas semanas no período que separa uma edição dos Jogos Olímpicos de outra.

Não me entendam mal, não encontramos intolerantes apenas do lado da nobre arte do ludopédio. A cada conquista de um atleta de uma modalidade de pouca expressão que se mantém às custas de uma acanhada bolsa-atleta, vemos os merecidos elogios à sua superação dividirem espaço com um rancoroso ataque aos vencidos do futebol. De repente, aqueles meninos mimados e milionários parecem ter se tornado os únicos responsáveis pela penúria em que vivem outros atletas. Se os meninos do futebol, que realmente costumam ser mimados, são milionários, é porque sua modalidade, ainda que pessimamente mal administrada, foi incorporada ao mundo do entretenimento e passou a gerar muito dinheiro.

E assim o faz porque consegue manter seus campeonatos atraentes durante o ano todo. Porque é um esporte com um público já formado e que nunca vai parar de se renovar, em virtude do imenso número de praticantes que tem em todos os continentes. Em menor escala e de forma mais regionalizada, outros esportes conseguem fazer o mesmo, como o basquete, o vôlei e o handebol (que aqui ainda é visto como esporte de escola, mas é febre em países do norte europeu). Outros levam suas estrelas para cruzar o mundo, como o tênis. Parece o caminho para todas as modalidades onde boa parte da graça é ver os melhores competindo. Ninguém para tudo que está fazendo para assistir oito caras moderadamente velozes correndo ou nadando 100 metros, enquanto muitos são capazes de se divertir com 22 completos pernas de pau batendo bola.

Guerra e Paz

Sou indiferente à continuidade ou retirada do futebol do programa olímpico, por uma simples razão: nem o futebol precisa das Olimpíadas, nem as Olimpíadas precisam do futebol. Eu sei, muitos usam o mesmo argumento para defender que o futebol arrume as suas malas e parta para outra. No entanto, penso que seria legal ver a modalidade mais famosa do mundo interagindo com as menos badaladas. Para isso, precisaria parar de jogar em outras cidades e ter os atletas se hospedando como reles mortais na Vila Olímpica. Para tal, o torneio poderia envolver menos países e mais estrelas. Não fosse a Copa das Confederações um evento que envolvesse toda uma teia de interesses da Fifa e do país-sede da Copa do Mundo seguinte, bem que ela poderia ser incorporada às Olimpíadas. Assim, o futebol não seria só um coadjuvante.

Tornar o futebol um evento-chave para as Olimpíadas claramente não é uma preocupação da Fifa. Tampouco do COI, que quer mais é ver o futebol baixar um pouco a crista enquanto a festa é do esporte como um todo. E aí entra a principal diferença entre Copa e Jogos Olimpícos. As Olimpíadas nasceram com o propósito de agregar. O longo desfile de delegações na cerimônia de abertura e a participação desengonçada de atletas café-com-leite, que foram convidados a estar ali só para assegurar a representatividade de cada continente, são símbolos maiores do espírito olímpico do que a imagem do vencedor beijando (ou mordendo, já que virou moda) sua medalha no pódio.

Em uma Copa do Mundo, o barato é ver a competição afunilando. Pouco a pouco, as seleções vão voltando para casa. Algumas com a certeza do dever cumprido, outras como se carregassem feridas de guerra e os corpos daqueles que foram perdidos durante a batalha. A festa é feita para ser de todos no começo, mas de apenas um no final. Na maioria das vezes, nem o país-sede é poupado da carnificina, coitado. Por mais que algo semelhante aconteça dentro de cada torneio olímpico e que americanos e chineses não gostem de dividir os brindes distribuídos, sempre cabe mais um na farra esportiva inventada pelos gregos. Um bom exemplo: os dois últimos hinos a homenagearem vencedores em Londres foram os da Lituânia e de Uganda. O do país africano não era tocado em Olimpíadas há quarenta anos.

Por distribuir e relativizar as glórias, cada edição das Olimpíadas serve como um grande livro de boas histórias, enquanto a Copa do Mundo até tem tramas paralelas, mas se dedica apenas a uma saga: a de seus campeões. Não se tratam apenas das histórias de gente humilde que subiu na vida graças ao esporte e batalhou muito para estar lá, porque essas também são vistas na Copa. As histórias olímpicas vão desde a formação de lendas como Usain Bolt e Michael Phelps até aquela notinha de rodapé que consegue lhe emocionar ou colocar um sorriso no seu rosto. E são tantas, que acabarão sendo esquecidas, ao contrário daquelas sobre os vencedores.

Senta, que lá vêm as histórias

Para fazer história nas Olimpíadas, de repente você nem precisa ser bom no que faz, basta estar no lugar certo e na hora certa. Ou até mesmo no lugar certo e com centenas de milhares de horas de atraso. Foi o caso da judoca Wojdan Shaherkhani, uma menina de 16 anos, facilmente derrotada na estreia, que se tornou a primeira (de muitas, esperamos) mulher saudita a disputar os Jogos, poucos dias depois de quase ser proibida de lutar com o seu véu islâmico. Às vezes, você chegou lá a partir de uma fuga, como Mo Farrah, que conseguiu escapar da fome na sua Somália de origem, para encontrar abrigo em outro país, onde se tornou um campeão do atletismo e um ativista contra a desnutrição de crianças que não tiveram a mesma sorte.

Você pode virar história mesmo quando nem devia estar lá. Tome como exemplo o queniano Julius Yego, que aprendeu a lançar dardos vendo o desempenho de outros atletas no Youtube e chegou a uma final olímpica. E saiba que ele só não parou de praticar o esporte porque um professor pagou do próprio bolso um dardo novo quando o único que havia na escola se quebrou. Tem também quem tenha ido para as Olimpíadas, mas fará muito mais história quando voltar. Zofia Noceti-Klepacka, velejadora da Polônia, viajou para Londres com a ideia fixa de ganhar uma medalha para então leiloá-la e custear o tratamento de sua vizinha Zuzia, uma menina de cinco anos, que talvez nem consiga resistir a tempo de receber o presente. Zofia conquistou a prata, mas quer dar algo bem mais reluzente a Zuzia.

O que dizer de quem foi e viu o seu sonho olímpico destroçado, mas preferiu reagir a isso com compreensão e gratidão? Na prova de triatlo, o canadense Simon Whitfield, com medalhas de ouro e prata conquistadas em Sydney e Pequim, caiu e acabou levando consigo o costarriquenho Leonardo Corrales, um estreante nos Jogos. O prejudicado teria razões para nunca mais querer ver o seu algoz acidental pela frente, mas preferiu usar sua conta no Facebook para lhe mandar uma mensagem, o apontando como uma inspiração e desejando que possam se encontrar novamente (e de forma menos desastrada, suponho), no Rio de Janeiro.

Se você preferir histórias envolvendo brasileiros, já deve ter ouvido a de Touro Moreno, o errante que formou no quintal de sua casa, com a ajuda das folhas de uma bananeira, dois boxeadores medalhistas olímpicos. Ou a de Arquimedes, que construiu ele mesmo os aparelhos com que seu filho começou a treinar para se tornar um dia o primeiro campeão olímpico da ginástica artística do Brasil e de toda a América Latina. Se o que lhe sensibiliza mais é aquilo que pode ver com seus próprios olhos, deve ter apreciado que Kirani James se mostrasse menos preocupado em comemorar sua vitória na semifinal e mais interessado em cumprimentar e guardar uma lembrança de Oscar Pistorious, que corria algumas raias ao lado, transformando deficiência em eficiência. E mais do que isso: em exemplo. Caso similar ao de Natalia Partyka, que nasceu sem parte de um braço, mas usa o outro para enfrentar de igual para igual suas adversárias no tênis de mesa. E olhe que ela nem é chinesa.

Das histórias das Olimpíadas de 2012, a que mais ficará guardada na memória de todos não envolvia vida ou morte, doença ou sofrimento físico, mas decepção e angústia. Em decorrência de um improvável incidente com a cronometragem das dispustas de esgrima, Shin Lam teve de entrar com um recurso para que não acabasse eliminada e impedida de disputar a final olímpica. Como deixar o local implicava em desistência, a sul-coreana teve de se manter sentadinha, solitária, durante uma hora, até que a resposta negativa veio e ela desabou em prantos, mexendo com todos que acompanharam a sua espera. A imagem correu o mundo e ganhou merecido destaque durante o encerramento dos Jogos Olímpicos. A desejada medalha não veio, pois ela acabou derrotada também na disputa pelo bronze.

Shin Lam protagonizou uma das cenas mais marcantes da Olimpíada de Londres-2012
Sonho de protagonista, destino de coadjuvante

Nas Olimpíadas, o futebol brasileiro é só mais um Silva cuja estrela não brilha. Nossa derrota pode significar uma infinidade de coisas em outro contexto, mas dentro dos Jogos, é apenas um elemento de outra história que está ou estava sendo contada em paralelo. Com sorte, da história de como o país mais vitorioso do mundo teve de passar por poucas e boas antes de levar para casa uma medalha de ouro nesse esporte. Ou mesmo de como a derrota de 2012 forçou o amadurecimento de uma geração que viria a conquistar a Copa do Mundo dois anos depois. Com azar, nosso futebol foi apenas coadjuvante do momento de glória alheio. O antagonista vencido na festa do povo mexicano, tão apaixonado pelo futebol quanto o nosso. Como também já fomos parte do cenário em conquistas nigeriana e camaronesa.

Caso o jogo também seja parte de uma história brasileira, só nos resta aguardar por um desfecho, que virá em um próximo volume ou em uma nova edição. Até lá, cobremos que o futebol não se acomode em ser a cigarra, mas trabalhe para ser a formiga de nossa fábula particular. E entendamos que o futebol tem nas Olimpíadas o mesmo espaço, ou ainda menos, que ganhou neste post. É a parte que lhe cabe deste latifúndio olímpico.

Se prefiro Copa de Mundo ou Olimpíadas? Prefiro grandes histórias. Sejam grandes sagas ou uma coletânea de pequenas crônicas. O que mais importa é que sejam bem contadas. Tenham final feliz ou não.