Vez ou outra no futebol, alguns jogadores parecem estar à frente de seu tempo. Possuem habilidades tão apuradas que, num devaneio, fazem imaginar que saíram do futuro ou de alguma realidade paralela. Erling Braut Haaland é um desses “exterminadores do futuro”. Une força física, capacidade técnica, senso tático e uma precisão absurda nas finalizações. Se o garoto norueguês entrou ou não em uma máquina do tempo é difícil de saber. No entanto, aos 19 anos, já está muito à frente de seu próprio tempo. E, diante de seus números absurdos na temporada, reforçados por aquilo que se nota em campo, o centroavante é realidade pura – pronto para estrelar um jogaço de Champions League logo em sua estreia nos mata-matas da competição continental.

A partir dessas oitavas de final, a Uefa oferecerá troféus de “Homem do Jogo” ao final de cada partida. E não tem como escolher outro nome para o Borussia Dortmund 2×1 Paris Saint-Germain desta terça. O início da premiação estará em excelentes mãos, com Haaland. O garoto marcou dois gols, liderou os aurinegros com muita personalidade e derrubou mais alguns recordes ao longo da noite. Não há palavra melhor para definir do que “fenômeno”.

Haaland passou em branco durante o primeiro tempo, mas já vinha merecendo o destaque. Enquanto o Dortmund se resguardava mais e, pasme, se defendia bem, sobrava mais campo para o centroavante acelerar. Ao lado de Jadon Sancho, o camisa 17 representou um tormento à marcação do Paris Saint-Germain nos contragolpes. Arrancando para se desmarcar e atraindo os defensores, Haaland não sentiu o peso da ocasião no Signal Iduna Park. Pelo contrário, até impressionou. Uma de suas finalizações, um chute difícil de canhota, passou lambendo a trave de Keylor Navas. Pouco depois, faltou aproveitar melhor um cruzamento de Sancho. Curiosamente, apesar de sua altura, as cabeçadas representam um de seus raros pontos fracos.

O segundo tempo começaria mais difícil ao Borussia Dortmund. O PSG passaria a encontrar mais espaços na defesa aurinegra e carimbou Roman Bürki. Porém, num misto de estrela e extrema competência, Haaland fez a Muralha Amarela explodir, com dois gols num intervalo de apenas oito minutos. O primeiro tento tem méritos coletivos, com uma ótima construção e a participação ativa de Achraf Hakimi no apoio pela direita. Se o chute de Raphaël Guerreiro bateu no meio do caminho, melhor a Haaland, que aproveitou Navas caído para estufar as redes. Mais uma vez, estava no lugar certo e na hora certa. Até pode parecer sorte. Todavia, acontecer com tamanha frequência não é coincidência.

E se Neymar logo empataria, o PSG também se desligou na hora de evitar os contragolpes do Dortmund. Esqueceu que havia um Haaland para marcar. Aos 32, o centroavante recebeu o passe de Giovanni Reyna, preparou o arremate e soltou um foguete da entrada da área. De novo, não era uma finalização simples. A bola na gaveta mostra como o talento do norueguês é superior. O gatilho disparou tão rápido que Navas nem teve tempo de reagir. Haaland é um caso tão raro que, por vezes, a gente até se espanta quando percebe que, num lance normal, ele também pode chutar para fora do arco. Não desta vez.

Futebol se faz com personalidade. E, aos 19 anos, isso não falta a Haaland. Contra uma defesa que parecia exageradamente precavida ao atuar com três zagueiros, o norueguês partiu para cima. Outro lance simbólico aconteceu quando ele ganhou no corpo de Thiago Silva e deixou o veterano no chão, até que Marquinhos conseguisse a recuperação. O garoto não precisa respeitar a história dos outros. Ele escreve a sua própria história.

E, desde já, a história é riquíssima a Haaland. Tornou-se o jogador que menos jogos precisou para anotar dez gols pela Champions – míseros sete, quatro a menos que qualquer outro atleta. Também virou o primeiro a balançar as redes por dois clubes diferentes na mesma edição do torneio, beneficiado pela mudança recente da regra. É o primeiro atleta da história do Dortmund a deixar sua marca nas estreias pela Bundesliga, pela Pokal e pela Champions. E, também, o segundo mais jovem em todos os tempos a atingir dez tentos pelo torneio continental.

Esta última marca, contudo, não figura nenhum “demérito” ao aparecer atrás de Kylian Mbappé. Pelo contrário, ela se torna ainda mais impressionante quando se pensa no contexto. Depois de disputar três temporadas no Campeonato Norueguês, Haaland passou o primeiro semestre de 2019 na reserva do Red Bull Salzburg, recém-contratado. O artilheiro só ganhou fama além das fronteiras no último mês de maio, quando anotou nove gols em um mesmo jogo pelo Mundial Sub-20. Desde então, não parou mais. Foi arrebatador na primeira metade da temporada na Áustria e, inacreditavelmente, consegue se superar em Dortmund.

É lógico, Haaland não vai resolver todas as partidas. Na Copa da Alemanha, por exemplo, não foi possível reverter a situação contra o Werder Bremen – apesar de ter faltado pouco para o garoto arrancar o empate nos acréscimos do segundo tempo. De qualquer maneira, o centroavante é o tipo de jogador sobre o qual não se pode apostar contra. A cada aparição, e em parcos minutos, o exterminador do futuro se mostra sobrenatural. E não dá mesmo para tratar como natural seus dez tentos em sete jogos de Champions, um a cada 46 minutos em campo. Sorte a nossa de ver a história acontecer.