A beleza das copas nacionais não está nos “tubarões” que dominam os títulos. Ela se concentra nos pequenos clubes, os mais propensos a contar as grandes histórias. Os mata-matas oferecem a chance de enfrentarem adversários bem mais poderosos e tradicionais, o que por si representa muito aos nanicos. E o significado desses embates consegue atingir níveis históricos graças às façanhas. Dentro de campo, em 90 minutos, todos podem ser iguais. Décimo colocado da League Two, a quarta divisão inglesa, o Colchester United se igualou ao Tottenham, durante a partida realizada nesta terça no Estádio JobServe Community. Após o empate por 0 a 0 no tempo normal, abriu-se a possibilidade de um momento inimaginável aos anfitriões. Nos pênaltis, os azarões venceram por 4 a 3 e provocaram uma comemoração estrondosa de seus torcedores. Eliminaram os Spurs e seguem em frente à próxima fase da Copa da Liga Inglesa.

Fundado em 1937, o Colchester United sempre teve uma vida modesta no futebol inglês. O clube passou a maior parte de sua história vagando entre a terceira e a quarta divisão. O ápice aconteceu na década passada, com uma breve estadia na Championship. Porém, nos últimos quatro anos, os U’s se limitaram ao quarto nível nacional. Geralmente fazem campanhas de meio de tabela, o que não foge à regra na atual temporada, na décima posição. E que o sorteio na Copa da Liga não tenha sido muito benevolente, os nanicos agarraram a chance que pintou. Depois de despacharem o Swindon Town na primeira fase, eliminaram o Crystal Palace na segunda etapa do torneio – nos pênaltis, após empate por 0 a 0 no tempo normal. Filme que se repetiria agora, contra os atuais vice-campeões europeus.

O Tottenham não atravessa um bom momento, é verdade. O time de Mauricio Pochettino conquistou apenas duas vitórias nas oito partidas desta temporada, em sequência ruim que vinha desde 2018/19 – e que terminou atenuada justamente pelo milagre contra o Ajax. E diante dos quase 10 mil torcedores presentes em Colchester, os Spurs não tiveram vida fácil. Nem mesmo a presença de Lucas Moura e Dele Alli no mistão escalado desde o início evitou o baque.

Dominando a posse de bola, o Tottenham fazia uma atuação pobre. A única finalização certa durante o primeiro tempo veio em cobrança de falta de Lucas Moura, que o goleiro Dean Gerken defendeu. Mesmo que o Colchester não acertasse seus contragolpes, a torcida se contentava com o heroísmo do placar zerado. Já no segundo tempo, Pochettino apelou ao seu banco de reservas. Introduziu Christian Eriksen, Son Heung-min e Erik Lamela, o que não adiantou ao time. Raras eram as finalizações, contra uma defesa que se segurou muito bem. O garoto Troy Parrott poderia ter se consagrado, mas desperdiçou o lance mais promissor, enquanto Kyle Walker-Peters triscou a trave em cruzamento.

Nos pênaltis, justamente os medalhões falharam. Eriksen parou em Gerken logo na primeira cobrança. O Colchester perdeu o seu terceiro tiro, quando Jevani Brown deu uma fraca cavadinha e o goleiro Paul Gazzaniga conseguiu se levantar para rebater a bola. Com os outros companheiros acertando o pé, a disputa só seria definida no penúltimo arremate. Lucas Moura mandou no travessão, antes que Tom Lapslie concluísse a classificação dos U’s.

O gol desencadeou um rugido enorme no estádio, assim como uma corrida desenfreada para abraçar Lapslie. De início, parecia que apenas os jogadores em campo e os reservas iam em direção ao herói. O grupo se tornou maior, com a comissão técnica, e se misturou aos próprios torcedores que invadiram o campo. Ao final, uma multidão de dezenas de pessoas se concentrava dentro da área, para celebrar uma das maiores noites do pequeno clube.

A melhor campanha do Colchester na Copa da Liga aconteceu em 1974/75, quando eliminaram o Southampton, antes de cair para o Aston Villa nas quartas de final. Também foram quadrifinalistas da Copa da Inglaterra em 1970/71, deixando pelo caminho o forte Leeds United, que seria vice-campeão inglês ao final daquela temporada. Nas últimas oito edições da Copa da Liga, os U’s sequer haviam passado da primeira fase. Agora, estarão nas oitavas.

Após a partida, Pochettino atenuou a crítica sobre o Tottenham e apontou o árduo percurso necessário. “Estamos trabalhando duro para colocar todos no mesmo patamar. Só precisamos de tempo. Janeiro será uma boa oportunidade também para corrigir a situação. Esse é o problema quando algo acontece e você não pode controlar. Isso significa que somos humanos e, para manter um período de sucesso no futebol, você precisa ser diferente a cada temporada e encontrar soluções. Precisamos fazer algo diferente e buscaremos isso”, afirmou, também elogiando os oponentes. “O Colchester fez uma partida fantástica, foi difícil. Estamos muito desapontados que não pudemos marcar. Eles venceram o Palace nos pênaltis também, pode acontecer. Essa é a beleza da competição. Queríamos avançar, mas não foi possível”.

A grande história, ainda assim, é do Colchester. “Nós sabíamos que precisávamos de um homem extra no meio-campo e que, se tentássemos pressionar, seríamos surpreendidos”, declarou o técnico John McGreal. “É uma noite fantástica para os jogadores, para a comissão técnica e para o clube. Quando você enfrenta jogadores do calibre do Tottenham, precisa de um pouco de sorte. Foi uma grande ocasião para nós”. A estratégia defensiva foi cumprida à perfeição. E, contra um time 71 posições acima na pirâmide do futebol inglês, os U’s viveram sua inesquecível escalada. Quem sabe, para surpreender outro gigante também nas oitavas de final.