Jordânia e Palestina, adversárias nesta terça-feira de Copa da Ásia, são duas nações historicamente ligadas. O território do outro lado do Rio Jordão é um destino comum a refugiados palestinos. Estas ondas migratórias se intensificaram a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, por conta da disputa gerada pela criação do estado de Israel. Os principais fluxos aconteceram em 1948 e 1967, consequência da Guerra Árabe-Israelense e da Guerra dos Seis Dias. O governo jordaniano, inclusive, participou de ambos os conflitos – anexando a Cisjordânia (incluindo parte de Jerusalém) em 1948, antes de perder o território em 1967. Além disso, a Jordânia absorveu os cidadãos palestinos, integrando-os parcialmente à sua sociedade, o que não evitou sangrentos conflitos com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), principalmente na década de 1970. E mesmo com tensões, os reflexos permanecem ainda hoje, inclusive no futebol.

Mais de dois milhões de palestinos são registrados como refugiados na Jordânia. E esta conta não inclui os jordanianos de origem palestina, migrantes ou filhos de migrantes que se naturalizaram nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Assim, torna-se comum a aglutinação entre os cidadãos, o que se observa também nos elencos representados na Copa da Ásia. O goleiro Amer Shafi é o maior símbolo dos jordanianos no torneio continental. Disputa a sua quarta edição, herói na vitória sobre a Austrália na estreia. Ele nasceu em Amã, mas é descendente de palestinos. Já Abdelatif Bahdari, capitão da Palestina, nasceu na Faixa de Gaza, mas construiu sua carreira profissional na Jordânia.

Shafi e Bahdari chegaram a ser companheiros no futebol jordaniano. E não por mera coincidência: suas origens os levaram a defender o Al-Wehdat. Dono de 16 títulos na liga local, o clube possui uma identidade intrinsecamente ligada à comunidade palestina na Jordânia. Afinal, o seu berço é o “Novo Acampamento de Amã”, também conhecido Al-Wehdat, um campo de refugiados localizado no sudeste da capital. O local é um dos dez campos de refugiados palestinos reconhecidos oficialmente pela Jordânia, administrado pela ONU. Foi estabelecido em 1955, a partir da chegada de cinco mil pessoas. Já em 1957, a ONU passou a construir abrigos para estes palestinos. Naquele mesmo ano, com auxílio da organização internacional, os novos habitantes fundaram seu clube de futebol.

O Al-Wehdat, inicialmente, era visto como um centro voltado à juventude e oferecia atividades esportivas para integrar os palestinos. Com o tempo, porém, o campo de refugiados ganhou importância nos movimentos palestinos dentro da Jordânia. A participação dos refugiados na vida pública do novo país era intensa no local, com diversos movimentos políticos e protestos por melhores condições. Al-Wehdat virou um centro de atividade a nacionalistas em prol da Palestina. O clube de futebol, neste sentido, se transformou também em uma bandeira da representatividade de seu povo. Isso está evidente nos próprios símbolos e no uniforme, com as cores palestinas, ou mesmo no escudo, que possui desenhado o Domo da Rocha – local sagrado aos islâmicos em Jerusalém. “Um dia, quando não tivermos voz, Al-Wehdat será a nossa voz”, dizia o próprio Yasser Arafat.

A partir da década de 1970, o Al-Wehdat também ascendeu no Campeonato Jordaniano e se transformou em uma potência. Conquistou a segunda divisão pela primeira vez em 1975 e, mesmo novato na elite, não demorou a se sagrar campeão nacional. Seu primeiro título aconteceu em 1980, comemorado também na Cisjordânia. Já a principal sequência de vitórias se iniciou em 1992. Nestes últimos 26 anos, o Gigante Verde faturou nada menos que 14 títulos jordanianos, representando o país também na Liga dos Campeões da Ásia. Dono de quatro das últimas cinco taças, o time superou outras agremiações locais e se tornou o segundo maior vencedor da competição, atrás apenas do Al-Faisaly – gigante local com 33 troféus, fundado em 1932 e ligado ao nacionalismo jordaniano desde os tempos de colonialismo britânico.

O crescimento do Al-Wehdat, aliás, o transformou em principal rival do Al-Faisaly. Não à toa, os encontros entre as equipes ganharam a alcunha de “Dérbi da Jordânia”. Ambos possuem torcedores espalhados pelo território nacional, em arquibancadas que refletem suas origens: enquanto o Al-Faisaly é abraçado por jordanianos étnicos, o Al-Wehdat é bastante popular na comunidade palestina. E o nascimento da rivalidade também representa o aumento das tensões entre os dois grupos na Jordânia.

A receptividade aos palestinos na Jordânia sempre foi controlada. Quando anexou a Cisjordânia no fim dos anos 1940, o governo jordaniano concedeu ampla cidadania aos palestinos, facilitou a naturalização de refugiados e até mesmo concedeu direitos em sua legislação ao povo vizinho, garantindo cadeiras no parlamento. Em compensação, também via uma ameaça com a chegada massiva de palestinos, que triplicaram o número de habitantes no território jordaniano. A discriminação contra os imigrantes era notável e eles também passaram a sofrer uma vigilância intensa da polícia administrada pela Jordânia. Além disso, grupos palestinos também passaram a dominar o setor privado jordaniano, o que ampliou o ranço. Algo que se transportou diretamente aos estádios de futebol.

O principal marco desses conflitos se deu em 1970, quando estourou o chamado Setembro Negro, uma guerra civil entre o exército jordaniano e a OLP. Liderados por Yasser Arafat, os radicais palestinos haviam sido expulsos da Cisjordânia após a perda do território pelos jordanianos na Guerra dos Seis Dias. Reorganizados na Jordânia, passaram a coordenar ataques contra Israel, o que gerou a insatisfação do governo local. Em meio aos atritos, também organizaram ofensivas contra os jordanianos e tentaram assassinar o Rei Hussein duas vezes. Os embates culminaram na guerra, vencida pelas forças armadas jordanianas, que expulsaram os guerrilheiros palestinos de seu território e passaram a suprimir o nacionalismo palestino – acusados inclusive de massacres em campos de refugiados. Por toda a sua representatividade, a região de Al-Wehdat se tornou um alvo comum nesta supressão.

Os conflitos permaneceram por algum tempo. Outros ataques ligados à OLP aconteceram na Jordânia. Além disso, diante do Massacre de Munique, quando 11 membros da delegação israelense nos Jogos Olímpicos de 1972 foram mortos por terroristas palestinos do grupo Setembro Negro (surgido exatamente em decorrência da guerra), o Rei Hussein se tornou o único estadista árabe a condenar publicamente o episódio. As faíscas levariam anos para se abrandar, apesar das insurgências palestinas no território jordaniano. Em uma desses levantes, ocorrido em 1986, o governo ordenou que o Al-Wehdat mudasse de nome por sua origem palestina. Já em 1988, os jordanianos revogaram a cidadania local concedida aos habitantes da Cisjordânia e oficialmente abriram mão nas disputas pelo território vizinho. Mas, aos poucos, uma política mais conciliadora foi adotada. O clube pôde reassumir sua alcunha original em 1989. Mas não era isso que evitava as tensões étnicas nos estádios.

Assim, o Dérbi da Jordânia se transformou em um retrato do que acontece além dos gramados. Não à toa, cânticos com referências à guerra civil são entoados nas arquibancadas. O sectarismo permanece grande e repercute os atritos na sociedade local. Em 2009, o governo jordaniano revogou a cidadania de milhares de palestinos. Por causa disso, as brigas entre torcidas se tornaram ainda mais constantes. Meses depois, em 2010, cerca de 250 pessoas ficaram feridas no incidente mais sério envolvendo o dérbi, após seguidores do Al-Faisaly lançarem pedras contra os torcedores do Al-Wehdat e provocarem um tumulto na fuga dos palestinos – que também foram agredidos pela polícia local. Apesar dos clamores sobre mortes entre os fãs do Al-Wehdat, a informação foi negada pelas autoridades jordanianas.

O cenário novamente inflamado se explica. Ao longo da última década, a possibilidade de que a Jordânia seja incluída como uma solução para a questão da Palestina vem causando enorme preocupação no reino jordaniano e alimenta justamente as animosidades. A força de Israel na política internacional, as dificuldades econômicas da Jordânia e a presença numerosa de palestinos no território jordaniano apontam a alguns este caminho. Os palestinos ainda resistem em busca de uma solução que envolva as fronteiras históricas da Palestina, apesar dos interesses (inclusive americanos) para que as diferentes religiões sejam separadas entre Israel e Jordânia. Desta forma, o Dérbi da Jordânia serve de termômetro entre as etnias que habitam no país. E o duelo nesta Copa da Ásia, de certa forma, traz à tona uma relação próxima que possui as suas muitas faíscas. São irmãos, mas com um passado também repleto de sangue. Nesta terça, ao menos, o clima amistoso deve prevalecer na Copa da Ásia.