A rivalidade entre Iraque e Irã que se reflete no futebol, na verdade, carrega em si uma rixa que atravessou milênios. As disputas entre os dois povos se manifesta desde a Antiguidade, nos arredores do Tigres e do Eufrates. Diferenças que se renovaram a partir das divisões do islamismo, na Idade Média, e que se resultaram em guerras nas últimas décadas. O futebol acaba sendo mais um meio de manifestar tal embate. E ganhou um capítulo memorável nesta quinta-feira de Eliminatórias à Copa de 2022. A vitória dos iraquianos por 2 a 1, com um gol aos 47 do segundo tempo, provocou um verdadeiro furor nas ruas do país – ainda mais significativo diante do conturbado momento político do Iraque, que inclui o Irã no contexto.

Iraque e Irã se enfrentaram pela primeira vez em 1962 e, desde então, os resultados são claramente favoráveis aos persas. Os iranianos venceram 12 dos 24 jogos disputados, com seis empates. No entanto, o cenário tem virado em prol dos iraquianos nos últimos tempos. Em 2017, os Leões da Mesopotâmia já haviam vencido um amistoso que encerrou o jejum de 14 anos no clássico. E, nesta quinta, o triunfo pôs fim a uma série de 23 anos sem ganhar um duelo oficial – apesar do triunfo nos pênaltis após o 3 a 3 na Copa da Ásia de 2015.

Embora o Iraque tenha voltado a sediar jogos oficiais em seu território na última Data Fifa, após um hiato de oito anos, o clássico precisou acontecer em campo neutro, assim como será nas próximas partidas sob o mando dos Leões da Mesopotâmia. Os protestos recentes da população contra o governo, que resultaram em mais de 300 mortos e 15 mil feridos desde outubro, levaram o confronto para Amã. E seria realmente mais prudente evitar o duelo dentro do país, já que a interferência iraniana na política interna e a presença de milícias armadas pró-Irã no território iraquiano estão justamente entre as pautas dos manifestantes. O consulado iraniano na cidade de Karbala chegou a ser atacado na última semana, resultando em três mortes.

Mesmo na Jordânia, a presença dos torcedores do Iraque era expressiva, impulsionada pela importante comunidade de imigrantes e refugiados iraquianos no país vizinho. Longe de casa, eles puderam celebrar, com centenas de bandeiras e símbolos nacionais presentes nas arquibancadas. O Iraque abriu o placar aos 11 minutos, com Mohanad Ali. Durante a comemoração, inclusive, o atacante de 19 anos fez uma referência à situação política no país. Cobriu o rosto, para representar as bombas de gás lacrimogêneo lançadas contra a população.

O Irã chegou ao empate ainda no primeiro tempo, graças ao tento de Ahmad Nourollahi. E as emoções chegariam ao seu ápice durante os minutos finais. Aos 36 do segundo tempo, os persas ficaram com um jogador a menos, após a expulsão do capitão Masoud Shojaei, que recebeu o segundo cartão amarelo. Os Leões da Mesopotâmia tirariam proveito da vantagem nos acréscimos.

O gol decisivo do Iraque, aos 47 do segundo tempo, nem é dos mais bonitos. Após o cruzamento da direita, Alaa Abbas aproveitou a marcação frouxa para cabecear e o goleiro Alireza Beiranvand poderia ter feito melhor, em bola que tocou suas mãos antes de entrar. A beleza, entretanto, está em outros detalhes. Primeiro, nas arquibancadas em Amã, onde a festa fez o estádio parecer mais um pedacinho do Iraque. Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, a apoteose arrastava multidões.

A Praça Tahrir, em Bagdá, vem sendo o epicentro dos protestos recentes. Por lá é que os atos se iniciaram em outubro e o local continua ocupado por milhares de pessoas desde então. Já nesta quarta, a praça teve a presença não só dos manifestantes, mas também de mais gente que foi assistir ao clássico em telões. O espaço estava abarrotado. Pois o gol da vitória nos últimos instantes provocou a erupção do povo em transe. O futebol também entra em um contexto mais amplo e a vitória representa um orgulho nacional nesse momento de turbulência política, que possui os iranianos como antagonistas. Em outras cidades, cenas parecidas se repetiriam.

O resultado, além do mais, promete surpresas no Grupo C das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022. O Iraque lidera com dez pontos, seguido pelo Bahrein, com oito. O Irã é apenas o terceiro colocado, com seis, e a força da seleção não se mantém após a troca no comando, com a chegada de Marc Wilmots para a vaga de Carlos Queiroz. Apenas o líder da chave avançará à próxima fase, enquanto o segundo colocado precisa estar entre os quatro melhores vice-líderes desta etapa para confirmar a classificação. Além de tudo, é um imenso resultado esportivo aos iraquianos, em seu sonho de voltar ao Mundial.

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