As Eliminatórias da Copa de 2022 viveram uma partida histórica nesta terça-feira. Pela primeira vez, Coreia do Norte e Coreia do Sul disputaram um jogo oficial em Pyongyang. Como era de se prever, o duelo na capital norte-coreana foi cercado de cautela e tensões, diante da tênue trégua que existe entre os países – ainda tecnicamente em guerra, já que não existe um tratado de paz desde o armistício em 1953. E o clássico inédito também seria cercado de melancolia. O governo norte-coreano proibiu a entrada de torcedores e jornalistas sul-coreanos. A partida não teve transmissão ao vivo. Pior, sequer a torcida local ganhou permissão para entrar. Ao final, praticamente ninguém viu o empate por 0 a 0, no vazio Estádio Kim Il-sung.

Coreia do Norte e Coreia do Sul haviam se enfrentado apenas uma vez em Pyongyang, mas em caráter amistoso. A chamada “Partida da Reunificação” recebeu 150 mil torcedores no Estádio Rungrado 1° de maio em outubro de 1990 e contou com a vitória norte-coreana por 2 a 1, a única do país na história do confronto. Duas semanas depois, aconteceu o reencontro no Estádio Olímpico de Seul, com vitória da Coreia do Sul por 1 a 0, diante de 70 mil espectadores. Naquele momento, ensaiava-se uma aproximação entre os países através dos esportes.

Apesar das tensões naturais por conta dos conflitos, a relação entre as Coreias ao redor dos esportes (e do futebol) é branda. Não à toa, existe uma torcida recíproca entre as seleções, com norte-coreanos abraçando o sul em torneios internacionais e vice-versa. Além disso, dentre as esporádicas unificações que acontecem em diversas modalidades, as Coreias já atuaram sob uma só bandeira também no futebol. Em 1991, as duas equipes se garantiram no Mundial Sub-20 e resolveram se juntar à fase final. Os coreanos chegaram a bater a Argentina na etapa de classificação, antes da eliminação para o Brasil nas quartas de final.

Já em 1993, Coreia do Sul e Coreia do Norte se enfrentaram no hexagonal decisivo das Eliminatórias da Copa, realizada em Doha. Enquanto os norte-coreanos já estavam eliminados, os sul-coreanos consumaram a classificação aos Estados Unidos graças a vitória por 3 a 0 na última rodada. Depois do revés para os vizinhos, a federação do norte resolveu se retirar do futebol de seleções e só retomou as suas atividades em 1998. Além disso, o país retornaria às Eliminatórias apenas na campanha em busca do Mundial de 2006.

Durante este recomeço, não demorou para que o reencontro acontecesse. Em 2008, as duas seleções se encararam na fase de classificação das Eliminatórias da Copa. A partida em Pyongyang terminou transferida para Xangai, depois que as autoridades norte-coreanas se recusaram que o hino nacional sul-coreano fosse executado e que a bandeira dos vizinhos fosse hasteada no Estádio Kim Il-sung. Prevaleceu o empate por 0 a 0, placar repetido em Seul. As duas equipes voltariam a se enfrentar na fase final, com o empate por 1 a 1 em Xangai e a vitória da Coreia do Sul por 1 a 0 em Seul. No fim das contas, as duas seleções conquistaram a classificação ao Mundial de 2010.

Desde então, os únicos dois embates aconteceram em campo neutro, pela Copa do Extremo Oriente – um torneio regional organizado por uma das subdivisões da confederação asiática. No máximo, a seleção feminina da Coreia do Sul havia atuado na Coreia do Norte em abril de 2017, pelas Eliminatórias da Copa da Ásia. Diante de 42,5 mil torcedores no Estádio Kim Il-sung, o placar terminou igualado em 1 a 1.

Nesta terça, havia uma clara preocupação ao redor da situação e a Coreia do Sul acatou as recomendações feitas pela Coreia do Norte. Com a estagnação recente das conversas entre os países e a falta de um acordo armamentístico, a cautela era óbvia. Depois de receberem apenas em setembro as informações sobre a logística do confronto, os sul-coreanos precisaram aceitar o veto a qualquer pessoa que não fizesse parte do elenco ou da comissão técnica. Jornalistas ou torcedores estrangeiros também acabaram barrados. A própria equipe da Coreia do Sul teve que fazer uma conexão em Pequim, antes de seguir a Pyongyang, por não ter permissão para atravessar a fronteira.

Apesar de todos os problemas, esperava-se que o Estádio Kim Il-Sung se aproximasse de sua capacidade máxima, recebendo entre 40 mil e 50 mil torcedores. O governo local, entretanto, optou por manter os portões fechados. O hino sul-coreano foi executado antes que a bola rolasse e a bandeira do sul também apareceu no mastro. Dentre os raros felizardos que puderam acompanhar o clássico, estava presente o presidente da Fifa, Gianni Infantino.

“Eu estava ansioso por ver o estádio cheio em uma partida histórica, mas fiquei desapontado em notar que não havia ninguém nas arquibancadas. Ficamos surpresos com isso e com várias questões relacionadas à transmissão ao vivo ou aos problemas com vistos de acesso para jornalistas estrangeiros. Para nós, liberdade de expressão e de imprensa são obviamente essenciais, mas seria ingênuo pensar que podemos mudar o mundo em um minuto. Levantamos essas questões com a federação e certamente seguiremos pressionando para que o futebol possa ter uma influência positiva na Coreia do Norte e em outros países”, declarou o cartola, que negocia uma candidatura conjunta entre as Coreias para a Copa do Mundo Feminina de 2023.

Dentro de campo, os torcedores não perderam muita coisa. Os únicos relatos ao vivo foram feitos pela Fifa e pela AFC, com o “lance a lance” em seus sites restrito a registrar cartões e substituições. Conforme a nota da confederação asiática, “o árbitro esteve mais ocupado que ambos os goleiros”, em uma partida tensa e de raras chances de gol. Enquanto os sul-coreanos tiveram seu ataque liderado por Son Heung-min, os norte-coreanos contaram com a presença de Han Kwang-song, atacante de 21 anos que desponta no segundo time da Juventus. Nem eles ajudaram. Já o técnico Paulo Bento se queixou da interferência do árbitro. Segundo o comandante, o duelo parou demais e seguiu em ritmo “diferente do usual”.

A coletiva da partida, que contou com a presença de cinco jornalistas norte-coreanos e dois representantes da federação sul-coreana, só pôde ter suas informações transmitidas depois que os funcionários voltaram ao hotel e acessaram a internet. Além disso, a federação do norte prometeu entregar um DVD com a filmagem do jogo aos vizinhos antes que a seleção deixe o país, permitindo assim a transmissão do VT nos canais do sul.

Coreia do Sul e Coreia do Norte aparecem emparelhadas no Grupo H das Eliminatórias Asiáticas. As duas equipes somam sete pontos, em grupo que também possui o Líbano com seis. Apenas o líder avançará à fase final, enquanto o segundo colocado precisa pleitear seu lugar entre os times com melhor pontuação. O próximo clássico está marcado para 4 de junho de 2020, provavelmente em Seul. O equilíbrio da chave pode transformar o duelo pela penúltima rodada em uma verdadeira decisão. O clima nas arquibancadas tende a ser bem diferente do que se viu em Pyongyang.