A fragmentação da Iugoslávia começou a se evidenciar a partir de 1980. A comoção de um estádio inteiro após o anúncio da morte de Josip Broz Tito deixava bem clara a importância do presidente. Mas não só isso. As tensões entre as etnias nos Bálcãs, latentes desde muito antes, ficavam expostas sem o líder que as controlava. O país atravessou uma década inteira vivendo o aumento de sentimentos nacionalistas. Para a eclosão de uma guerra dez anos depois, muito por conta de um capítulo ocorrido em um estádio de futebol. A imagem de Zvonimir Boban chutando um policial não é o retrato da violência nos estádios. É o símbolo da cisão que acontecia entre croatas e sérvios naquele momento.

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Os eventos que explodiram no 13 de maio de 1990 possuem diversos panos de fundo. Obviamente, a violência habitual dos ultras no país era um fator preponderante. Mesmo no dia da morte de Tito, a Torcida do Hajduk Split e a Delije do Estrela Vermelha preparavam uma batalha, ideia abandonada após a notícia. Mas, dez anos depois, a reputação da Delije seguia péssima, assim como dos Bad Blue Boys, a organizada do Dinamo Zagreb. Dois clubes que se odiavam naturalmente, na briga pela hegemonia do Campeonato Iugoslavo. E que tinham os ânimos ainda mais acirrados por conta da primeira eleição parlamentar da República Socialista da Croácia pós-comunismo, ainda dentro do sistema político da Iugoslávia.

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As urnas escancararam o desejo de independência dos croatas, com a vitória de partidos que alimentavam os sentimentos nacionalistas. O que não era aceito pelo poder central iugoslavo, nas mãos dos sérvios. E os resultados tomavam o noticiário justamente entre o final de abril e o início de maio, às vésperas do clássico pelo Campeonato Iugoslavo. Deixou ainda mais sanguinários os ultras sérvios que viajariam a Zagreb. Entre eles, Zeljko Raznatovic, o Arkan, líder da Delije e procurado até mesmo pela Interpol. Já os Bad Blue Boys viviam uma associação com as outras grandes torcidas de sua república, a chamada “Irmandade Croata”, mais pautada pelo nacionalismo do que pelas rivalidades internas.

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Cerca de três mil torcedores do Estrela Vermelha foram à capital croata. E a pancadaria se deu desde as ruas da cidade, no entorno do Estádio Maksimir. Já nas arquibancadas, a tensão se ampliou quando a Delije começou a entoar músicas nacionalistas sérvias, respondidas com canções croatas pelos cerca de 20 mil torcedores do Dinamo presentes nas arquibancadas. Logo na sequência, os visitantes quebraram as cercas que dividiam os setores e começaram a bater nos torcedores rivais. Do outro lado, os Bad Blue Boys também romperam suas barreiras. A polícia, composta em sua maioria por sérvios, partiu para cima dos ultras do Dinamo ao invés de conter a briga. O cenário de guerra estava montado.

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Ambos os lados atiravam pedras, cadeiras e o que mais viam pela frente. Enquanto isso, os ultras do Dinamo Zagreb tentavam se proteger das bombas de gás lacrimogêneo no gramado. O que motivou a voadora de Boban. Aos 21 anos, o meio-campista do Dinamo, que já fazia parte da seleção principal da Iugoslávia, partiu para cima dos policiais. Começou a discutir em defesa de seus torcedores. Até o momento em que perdeu a cabeça, xingado por um dos seguranças como “mais um filho da puta igual a eles”, e acertou a joelhada que quebrou o nariz do oficial – ironicamente, um bósnio muçulmano. Após a atitude, o jovem craque começou a ser aplaudido e ter seu nome gritado por quem ainda estava no estádio.

A reação de Boban custou seu lugar na Copa de 1990, nome certo na convocação da Iugoslávia. “Aqui estou eu, com a face em público para arriscar minha vida, minha carreira e tudo que a fama pode dar. Tudo por conta de um ideal. De uma causa, a causa croata”, declarou na época, após a partida. A partir de então, o camisa 10 se transformou em herói nacional para os croatas e símbolo da luta contra as repressões do poder central. Um ano depois, quando a situação no país se tornava ainda mais tensa, o meio-campista se transferiu ao Milan, clube no qual se consagrou.

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O saldo oficial contou 117 policiais feridos, além de 39 torcedores do Estrela Vermelha e 37 do Dinamo, enquanto 100 ultras acabaram presos. Números para se desconfiar, até mesmo pelas proporções que a briga teve. Além disso, a pancadaria ressaltava o caráter que as torcidas organizadas ganhariam meses depois. O líder da Delije montou o Arkan’s Tigers, grupo paramilitar que combateu pelos sérvios e foi responsável por diversos crimes de guerra, com a morte e sequestro de pessoas das outras etnias iugoslavas.

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No momento da guerra campal, o Estrela Vermelha já havia garantido o título iugoslavo e a vaga na Copa dos Campeões 1990/91, na qual alcançou a maior conquista de sua história – a última glória de um país esfacelado. Aquela temporada, inclusive, contou com uma edição ainda mais tumultuada do Campeonato Iugoslavo. As brigas entre torcedores se tornaram comuns. Já os times croatas e eslovenos disputaram pela última vez o torneio do antigo país. A Guerra da Iugoslávia estourou definitivamente em maio de 1991, com os referendos de independência da Croácia e da Eslovênia. E o sangue continuou a escorrer nos Bálcãs, especialmente durante a Guerra da Bósnia (1992-95), a Guerra do Kosovo (1998-99) e o genocídio promovido por Slobodan Milosevic.

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Para muita gente, no entanto, aquele 13 de maio de 1990 marca o verdadeiro início da Guerra da Iugoslávia. O ambiente dentro do Estádio Maksimir expôs os inimigos. E a atitude da polícia contra os ultras locais deu mais motivos aos anseios nacionalistas. Era uma imagem bastante simbólica da repressão do poder central contra o povo que lutava contra a independência. O futebol catalisava todo o contexto social que se erguia na Croácia, com os clamores de “uma guerra pela pátria mãe”. O monumento erguido pelos próprios Bad Blue Boys nos arredores do estádio, exaltando os “mártires” que lutaram nas arquibancadas antes de morrerem na guerra, deixa bem evidente o caráter daquele dia aos croatas.