Nem é nada tão inédito assim: na temporada 2010/11, Ajax e Feyenoord já começaram um ano protagonizando diretamente um clássico (foi em 17 de janeiro de 2011, na Amsterdam Arena, com os donos da casa fazendo 2 a 0). No entanto, é possível dizer que o encontro entre os dois arquirrivais holandeses, obviamente o mais aguardado na 19ª rodada que reabrirá para valer o Campeonato Holandês após a pausa de inverno, será mais fundamental do que o de 2011. Talvez, determinará rumos para as duas equipes na disputa dentro da Eredivisie.

E se há uma equipe nesse Klassieker que necessita dar indicações mais firmes sobre o que se pode esperar dela, é o Ajax. Afinal de contas, a turbulenta demissão do técnico Marcel Keizer (e do “consultor técnico” Dennis Bergkamp, e também do auxiliar Hennie Spijkerman) deixou claro que, para tentar sanar a inconstância vista em campo na temporada, o diretor de futebol Marc Overmars decidiu tomar as rédeas de um clube perdido fora de campo – com respaldo total do diretor geral, Edwin van der Sar. Tão logo demitiu Keizer, Overmars já tinha os nomes desejados na cabeça: Erik ten Hag, do Utrecht, a ser auxiliado por Alfred Schreuder, braço-direito de Julian Nagelsmann no Hoffenheim. Demorou alguns dias, mas conseguiu trazer ambos para o Ajax.

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Claro, tal mudança não ocorreria nem ocorreu sem alarido. Afinal, Ten Hag é reconhecido como um técnico renovador dentro do futebol holandês, dando de ombros para o 4-3-3 velho de guerra – e quase canônico no Ajax – e fazendo o Utrecht jogar de modo atraente, num 4-4-2 “em losango” (um volante, dois meias de cada lado e um ponta-de-lança ajudando o ataque). Claro, para alguns, a mudança afrontou o ideário tão caro aos Ajacieden – e as críticas não poderiam ter vindo de outro nome que não o de Jordi Cruyff, óbvio protetor do legado de Johan: “Uma pena ver primeiro a saída de Wim Jonk (diretor das categorias de base, demitido em 2015) e depois a de Bergkamp. As ideias de meu pai foram definitivamente prejudicadas”.

Talvez tenham sido prejudicadas exatamente pelo que Ten Hag pode trazer ao Ajax: uma equipe com mais variações táticas e maior velocidade, que saiba resolver jogos fora do seu estilo de posse de bola e troca de passes. Oportunidade melhor para desenvolver esse lado, o técnico não teve: após ser auxiliar em Twente e PSV, treinou a equipe B do Bayern de Munique, entre 2013 e 2015 – mantendo contato constante justamente com Josep “Pep” Guardiola, que treinava a equipe principal. Na apresentação, Ten Hag obviamente evocou a experiência com o catalão apontado como, no mínimo, o grande técnico de sua geração: “Fui formado seguindo a escola holandesa, mas a experiência em Munique tornou minha visão mais precisa. A vida lá, o desejo de sempre querer vencer, o futebol dominante que Guardiola implanta, tudo isso me diz muito”.

Outra frase poderia até causar certa celeuma: “A função defensiva é a base da vitória. Foi uma das coisas que aprendi com Guardiola”. Mas Ten Hag mostrou prontamente saber onde está pisando: “Eu tenho a pecha de treinador defensivo, mas não sei de onde tiraram isso. Quando treinei o Go Ahead Eagles ou o Utrecht, sempre escalei muitos jogadores com funções ofensivas. O esquema tático não diz se você joga ofensiva ou defensivamente”. E concluiu afagando: “O Ajax sempre foi um clube de bravura, renovação e criatividade. Com Cruyff, Michels, Van Gaal. Isso realmente me toca fundo. É o clube mais fascinante da Holanda”.

Para tentar manter tal fascinação, Ten Hag gastou mais tempo em treinos do que em jogos na intertemporada feita em Lagos, balneário no Algarve português – houve apenas uma partida amistosa (vitória por 5 a 1 sobre o Lyngby, da Dinamarca). Durante os trabalhos, também foi experimentada a nova contratação: Nicolás Tagliafico, que já poderá entrar na lateral esquerda, no Klassieker. Ainda assim, o pensamento era de que só os treinos poderiam acelerar a remontagem sob Ten Hag. Que precisa dar certo, conforme reconheceu Van der Sar: “Tivemos três treinadores num só ano. Se não progredirmos agora, será hora de avaliar o meu trabalho também”. E como assume o próprio técnico: “Não tivemos seis semanas de preparação. Foram só duas semanas, e já temos o Feyenoord pela frente”.

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E o Ajax terá um Feyenoord reanimado. Pelo que fez no final do turno – três vitórias seguidas, que alimentaram a minúscula esperança de superar Zwolle e AZ para buscar ainda os outros dois grandes do país na disputa do título, como prometeu Nicolai Jorgensen (“Nós iremos à caça do PSV após a intertemporada”) e advertiu o capitão Karim El Ahmadi (“O PSV segue ganhando, e temos de fazer o mesmo. Ainda temos 16 jogos, e nada está decidido”). Mas reanimado principalmente pela ansiedade de uma contratação provável: a volta de Robin van Persie, 14 anos após deixar o clube de Roterdã para fazer carreira longa e próspera. Entre Feyenoord e Van Persie, tudo certo. O problema é a arrastada negociação para a rescisão de contrato com o Fenerbahçe.

Até porque a relação entre o atacante e o clube turco sofreu alguns arranhões desde agosto. Convocado para a rodada das Eliminatórias para a Copa de 2018, o maior goleador da história da seleção holandesa se apresentou a ela, contra a vontade do Fener. Jogou nos 4 a 0 sofridos para a França na qualificação, lesionou-se, foi cortado, e caiu definitivamente em desgraça nos Canários Amarelos. De mais a mais, o técnico Aykut Kocaman já nem o considera como real opção para o ataque. E o Feyenoord já tentara a contratação, no início da temporada, apostando que Van Persie poderia repetir o papel de Dirk Kuyt na temporada passada: o veterano calejado, vindo de outros tempos, que poderia levar o time a fazer coisas grandes.

Se tudo desse certo, o objetivo era apresentar Van Persie durante esta semana, para já fazê-lo jogar o Klassieker. Não deu certo. Mas só isso já serviu para animar mais a torcida. Também foi útil a recuperação da dupla titular da defesa, Eric Botteghin e Jan-Arie van der Heijden, ambos livres das lesões que os tiraram do turno (e vendo a dupla substituta, Renato Tapia e Sven van Beek, crescer de produção). A intertemporada no balneário espanhol de Marbella também foi bem recebida, e bem concluída, com a vitória no amistoso único contra o Luzern, da Suíça (2 a 1).

Referência no ataque, Nicolai Jorgensen já tratou de saudar a provável vinda de Van Persie: “Sou fã dele”. Jogadores como Jens Toornstra, Tonny Vilhena e Steven Berghuis estão prontos para tentar surpreender o Ajax. E assim, o Klassieker atrai mais atenções do que já o faz. Por motivos justos: pode indicar se o Feyenoord tem o direito de sonhar, e se o Ajax conseguirá dar fim às turbulências para seguir perseguindo o líder PSV – nada imbatível, como mostraram as atuações na Florida Cup.


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