Um lance pode determinar os rumos da partida. E a discussão inescapável em Anfield, neste domingo, é sobre o gol que abriu a vitória do Liverpool sobre o Manchester City por 3 a 1. Os toques de mão aconteceram e a arbitragem tomou a sua decisão. Mas, dentro daquilo que o debate não pode alterar, também não se nega a maneira como os Reds dominaram o duelo – beneficiados ou não. Se os Citizens ainda tinham um jogo inteiro para reagir, não conseguiram contra um adversário que realmente foi superior. A equipe de Jürgen Klopp foi impiedosa no ataque, com muita precisão, e também intensa na defesa. Sublinhou sua força contra os comandados de Pep Guardiola, em uma noite na qual os visitantes tiveram atitude, mas não ímpeto e muito menos segurança defensiva. A liderança do Liverpool se amplia.

Antes que a bola rolasse, o clima em Anfield já era caloroso, entre os cânticos da torcida e a tocante homenagem aos veteranos da Primeira Guerra Mundial. E bastaram poucas movimentações para que a partida se incendiasse. O Manchester City até buscava se postar no ataque, com algumas bolas paradas. Foi neste momento que aconteceu o lance decisivo, aos cinco minutos. A arbitragem deveria marcar um toque de mão de Bernardo Silva na área adversária. Não deu. Na sequência, a bola claramente bateu no braço de Trent Alexander-Arnold. De novo, nada foi marcado. A jogada gerou muita reclamação dos jogadores celestes e de Pep Guardiola. Então, o Liverpool aproveitou o desalinho para anotar seu primeiro gol.

O Manchester City demorou muito a se recompor no lance. Sadio Mané recebeu a bola na esquerda e avançou, num contragolpe de três atacantes contra quatro defensores. Os celestes até puderam neutralizar o cruzamento, mas a tentativa de afastar foi mal feita por Ilkay Gündogan. A bola rasteira chegou limpa a Fabinho e o volante encontrou todo o espaço do mundo para encher o pé de fora da área. O chute fortíssimo seguiu ao canto da meta e não deu chances a Claudio Bravo. Depois do lance, os visitantes tinham esperanças de que a arbitragem pudesse voltar atrás e anotar o pênalti. Nada feito. O gol foi validado. Segundo a resposta oficial da Premier League, o “toque involuntário de Alexander-Arnold não foi suficiente para a marcação”. Ficou a controvérsia, também pelo toque ignorado de Bernardo Silva.

A jogada não desmontou o Manchester City apenas naquele instante. A equipe também sentiu a desvantagem e não conseguiu aproveitar as chances imediatar que criou. Foram bolas levantadas por Kevin de Bruyne, mas Raheem Sterling e Sergio Agüero perdoaram. Como se não bastasse, o Liverpool ampliou aos 13. Alexander-Arnold fez uma inversão soberba para Andy Robertson e o lateral esquerdo deu uma aula de cruzamento. Mandou uma bola com a curva perfeita para encontrar Mohamed Salah passando no segundo pau. O egípcio, então, aproveitou o bote errado de Fernandinho e completou de cabeça, no canto oposto de Bravo. Novamente existiam dúvidas quanto ao tento, mas o VAR confirmou a posição legal do atacante.

A precisão do Liverpool fazia toda a diferença na construção do placar. O Manchester City se postava à frente, o que não adiantava. De Bruyne carregava o time, mas não encontrava os companheiros em mesma sintonia. Os celestes não eram tão incisivos. Quando passaram a criar mais perigo, também não deram sorte. Agüero exigiu uma defesa de Alisson aos 24, pouco antes de Angeliño invadir a área e ser prensado por Virgil van Dijk. Ainda assim o chute escapuliu e esbarrou na trave, antes de sair. Foi o melhor momento dos Citizens no primeiro tempo, aproveitando bastante as subidas de Angeliño pela esquerda, mas não duraria tanto.

O Liverpool mantinha um alto nível de atenção na defesa e também dava suas escapadas no ataque. Roberto Firmino teve duas oportunidades de marcar o terceiro por volta dos 35 minutos, mas bateu por cima na primeira tentativa e depois pararia em Bravo. O City responderia com Agüero, num tiro para fora. Mas a impressão é de que os Reds poderiam ampliar em breve. Antes do intervalo, Salah voltaria a tentar, em batida de média distância que Bravo buscou. A torcida em Anfield tinha motivos para se animar.

No início do segundo tempo, o Manchester City voltou com a mesma postura, de se colocar no campo de ataque. E pela terceira vez, concedeu o espaço para que o Liverpool fosse cirúrgico. A partir de uma cobrança de lateral, Jordan Henderson viu a brecha na direita e chegou à linha de fundo. Mesmo pressionado, executou um excelente cruzamento, rumo ao segundo pau. Mané mergulhou e emendou de cabeça, vencendo outra vez Claudio Bravo. O miolo de zaga do City, cochilando, também facilitou o trabalho aos Reds.

Não restava ao Manchester City nada além de tentar, mas, longe de sua melhor noite, o time pouco fez. A defesa do Liverpool também realizava um trabalho excepcional, cabe frisar. Os zagueiros exibiam um ótimo tempo de bola para travar os adversários. Da mesma maneira, Alisson transmitia segurança nos cruzamentos. E confiança era o que menos se notava entre os celestes, como ficou claro aos 23. De Bruyne fez grande jogada pela esquerda e cruzou rasteiro para Agüero. A bola passou pelo atacante, sem que ele desviasse. Logo depois, o argentino daria lugar a Gabriel Jesus.

A partida, praticamente definida, seguia com menos emoção do que se esperava a um jogo tão importante. O Manchester City só conseguiu dar um calor no Liverpool por volta dos 30 minutos. Já aos 33, os celestes descontaram. De Bruyne e Fabinho disputaram na área, em lance que o brasileiro reclamou de falta. Sterling pegou a sobra e abriu para Angeliño, que fez o passe rasteiro para Bernardo Silva do outro lado da área. O português mandou de primeira e a bola ainda beijou a trave antes de entrar.

Quando os Citizens pareciam mais capazes de abrir a zaga vermelha, entretanto, não foram além. Alisson sairia nos pés de Sterling, num passe que Jesus não completou em cheio, e Guardiola de novo reclamou de um toque de mão, num lance no qual o braço de Alexander-Arnold estava junto ao corpo. Depois disso, bastaria aos Reds esfriarem o abafa para comemorar a vitória. Anfield cantou ainda mais alto pelo resultado que permitiu aos anfitriões dispararem na Premier League.

Na saída de campo, Guardiola guardou um irônico cumprimento ao árbitro Michael Oliver. E está em seu direito de reclamar, entre as diferentes interpretações que o lance permite. No entanto, o treinador também precisa ter consciência que o seu time não apresentou o futebol necessário. O espanhol também possui sua parcela de culpa pelo resultado, sobretudo por um elenco que sofre com os desfalques, como bem se viu na defesa. A recuperação na tabela se torna mais difícil aos mancunianos, agora na quarta colocação, ultrapassados por Leicester e Chelsea.

Já o Liverpool atravessa aquele que pode ser considerado o momento de maior favoritismo ao título desde a criação da Premier League. Mesmo tão cedo, as chances se escancaram ao time de Jürgen Klopp. São oito pontos de vantagem na liderança, com vitórias que apresentam não apenas o bom futebol da equipe, mas também sua capacidade de seguir lutando. Se em rodadas passadas os Reds precisaram correr atrás de placares adversos, dessa vez souberam preservar sua vantagem contra um adversário duro, que permaneceu em cima, mesmo que não acertasse tanto. É o que dá um pouco mais de esperança quanto ao fim da seca. Arbitragem à parte, a fase do Liverpool não depende disso.

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