Fedor Assombalonga era uma esperança de gols ao Zaire no início os anos 1990. O atacante defendia o Dragons, um dos principais clubes do país, e ganhou a convocação para disputar a Copa Africana de Nações em 1992. Permaneceu como reserva, sem balançar as redes. Um ano depois do torneio, porém, o jogador de 24 anos abandonou o futebol. Seu país estava à beira de uma guerra civil e ele desejava um futuro mais seguro à família. Mudou-se a Londres, largando a carreira para isso. Fedor e a esposa se tornaram faxineiros dos Abbey Road Studios, suando para ganhar o pão aos quatro filhos. Britt Assombalonga tinha apenas oito meses quando deixou o Zaire com os pais. Já neste domingo, aos 26 anos, marcou o seu primeiro gol pela seleção da agora chamada República Democrática do Congo, justo na CAN. Nas arquibancadas, a emoção de Fedor diante do tento do filho era plenamente compreensível.

Assombalonga saiu do banco durante a partida contra o Zimbábue e anotou o gol que fechou a goleada por 4 a 0 dos Leopardos. O lance nasceu em uma infelicidade do goleiro, que bateu roupa e deixou a bola limpa nos pés do atacante. Pouco importava a beleza da jogada. Um filme certamente veio à mente de Fedor. O ex-atacante não pôde balançar as redes na CAN há 27 anos. Agora, o menino que alimentou sua perseverança cumpriu seu desejo. O veterano derramou-se em lágrimas.

Britt estudou em Londres e por lá também se tornou profissional, com a camisa do Watford. Rodou por diferentes clubes das divisões de acesso. E já em 2014 manifestou o seu desejo de atuar pela seleção congolesa. As lesões atrapalharam sua progressão e, em 2017, quando tinha a chance de disputar a sua primeira CAN, recusou o chamado para se focar na recuperação com a camisa do Nottingham Forest. Nas duas últimas temporadas, o atacante se tornou um dos destaques do Middlesbrough na Championship. Pôde receber uma nova oportunidade com os Leopardos, sem negar desta vez. O gol inicia um capítulo importante em sua carreira, ao mesmo tempo em que encerra outro belíssimo em sua vida.

O choro não é apenas sobre o orgulho por seu filho. Ele também possui um significado de pertencimento. Mesmo criado em um ambiente totalmente diferente de Kinshasa, a salvo das ameaças da guerra, Britt manteve firmes suas raízes na República Democrática do Congo. Completou um ciclo que conduzia os sonhos de seu pai, mostrando como não foi em vão a aposentadoria precoce nos gramados e os esforços da vida como trabalhador imigrante em um novo país. O gol deste domingo também foi anotado por Fedor Assombalonga.