O Chelsea atravessava seu momento de maiores dúvidas na temporada. A sequência avassaladora desde a chegada de Maurizio Sarri se quebrara e as derrotas recentes aconteceram em atuações apáticas dos Blues. O duelo contra o Manchester City, neste sábado, surgia então como uma prova de fogo em Stamford Bridge. E os londrinos mudaram um pouco seu padrão de jogo, mas demonstraram como podem ser uma equipe competitiva. Se o toque de bola não funcionou desta vez, o Chelsea recobrou sua velha vocação aos ataques fulminantes. Muito bem defensivamente, o time da casa travou os Citizens e resolveu em golpes fatais. Grande atuação sem a bola dos anfitriões, que também contaram com a virtuosidade de algumas peças específicas para triunfar. A vitória por 2 a 0 vem em boa hora, não apenas para recobrar a força dos azuis, como também para ajudar o Liverpool, novo líder da Premier League diante da quebra da invencibilidade dos celestes.

Ambos os treinadores privilegiaram jogadores mais leves em suas escalações. O Chelsea voltou a contar com David Luiz e Jorginho na equipe titular. Já a grande novidade foi a utilização de Eden Hazard como falso nove, ao lado de Willian e Pedro na trinca ofensiva. O artifício, aliás, também foi utilizado por Pep Guardiola. O comandante do Manchester City optou por Raheem Sterling no centro do ataque, apoiado por Leroy Sané e Riyad Mahrez. No meio, David Silva e Bernardo Silva atuavam como meias, acompanhados por Fernandinho.

A estratégia do City permitiu que o time dominasse quase todo o primeiro tempo. Os celestes marcavam muito forte a saída de bola do Chelsea, que mal conseguia passar do meio-campo. Além disso, conseguiam escapar facilmente dos adversários em suas transições, jogando no campo de ataque. Mas, ainda que girassem muito bem a bola, os Citizens falhavam nas conclusões. Não criavam oportunidades tão precisas, mesmo invadindo a área dos londrinos com frequência. Os Blues se salvaram algumas vezes na última bola, segurando o empate.

Sterling e Mahrez apareciam bastante, movimentando-se, com o “centroavante” caindo pelos lados com frequência. Na primeira chance clara do time, o inglês fez a jogada para a batida de Bernardo Silva, que não pegou em cheio na bola e facilitou a defesa de Kepa Arrizabalaga. Já o melhor momento aconteceu por volta dos 30 minutos, em sequência de lances de perigo. Sané chegou a ficar frente a frente com Kepa e foi abafado pelo goleiro, antes de Antonio Rüdiger cortar o chute de Sané no meio do caminho. César Azpilicueta também fez um desarme crucial, em batida do alemão. E um escanteio fechado dos visitantes cruzou a pequena área londrina sem que ninguém completasse.

Quando passava maiores apuros, o Chelsea começou a se encontrar nos contra-ataques. Willian deu o aviso em bola na qual saiu às costas da zaga, sem conseguir concluir da melhor maneira. E diante da abnegação dos Blues é que ocorreria o primeiro gol da equipe, a partir dos pés do jogador que melhor representa esse espírito: N’Golo Kanté. O contragolpe teve origem em lançamento de David Luiz a Pedro, até que a bola chegasse a Willian e a zaga neutralizasse parcialmente. Hazard estava apagado até então, mas recebeu na esquerda e desequilibrou. Encarou os dois marcadores, gingou e deu o passe rasteiro. Assistência macia para Kanté, que surgiu como um raio na entrada da área e soltou o pé, sem que Ederson reagisse a tempo. Linda combinação para balançar as redes. Pelo volume de jogo, os londrinos não mereciam a vantagem. Mas faziam valer a eficiência e saíam ao intervalo bem mais tranquilos.

A volta ao segundo tempo viu o Chelsea aceso no jogo, contra um Manchester City pressionado pela necessidade. Os Blues atacavam com velocidade e objetividade, aproveitando-se principalmente da presença de Kanté no apoio como elemento surpresa. As chances para o segundo gol continuavam a surgir. Em uma falta cobrada por Willian, Ederson fez grande defesa. Depois, Pedro e Willian seguiriam tentando, mas sem finalizar da melhor maneira. Dificuldades que levaram Guardiola a realizar sua primeira alteração, com a entrada de Gabriel Jesus no lugar de Leroy Sané, deslocando Sterling à ponta esquerda.

Aos poucos, o Manchester City retomou o controle da partida e voltou a jogar no campo de ataque. O Chelsea, por sua vez, era o time de outros tempos: aquele que se defendia com enorme afinco, esperando o momento certo para a estocada fatal. E os celestes não mostravam tanta qualidade assim para trabalhar a bola, cansados e parando no excelente trabalho defensivo dos anfitriões. Uma senhora partida dos Blues sem a bola, para segurar a vantagem. Quando Kepa precisou fazer uma defesa difícil, foi apenas em falta cobrada por Kyle Walker.

O Chelsea ainda dava as suas escapadas. E mataria o jogo aos 33 minutos. Hazard cobrou escanteio, para David Luiz fechar no primeiro pau e desviar de cabeça, tirando do alcance de Ederson. Redenção ao zagueiro após sua atuação desastrosa contra o Tottenham, também se destacando defensivamente neste sábado. A partir de então, o City estava morto. Guardiola, que já tinha mandado Ilkay Gündogan a campo, adicionou Phil Foden. Nada que adiantasse. A defesa londrina continuava se desdobrando para abafar os espaços. O melhor lance aconteceu nos acréscimos, a partir de uma saída errada de Kepa, mas o goleiro se redimiu buscando no cantinho o chute colocado de Jesus.

Vários jogadores do Chelsea merecem elogios pela atuação. Marcos Alonso e, sobretudo, Azpilicueta fizeram partidas excepcionais para trancar as laterais. Mesmo sendo um time que aciona bastante as pontas, o City pouco criou por ali, muito pelo esforço dos defensores. Pela direita, Azpilicueta chegou a realizar impressionantes 13 desarmes. Rüdiger e David Luiz também transmitiram segurança no miolo da zaga, sem brincar na hora de afastar o perigo. Mateo Kovacic trabalhou de maneira silenciosa sem a bola, ajudando a controlar o meio, enquanto Kanté fez a sua melhor partida na nova função, também por primar no apoio ao ataque. Já na frente, enquanto Willian e Pedro se esforçaram nas diferentes fases do jogo, Hazard nem apareceu muito, mas foi decisivo quando teve a chance, com duas assistências na noite.

O Manchester City vê sua sequência de sete vitórias na Premier League virar pó, assim como a invencibilidade que durava 15 rodadas. Melhor ao Liverpool, que vem embalado e toma a ponta. Os Citizens têm 41 pontos, um a menos que os Reds. Guardiola terá uma longa semana de trabalho, especialmente quando a definição se torna um claro problema. Já o Chelsea recobra o seu lugar no Top Four. Soma 34 pontos, superando o Arsenal no saldo de gols e ainda aguardando o resultado do Tottenham. Se os tropeços recentes pareciam botar em xeque os Blues, desta vez eles merecem recobrar os créditos. Arrancaram uma vitória que demonstra o caráter de qualquer equipe.