“Eu fui um Judas, então um herói, depois uma decepção, e então quase deixei o futebol. Tudo isso em apenas quatro anos.”

Mario Götze surgiu com grande expectativa no Borussia Dortmund aos 17 anos, correspondeu em seus anos pelo clube e marcou o gol do título da Alemanha na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, mas teve uma decisão difícil a tomar quando deixou os aurinegros em 2013 para ir ao Bayern de Munique. Depois de não dar certo nos bávaros, voltou a Dortmund, onde sua vida virou do avesso com um problema metabólico que fez a imprensa especular sua aposentadoria precoce.

Para um jogador de 26 anos, Götze passou por muita coisa, e isso torna seu relato ao Players’ Tribune bastante interessante. Se normalmente a narrativa da vida dos jogadores envolve a transição entre uma vida difícil na infância e adolescência e a redenção quando a carreira profissional começa, o alemão reconhece que, durante boa parte de sua vida, não passou por grandes dificuldades. Elas vieram só depois.

“Durante a maior parte da minha vida, não enfrentei grandes dificuldades. Tudo foi tranquilo, e eu pude viver meu sonho em uma idade muito jovem. Joguei em frente à Muralha Amarela aos 17 anos. Joguei com dois dos maiores treinadores do futebol. Marquei um gol na final da Copa do Mundo aos 22 anos. Para ser sincero, eu era tão jovem que não caiu a ficha do que estava vivendo. Não valorizei tanto quanto você possa imaginar. E depois fiquei doente. E tudo quase se foi.”

Nos dois anos seguintes ao Mundial no Brasil, Götze sofreu com problemas físicos. Ele conta que foi um período de muita dor, que não entendia o que estava acontecendo. Seu corpo se cansava de maneira extrema e “parecia que ia se quebrando”. Diagnosticado com um distúrbio metabólico raro aos 24 anos, teve que interromper durante quase sete meses sua carreira para tratar o problema. Ele não voltou a precisar se afastar dos gramados por causa dele.

A questão física, seja com o distúrbio no metabolismo ou com as repetidas lesões, marcaram sua carreira, mas não foram o único problema. Ainda muito cedo, Götze teve que lidar com diversas questões extracampo, e ele as detalha no texto do Players’ Tribune.

Dos 10 aos 20 anos, o atleta jogou pelo mesmo clube. Com o destaque nos aurinegros, veio o basicamente inevitável interesse do Bayern de Munique. Depois de recusar uma primeira proposta, Götze aceitou a transferência aos bávaros. Aos 20 anos, teve que lidar com uma pressão que, de fora, só podemos imaginar. Mas suas palavras ajudam a ilustrá-la.

Mario Götze, em sua época de Bayern de Munique (AP Photo/Matthias Schrader)

Götze deixou o Dortmund para jogar no Bayern de Munique em 2013 (Getty Images)

“Foi a decisão mais difícil da minha vida e levou muito tempo. O Bayern tinha me abordado no ano anterior, e eu decidi não ir. Mas quando Pep Guardiola foi anunciado como o novo treinador e fui abordado novamente, não sabia o que fazer.

É preciso entender como pensa um jovem de 20 anos. Você se lembra de quando tinha 20 anos? Você não entende como o mundo funciona. Pessoalmente, não tive a oportunidade de ir para a universidade. Eu nunca tinha vivido sozinho. Por isso, senti que precisava de uma mudança de vida e, em termos puramente futebolísticos, senti que jogar sob o comando do Pep me desafiaria a evoluir como jogador.

Tomei a decisão de ir embora e não entendia as consequências.

Algumas semanas depois, a polícia ficou à porta da casa dos meus pais para os proteger.

Não sei quem vazou. Certamente não fui eu. Essa era a última coisa que eu queria. Mas, obviamente, o timing foi terrível. Dois dias antes de jogarmos contra o Real Madrid na semifinal da Champions League, soube-se que eu estava de saída no verão.

Agora eu entendo a reação. Eu entendo. Para muita gente, o futebol é mais do que um jogo.

Mas, àquela altura, foi chocante. As vaias e as faixas dos nossos próprios torcedores… Eu conseguia lidar com isso, pessoalmente. Mas o meu irmão mais novo tinha 14 anos na época e estava sendo confrontado na escola. As pessoas diziam coisas à minha mãe. Houve ameaças feitas à minha família na internet. Isso foi realmente inacreditável de se viver, especialmente porque essa era a nossa casa. Eu tive que me mudar no verão, mas minha família teve que permanecer e morar em Dortmund, então foi realmente pior para eles. Foi o momento mais difícil das nossas vidas, mas é difícil dizer que me arrependo.”

Quando pensam em Götze e Copa do Mundo, o que vem à mente dos torcedores e fãs de futebol é o gol salvador na prorrogação da final contra a Argentina, no Maracanã, que deu à Nationalmannschaft seu quarto título mundial. Mas a memória de Götze daquele torneio é muito menos prazerosa.

“As pessoas falam daquela Copa do Mundo e do meu gol na final, e acho que elas se esquecem do quão merda aquele torneio foi para mim até o final.”

Götze lembra que, depois da fase de grupos, foi substituído no intervalo do confronto com a Argélia nas oitavas, reserva contra a França nas quartas e que sequer esteve em campo no histórico 7 a 1 contra o Brasil no Mineirão. “Mas eu não esqueço. (…) Não houve pontos positivos que eu pudesse encontrar. Antes da final, eu estava bastante deprimido.”

“Para mim, o gol é a parte menos importante de tudo. Chutar aquela bola… Já fiz isso mil vezes. O gol é apenas a consequência de uma decisão que tomei no meu quarto de hotel de deixar de ficar deprimido com como as coisas estavam indo e focar em treinar o mais duro possível antes da final”, revela o alemão. Segundo ele, o gol foi um sonho, mas o que lhe trouxe mais alegria foi como ele lidou com os dias antes da partida com a Argentina.

“Eu estava no ponto mais baixo da minha carreira e, três dias depois, de repente, sou o herói e somos campeões mundiais. O processo de passar por essa adversidade é o que me inspira, principalmente depois de tudo o que vivi desde aquele momento.”

Götze afirma que não estava pronto para as expectativas. Se você se lembra da cobertura daquele Mundial em mais detalhes, deve se recordar de que, em certo momento, houve toda uma discussão sobre ele ser melhor que Messi. Não a sério, é claro, mas como repercussão das palavras de seu treinador, Joachim Löw, que dissera isso a ele para “mostrar ao mundo que você é melhor que o Messi” quando o colocou em campo na final no Maracanã.

Götze fez o gol do título da Alemanha na Copa do Mundo de 2014, no Brasil (Getty Images)

“Já existia tanta pressão no Bayern. A comparação provavelmente não foi a melhor coisa para mim, aos 22 anos. O que as pessoas esperavam de mim estava fora de escala, e não foi fácil para mim, mentalmente. Somos seres humanos, lembre-se disso. Sei que isso é fácil de esquecer, mas eu tive um lembrete muito duro disso depois da Copa do Mundo (com os problemas físicos).”

Götze passou por tudo que passou, da estreia aos 17 anos no Dortmund, ao gol do título da Copa do Mundo aos 22, sem ter tempo de processar tudo. E ele revela que, embora ninguém queira enfrentar um problema de saúde, os meses em que teve que ficar afastado do futebol em 2017 lhe permitiram ter uma nova perspectiva de tudo e entender o que se passara até ali.

“Mesmo vencer a Copa do Mundo… Vai soar estranho, mas eu quase não processei. Entramos de férias por três semanas, e então eu voltei para o Bayern, e era como se nada tivesse acontecido. Foram mais expectativas, mais títulos, mais gols. No Bayern, era implacável.”

Por fim, Götze está feliz com onde se encontra em sua carreira. Ele ainda tem dificuldades de entender o ódio que recebeu dos torcedores ao sair para o Bayern. “Não acho que devamos odiar um ao outro por causa das cores, especialmente quando alguns de nós trouxeram a Copa do Mundo para o nosso país juntos. Isso é um laço que irá durar para sempre.” Porém, consegue enxergar mais o lado da torcida, com a perspectiva mudada de alguém que já viveu bastante o futebol. Ainda assim, ele aponta que “muitas das mesmas pessoas que ficaram bravas quando eu saí de casa me deram as boas-vindas de volta, e valorizo muito isso.”

De fato, o mundo deu suas voltas, Götze voltou para seu lar e, embora talvez nunca alcance o status de craque que esperavam dele, ainda tem o que contribuir para o sucesso do clube. Ele diz que a decisão de voltar ao Dortmund foi a melhor que tomou no momento em que estava de saída de Munique.

“Quando saí aos 20 anos, não tinha nenhuma perspectiva da vida. Pode parecer ridículo, mas eu olhava para o futebol como um jogo infantil. Você corre por aí com uma bola na grama. Era apenas um esporte para mim. É isso. Mas então você passa por vários altos e baixos e vê o que isso significa para as pessoas — vê o ódio, o amor, a pressão, tudo — e ganha alguma perspectiva.”

Em seu texto — que vale muito a pena conferir, aqui (em inglês) —, Götze ainda fala de sua relação com Jürgen Klopp, a autenticidade do treinador e seu lado mais durão, e descreve também uma imagem bem completa do técnico alemão, a quem agradece pela chance dada no time principal dos aurinegros em 2009.

Dez anos depois, com tanto vivido, o jogador não sabe até onde mais sua jornada irá levá-lo, mas uma coisa garante: “Esse clube (Dortmund) é uma parte muito especial da minha vida, e estou muito feliz de estar curtindo meu futebol novamente”.