O título uruguaio de 1984 levantado pelo modesto Central Español é um daqueles contos de fadas do futebol. O pequeno clube de bairro se colocou como desafiante à hegemonia dos gigantes Peñarol e Nacional na briga pelo caneco do jeito mais improvável possível: vindo diretamente da segunda divisão. E levou a melhor, contando com uma base quase inteiramente formada pela mescla de atletas revelados no clube com reforços baratos e desconhecidos pescados em times pequenos e de divisões inferiores. Um legítimo azarão eterno.

A HISTÓRIA DO CLUBE

Fundado em 1905 como Central Fútbol Club no bairro de Palermo, em Montevidéu (onde até hoje se encontra), o clube tirou suas cores – vermelho, azul e branco – de uma espécie de bloco de Carnaval do bairro, o “Esclavos del Nyanza”. Seu primeiro título veio em 1944 no Torneo Competencia, uma competição preparatória para o Campeonato Uruguaio. Na ocasião, o Central se tornou o primeiro clube dos chamados pequenos a vencer o torneio.

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No ano seguinte, despontaria um dos jogadores mais famosos de sua história, o lateral Victor Rodríguez Andrade – sobrinho de José Leandro Andrade, um dos primeiros astros negros do futebol mundial, e integrante da histórica seleção uruguaia dos anos 1920 e 1930. Victor, por sua vez, seria o único jogador do Central titular da Celeste na Copa do Mundo de 1950, no Brasil, da qual se sagraria campeão, dois anos antes de ser vendido ao Peñarol.

Em 1970, o clube iniciou contatos para uma parceria com o Instituto de Migrações da Espanha, o que levaria, no ano seguinte, à mudança do nome da agremiação para o atual Central Español Fútbol Club. Rebaixado dois anos depois, o clube passaria exatamente uma década na segunda divisão. Em 1983, com uma vitória sobre o Liverpool na última rodada, o Central superava o Racing em um ponto (32 a 31) e garantia seu retorno à elite uruguaia.

O time que subiu da Divisão B, porém, logo teve uma baixa importante: a saída do técnico Roberto Fleitas, 50 anos, que dali a alguns anos levaria a seleção uruguaia ao título da Copa América e também o Nacional aos títulos da Libertadores e do Mundial Interclubes. O posto foi assumido por Líber Arispe, 38 anos, vice da segundona comandando o Rentistas, ex-zagueiro campeão com o Defensor em 1976 e com passagens pelo Nacional, Cerro e Independiente.

Mesmo com a experiência de Arispe em ter participado daquele título histórico dos Violetas (o último caneco a não ser conquistado por Peñarol ou Nacional) a expectativa até mesmo dentro do Central Español era a de brigar contra o descenso. Arispe, que havia iniciado a carreira de treinador há apenas dois anos, subindo com o Colón para a elite, apresentou uma lista de reforços modesta, baseada em nomes observados na segunda divisão.

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Assim, o time montado por Arispe mesclava jogadores com muito tempo de clube, como o goleiro Héctor Tuja; pratas da casa como o zagueiro Obdulio Trasante; atletas recém-promovidos dos juvenis, como o lateral-direito César Pereira; jogadores pescados da segundona como o zagueiro Carlos Barcos; e apenas dois trazidos de clubes da elite: o volante Abel Tolosa, vindo do Defensor, e o centroavante José Ignacio Villarreal, descartado pelo Peñarol.

O CAMINHO ATÉ A TAÇA

O início da campanha fazia crer que, se a equipe não parecia brigar pelas primeiras posições, pelo menos teria vida tranquila na luta contra o descenso. O Central estreou perdendo para o Bella Vista por 2 a 1, mas bateu logo em seguida o Miramar Misiones por 1 a 0. Nos seis jogos seguintes, acumulou quatro empates (um deles contra o Peñarol), além de golear o Progreso por 4 a 0 e perder para o Nacional por 2 a 1. Resultados normais.

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Como o campeonato era disputado por 13 clubes, a cada rodada uma equipe folgaria. O descanso do Central veio na nona rodada, que antecedeu mais um empate (o quinto em uma dezena de jogos): 0 a 0 diante do Defensor. Nem os torcedores mais otimistas, porém, imaginariam que dali em diante o time não mais perderia até o fim da competição. E na 11ª rodada, iniciaria uma série expressiva de vitórias, que o catapultariam às primeiras posições.

Os palermitanos derrotaram o Sud América (1 a 0), o Wanderers (1 a 0), o Huracán Buceo (3 a 0), o Bella Vista (2 a 0) e o Miramar Misiones (3 a 1), já adentrando o returno da competição. Um novo empate em 1 a 1 com o Danúbio – mesmo placar do primeiro turno – encerrou a série de triunfos e foi seguido por dois jogos com placar em branco: 0 a 0 diante do Rampla Juniors e do Progresso. Mas uma bela vitória de 3 a 0 sobre o Cerro retomou a confiança.

Até que chegava a hora de enfrentar de novo em sequência Peñarol e Nacional. Seriam dois grandes testes para as pretensões de título dos palermitanos – e eles se mostraram à altura da empreitada: bateram os carboneros por 1 a 0 e arrancaram um empate em 1 a 1 diante dos tricolores. Se na primeira parada o clube havia somado apenas oito pontos em 16 possíveis, agora havia amealhado 19 em 24. Soma que o credenciava a sonhar.

Após a rodada de folga no returno restavam apenas quatro partidas por disputar. E logo de cara, o Central confirmou que estava mesmo na briga pelo título ao golear o Defensor por 4 a 1. No jogo seguinte contra o Sud América, porém, a defesa sofreu como não havia acontecido antes no campeonato, mas mesmo assim a equipe conseguiu vencer por um épico 5 a 4. E na penúltima rodada, um gol de falta de César Pereira deu a vitória por 1 a 0 sobre o Wanderers.

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Antes da última rodada, o Central dividia a liderança com o Peñarol, único time que ainda poderia tirar dele o título. Ambos somavam 33 pontos, mas os carboneros levavam vantagem no saldo (24 contra 21) e tinham o melhor ataque do certame, com 47 gols em 23 jogos. Os palermitanos, por sua vez, tinham como ponto alto a solidez defensiva: eram de longe os menos vazados, tendo levado apenas 16 gols nas mesmas 23 partidas.

O domingo, 30 de setembro de 1984, era o dia da decisão. O Central Español enfrentaria o Huracán Buceo no estádio Parque Central (casa do Nacional), enquanto o Peñarol teria de encarar o Montevideo Wanderers. O desfalque dos palermitanos para o jogo decisivo era o meia Miguel Berriel, um dos mais experientes do time, com passagem pelo futebol grego e colombiano. Miguel Del Río entraria em seu lugar, completando a escalação base.

O TIME CAMPEÃO

Ponto forte da equipe, a defesa começava com o goleiro Héctor Tuja, revelado pelo próprio Central e que integrava o elenco desde 1975. O lateral-direito era César Pereira, ótimo apoiador e cobrador de faltas, recém-promovido da base e que mais tarde teria rápida passagem pelo Palmeiras no Paulistão de 1988. Já pelo outro lado, o dono da lateral-esquerda era Fernando Operti. O miolo de zaga, por sua vez, mesclava juventude e experiência.

O prata-da-casa Obdulio Trasante, 24 anos, era um dos principais nomes da equipe. Negociado mais tarde com o Peñarol, conquistaria a Libertadores com os carboneros e a Copa América com a Celeste em 1987 e seria outro que atuaria no futebol brasileiro, defendendo o Grêmio no Brasileirão de 1988. Ao seu lado, jogava o rodado Carlos Barcos, que acumulava passagens por diversos clubes menores do país e até pelo futebol venezuelano.

No meio-campo, o destaque era o armador Abel Tolosa, um dos jogadores de currículo mais pesado do elenco. Trazido do Defensor, pelo qual já havia disputado duas edições da Taça Libertadores da América, era o responsável por organizar o setor, auxiliado pelo já citado Miguel “Chino” Del Río, ex-Rampla Juniors, e por Oscar Falero, meia vindo do pequeno Fénix, revelado pelo Danubio e que mais tarde seria vendido ao Racing argentino.

O trio de ataque contava com os ponteiros Uruguay Gussoni, pela direita, e Daniel Viera (trazido do pequeno Oriental, de La Paz, da segunda divisão) pela esquerda, além do centroavante José Ignacio Villarreal, de quem falaremos mais adiante. Era com esse onze titular que o Central Español enfrentaria o Huracán Buceo buscando a conquista do título histórico, o primeiro do país para um time vindo diretamente da segunda divisão.

O JOGO DO TÍTULO

Com o ouvido colado no radinho, os pouco mais de 6 mil torcedores do Central presentes ao jogo decisivo souberam do incrível tropeço do Peñarol, parando num 0 a 0 graças ao goleiro dos Wanderers, Eduardo Pereira, que no ano seguinte seria contratado pelos próprios aurinegros e com eles venceria a Libertadores de 1987. Assim, bastava uma vitória simples ao Central para a conquista do título milagroso. Mas ela não viria com facilidade.

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O Central abriu o placar aos 36 minutos quando Villarreal venceu o goleiro Jorge da Silva em cobrança de pênalti, e levou a vantagem para o intervalo. Mas a 14 minutos do fim, o Huracán Buceo chegou ao empate com Julio Etcheverry. O gol da igualdade caiu como um balde de água fria na torcida palermitana: o time deixaria escapar a taça pelas mãos no último jogo, e mesmo com o tropeço do Peñarol? Eis que o herói voltou à carga.

José Ignacio Villarreal havia se destacado pelo Huracán Buceo no campeonato de 1982 e logo atraiu o interesse do Peñarol, que de início relutou em pagar o que o pequeno clube pedia por seu passe, mas, por exigência do técnico Hugo Bagnulo, topou em abrir os cofres. Seu período entre os carboneros, no entanto, não foi dos mais felizes. A começar pelo fato de os aurinegros contarem com o lendário Fernando Morena como dono absoluto da camisa 9.

Relegado a disputar uma vaga no time como ponteiro, o centroavante se viu humilhado quando o clube contratou outro camisa 9, o brasileiro Rubão, e pediu para voltar ao Huracán Buceo. O presidente do Peñarol, Washington Cataldi, recusou terminantemente o pedido e disse que preferia encaminhar o atacante ao Central Español. “Espero que ainda lembre de mim”, afirmou o atacante, antes de seguir para o clube de Palermo.

Aos 38 minutos do segundo tempo naquela tarde de 30 de setembro de 1984 no Parque Central, o jogo seguia empatado em 1 a 1 e com ambos os times jogando com dez: o lateral César Pereira, do Central Español, e o atacante Pierino Lattuada, do Huracán Buceo, haviam sido expulsos um minuto antes do tento de empate. Até que uma bola é alçada para a área dos tricoplayeros. E Villarreal lança seu corpo no ar para tentar alcançá-la antes do goleiro.

“El Mosquito” Villarreal levantou a perna quase na altura da cabeça de Jorge da Silva. E, num voleio improvável, emendou um petardo que estufou as redes do Huracán Buceo. Era o 18º gol do atacante, artilheiro isolado do campeonato. Era o gol da vitória. O gol que tirava a taça do gigante Peñarol e a encaminhava para o bairro de Palermo, para o humilde Central Español. O gol que sacramentava um feito histórico e inédito.

Nos 24 jogos da campanha, o Central somou 13 vitórias, nove empates e apenas duas derrotas. Seu ataque, autor de 39 gols, foi apenas o terceiro mais positivo, ainda atrás dos dois gigantes do país, mas a defesa seguiu como a menos vazada, mesmo com o tento sofrido na partida do título. Acima dos números, no entanto, pairava um feito maior: até hoje, a façanha de se sagrar campeão nacional vindo diretamente da segunda divisão nunca foi repetida no país.

O ANTICLÍMAX

Por mais heroico que fosse, o título uruguaio não valeu, no entanto, a vaga na Taça Libertadores da América de 1985. É que naqueles tempos havia a chamada “liguilla”, torneio à parte do campeonato nacional – e disputado na sequência deste – que apontava os dois representantes do país na competição continental. Naquele ano, a liguilla foi disputada pelos cinco primeiros do campeonato mais o Defensor. E o Central Español terminou apenas em quarto lugar.

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Mas ainda houve tempo para mais uma lição sobre a glória do jogo. Na última rodada, o clube enfrentaria o Peñarol. Em caso de vitória dos carboneros, estes confirmariam a vaga direta na Libertadores e, dentro do confuso regulamento, deixariam o Central com mais chances. Ou seja, para os palermitanos, perder aquele jogo seria mais interessante. A hipótese, no entanto, sequer passava pela cabeça do técnico Líber Arispe.

“O futebol é um esporte que se joga para ganhar. Alguma vez entraram em campo para perder? Como nos sagramos campeões? Vamos sair para ganhar como sempre, porque será melhor ganhar [o jogo] e perder uma classificação do que se classificar e perder a dignidade do futebol que tanto queremos”, discursou o treinador aos seus comandados na preleção antes da partida no velho e lendário Estádio Centenário.

E o Central buscou a vitória. Abriu o placar ainda no primeiro tempo em cabeçada do meia Miguel Berriel (que faleceria precocemente vitimado por uma infecção hospitalar em 1987). E só no fim, já cansado, cedeu o empate aos aurinegros, que marcaram com Daniel Rodríguez. O empate levou a decisão da “liguilla” a um jogo extra entre Peñarol e Bella Vista, o qual terminou 2 a 2, com os carboneros vencendo nos pênaltis por 5 a 3.

A segunda vaga seria decidida em outro playoff entre o Central e o Bella Vista, a ser disputado já em 3 de janeiro de 1985, no campo neutro do estádio Luis Franzini, casa do Defensor. Os papales venceram por 1 a 0 com gol de Yubert Lemos e alijaram o Central Español, campeão uruguaio de 1984, da Taça Libertadores da América. Os palermitanos nunca disputariam o principal torneio continental em sua história. Em 1992, seriam rebaixados.

Nos anos 90, o Central foi usado pelo empresário uruguaio Juan Figer (que atuava no Brasil e em diversos países da América Latina) para registrar os jogadores dos quais era dono do passe. Mais tarde, viveu como um clube ioiô, detendo o recorde de acessos e descensos no campeonato do país. Chegou a disputar uma vez a Copa Sul-Americana, em 2006, porém sem avançar para a fase internacional. E conviveu com sérios problemas financeiros.

No fim do ano passado, um grupo de ex-jogadores do clube – incluindo muitos dos campeões de 1984 – se uniram para lançar uma chapa e concorrer à presidência do Central, com o objetivo de recuperar financeira e esportivamente a agremiação, atualmente na segunda divisão uruguaia. O pleito ocorreu em outubro, e o grupo saiu vencedor. José Ignacio Villarreal, autor do gol do único título uruguaio do Central Español, é agora o seu presidente.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.