Nem sempre o nome de Sergio Livingstone é lembrado entre os maiores goleiros sul-americanos da história – um grande e comum erro. A carreira restrita aos anos 1940 e 1950 afasta o ‘Sapito’ de muitas listas, quando, na época, ele se firmou como uma estrela continental. Um dos primeiros ídolos do futebol chileno, o arqueiro só pôde disputar uma Copa do Mundo, mas construiu sua fama graças às frequentes participações nos Campeonatos Sul-Americanos. Assim, Livingstone virou uma referência e até mesmo elevou o nível competitivo da Roja. Nesta semana, em que o veterano completaria 100 anos se ainda estivesse vivo, recebeu diversas homenagens em seu país. Até mesmo o Ministério do Esporte chileno prestou seu tributo e prometeu outras ações quando as ordens de isolamento pelo coronavírus se encerrarem.

Serjio (com “J” mesmo) Robert Livingstone Pohlhammer nasceu em 26 de março de 1920, em Santiago. De origem escocesa, sua família migrou para o Chile no final do Século XIX. E o futebol fez parte da história do goleiro antes mesmo que ele viesse ao mundo. Pai de Sergio, John Henry Livingstone foi um dos pioneiros da modalidade entre os chilenos, a partir da comunidade britânica que se estabeleceu para trabalhar em companhias ferroviárias e elétricas. Atuou como ponta esquerda no importante Santiago Nacional, apitou partidas internacionais, organizou competições, trabalhou como jornalista em diferentes veículos. Também se dedicava ao boxe e à equitação.

Assim, a paixão pelo jogo se tornou uma herança natural ao Sapito, por mais que ele não tivesse uma boa relação com o progenitor. Seus pais se separaram ainda na infância do goleiro e ele seria criado pela mãe, com visitas esporádicas de John Henry. Aos dez anos, a mãe faleceu. A criação de Sergio Livingstone ocorreria em um colégio interno, o que aumentou o distanciamento de John Henry. Ao menos, o pátio da escola religiosa permitiu ao garoto moldar suas habilidades, praticando o futebol, além de atletismo e basquete.

O futebol chileno floresceu naquela década de 1920. Colo-Colo e Universidad de Chile iniciaram suas atividades no período. Quando tinha oito anos, Sergio passou a bater sua bola no Colegio San Ignacio. Diferentemente de outras crianças, que preferem marcar gols, Livingstone logo descobriu sua aptidão para atuar sob as traves. “Creio que é algo de personalidade, de individualidade, porque eu era um goleiro muito ágil, saltava e dobrava as pernas”, recordou, em entrevista ao site The Clinic, concedida em 2009.

Ainda como estudante, Livingstone passou a fazer fama e a aparecer em artigos de jornal por seu talento. Outros garotos do colégio queriam ser como ele e se aprimoravam na posição. Mesmo assim, o prodígio considerava outro rumo à sua vida: o sacerdócio. Ele se inspirava em Alberto Hurtado, padre e professor de teologia no Colégio San Ignacio – e que, em 2005, seria canonizado pelo Papa Bento XVI. O futuro santo é que aconselhou o Sapito a pensar um pouco mais em seu dom antes de ingressar no seminário.

Livingstone confirmou sua vocação para ser goleiro aos 16 anos. Uma partida contra o Instituto Inglés mudou sua trajetória e permitiu sua profissionalização logo cedo. O técnico da equipe adversária também comandava a Unión Española e o garoto seria convidado a jogar no clube, como terceiro arqueiro no elenco. Os treinamentos seriam importantes para aumentar o gosto de Sergio pelo esporte e a desistir do sacerdócio. Todavia, o adolescente nunca entrou em campo pelos Hispanos, um clube praticamente restrito à comunidade espanhola, que sofria certa perseguição por causa da Guerra Civil Espanhola.

Aos 18 anos, Livingstone iniciou o curso de Direito na Universidad Católica. Feliz coincidência, o clube da referida instituição havia sido fundado meses antes. Assim, o goleiro deixaria a Unión Española para se juntar aos Cruzados. Para que a transferência se concretizasse, a Católica cedeu seu ginásio aos treinamentos dos Hispanos duas vezes por semana, ao longo de um ano. A estreia do novo arqueiro aconteceu em outubro de 1938, num clássico contra a U de Chile, em que os Cruzados venceram por 3 a 2. Sapito recebeu elogios por sua grande atuação.

Neste momento, a Universidad Católica ainda disputava a segunda divisão e possuía um estatuto amador. O clube se tornou profissional a partir de 1939, convidado para integrar a primeira divisão nacional. Após largar o curso de Direito no segundo ano, Sergio Livingstone estaria presente na primeira partida desta nova era. A equipe encerrou o Campeonato Chileno numa honrosa quarta colocação e o camisa 1 passou a ser considerado um dos melhores do país. “O atlético e juvenil goleiro se constituiu em um dos jogadores mais espetaculares da liga. Suas intervenções alcançaram, às vezes, contornos verdadeiramente excepcionais”, escreveu o jornal El Mercúrio.

O apelido de ‘Sapito’ também surgiria nestes primeiros anos na meta da Católica. A ideia veio do chefe da torcida cruzada. O elenco já tinha o ‘Polvo’ Simián à sua disposição e, por seus saltos com as pernas flexionadas, Livingstone virou o ‘Sapo’. “Achei horrível e, no começo, não gostei. Disse que ele estava louco, porque os outros goleiros eram apelidados de forma poética e todos saíam beneficiados, menos eu. Havia o ‘Muralha’, o ‘Maravilha Elástica’, o ‘Garras de Águia’ e a mim deram o nome de Sapo. Até hoje, chamam meus filhos e netos assim. Pegou, o que vou fazer…”, contaria o veterano, ao The Clinic.

Cabe ressaltar que Livingstone tinha um estilo peculiar de atuar sob os paus. O chileno se valia bastante de seu impulso, bem como de seu senso de colocação. Gostava de se antecipar aos lances e lia bem as jogadas. Entretanto, nem sempre exibia a melhor forma física, com uma tendência a engordar principalmente na reta final da carreira. Além do mais, como outros tantos arqueiros sul-americanos célebres, tinha sua dose de loucura. Saía com apenas uma das mãos e não se posicionava no centro da meta durante os pênaltis. Já sua marca registrada ocorria quando rodava a bola por trás do corpo antes de sair jogando. Costumava tomar poucos gols para a época e acumulava milagres, sobretudo nos grandes jogos, nos quais crescia.

A ascensão de Livingstone rumo à seleção chilena não tardaria. A Roja era figurante no Campeonato Sul-Americano. Levou sete edições para conquistar suas primeiras vitórias no torneio e, em dez aparições, tinha sido lanterna em sete. O fato de ter uma equipe nacional estabelecida antes de outros países mais ao norte levou os chilenos a serem vítimas constantes de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Os bons resultados eram raros e os triunfos se tornaram um pouco mais frequentes apenas diante do surgimento de outras seleções.

A preparação do Chile ao Campeonato Sul-Americano de 1941 seria fundamental, já que a competição aconteceria no próprio país. E, desde o ano anterior, Livingstone assumiu a titularidade da Roja. O goleiro seria um dos pilares na marcante campanha. Os chilenos venceram Equador e Peru nos dois primeiros compromissos, sem que tomassem um gol sequer. Cairiam na terceira rodada, ante o Uruguai, com um magro 2 a 0 no placar. O Chile chegou à última rodada com chances de título, algo normalmente impensável. No entanto, não resistiria ao poderio da favorita Argentina. Aos 26 do segundo tempo, Enrique García garantiu o triunfo por 1 a 0 e o título albiceleste.

A defesa chilena formada por Luis Vidal e Humberto Roa seria elogiadíssima por suas atuações no Sul-Americano, assim como o artilheiro Raúl Toro. Mesmo assim, ninguém havia impressionado mais as multidões que frequentaram o Estádio Nacional do que o Sapito Livingstone. O arqueiro arrancou aplausos em todas as partidas, garantiu vitórias e evitou placares mais elásticos aos adversários. Prestes a completar 21 anos, alçava-se ao posto de herói da nação. E não só isso: mesmo com a terceira posição da Roja ao final do Sul-Americano, também seria eleito o melhor jogador do torneio.

A participação do Chile no Sul-Americano de 1942 seria bem mais tumultuada. Livingstone se atrasou a um encontro com dirigentes e seria excluído antes do início do torneio no Uruguai, até ser chamado às pressas a Montevidéu. De novo, resistiu e evitou placares piores aos chilenos. Em compensação, o time perdeu sua cabeça no encontro com a Argentina. O placar permaneceu zerado ao longo do primeiro tempo, até que a Roja se retirasse de campo, reclamando de dois pênaltis a seu favor negligenciados pelo árbitro. Ao final, com a derrota à Albiceleste nos tribunais, os chilenos acabaram na penúltima posição. Ao menos, a colocação ruim não atrapalhou a fama de Sapito, que até capa da revista El Gráfico ilustrou no país vizinho.

A Universidad Católica costumava fazer campanhas medianas, ainda se desenvolvendo como clube profissional. Contratar Livingstone parecia uma bela oportunidade, sobretudo aos endinheirados times da Argentina. Boca Juniors e Banfield cortejaram o goleiro logo após o Sul-Americano, mas, apaixonado por uma moça em Santiago, preferiu seguir na cidade. Após o término, em março de 1943, o arqueiro aceitou uma proposta do Racing. Era o negócio mais caro da temporada argentina, que chamava ainda mais atenção por envolver um futebolista chileno, raros no país vizinho. “Tinha 23 anos, estava começando a viver. Os craques argentinos eram meus autênticos ídolos. Durante a noite eu me encontrava com eles, desfrutando de sua mesma categoria”, relembraria.

Embora não tenha começado bem, Livingstone conquistou o respeito em Avellaneda com o tempo. O goleiro acumulou boas atuações pelo Racing e, mesmo com 23 anos recém-completados, recebeu a braçadeira de capitão temporariamente. García, o carrasco de 1941 que virara companheiro, colocava o Sapo como o melhor de sua posição no futebol argentino. A participação dos racinguistas no campeonato daquele ano seria insossa, com a sexta colocação. Apesar disso, o chileno seria eleito o segundo melhor arqueiro daquela edição da liga. Já podia ser chamado de ídolo da torcida.

Pois, ao mesmo tempo, o fanatismo por Livingstone no Chile cresceu ainda mais. As notícias sobre as exibições do goleiro no Racing eram de grande interesse no país. Quando a Academia visitou Santiago para uma série de amistosos em 1943, o camisa 1 seria carregado nos braços pela população ao desembarcar em sua cidade. Antes dos amistosos, o Sapito dava uma volta olímpica para agradecer o apoio e ouvia uma ovação das arquibancadas a cada intervenção. Aquelas mostras enormes de carinho amoleceram o coração do craque.

Paralelamente a isso, Livingstone também tentava resolver a vida amorosa. Antes de se mudar a Avellaneda, o goleiro conheceu uma moça em Santiago, mas só começou a se relacionar com ela durante a turnê do Racing. A nova paixão somava-se à saudade de sua terra e o camisa 1 sequer pegou o trem de volta à Argentina. Apesar da insatisfação dos dirigentes racinguistas, a Universidad Católica pôde recomprar seu antigo ídolo. “Depois me casei com ela e seria a mãe dos meus filhos, mas com o tempo me separei. Você pensa que é a única mulher no mundo e desgraçadamente não é assim. Deixei o Racing com um contrato pendente e vim. Foi algo absolutamente estúpido”, avaliaria, anos depois, sem negar certo arrependimento. O Campeonato Argentino, além de render mais dinheiro, reunia parte da nata do futebol mundial.

Pelo menos na época, a falta de ambição da Universidad Católica no Campeonato Chileno não era problema a Livingstone, que seguia com uma enorme reputação e não perdeu seu posto na seleção – pelo contrário, virou até capitão. Por conta da Segunda Guerra Mundial, a equipe voltaria a campo apenas no Campeonato Sul-Americano de 1945. Comemorando os 50 anos de sua federação, o Chile ganhou outra vez o direito de sediar o certame. Livingstone seria, de novo, uma figura primordial.

Com 25 anos, o Sapito havia sido escolhido pela revista Estádio como um dos melhores jogadores chilenos da história, tamanho era seu moral. “Livingstone é popular e querido como talvez nenhum outro futebolista chileno tenha sido. Soube cimentar sua fama com uma capacidade cem vezes demonstrada em jogos nacionais e internacionais. O fervor e o carinho com o qual o público sempre o distinguiu são propriedades que só pode exibir os que verdadeiramente merecem ostentar o título de craque”, escreveu a publicação.

O Chile começou com uma campanha arrasadora no Sul-Americano de 1945, ao derrotar nas três primeiras rodadas Equador, Bolívia e Colômbia. O sarrafo aumentou na metade final do torneio, mas a Roja comprovou seu alto nível. A Argentina contava com uma equipe fortíssima e, mesmo assim, quase sucumbiu aos chilenos. Os anfitriões abriram o placar e o Sapito adiou enquanto pôde o empate, arrancado somente no fim por Norberto Méndez. Foi a primeira vez que o Chile não perdeu aos vizinhos em sua história. O resultado era tão expressivo que houve até invasão de campo da torcida ao apito final. Ao lado de seus companheiros, Livingstone saiu carregado nos braços pela galera.

Com o resultado, o Chile tinha chances reais de ficar com o troféu inédito. E reforçou as esperanças no compromisso seguinte, ao bater o Uruguai por 1 a 0, em nova partida inspirada de Livingstone. Durante a última rodada, uma vitória da Roja contra o Brasil forçaria o jogo extra diante da Albiceleste. Todavia, Heleno de Freitas marcou o gol solitário no Estádio Nacional e, indiretamente, deu mais um título à Argentina. Ao final da competição, mesmo na terceira posição, os jogadores chilenos receberam mais doses de idolatria do público. O Sapo era o protagonista. Segundo suas próprias palavras, aquele foi o ápice de sua carreira: “Pela ressonância que alcançou o Sul-Americano, com aquelas bravíssimas partidas contra Argentina, Uruguai e Brasil, ganhei a valorização e o carinho das pessoas”.

Livingstone não jogou o Sul-Americano de 1946, ao machucar o joelho às vésperas do torneio, e o Chile terminou na penúltima colocação. Seu retorno à competição aconteceu em 1947, no Equador. A Roja conquistou quatro vitórias e um empate em sete compromissos, na quarta posição. Ainda assim, a Argentina outra vez sofreria nas mãos do Sapo. O empate por 1 a 1 ocorreu justamente no clássico contra a Albiceleste, em que Alfredo Di Stéfano abriu o placar. Com um elenco baseado em La Máquina do River Plate e a adição de craques dos demais clubes locais, os argentinos celebraram o tricampeonato continental. De 1945 a 1947, os únicos tropeços do esquadrão treinado por Guillermo Stábile ocorreram contra o Chile de Livingstone.

A espera da Universidad Católica por seu primeiro título nacional se encerrou em 1949. Os Cruzados forneciam parte da base da seleção chilena, mas não conseguiam grandes resultados. Ao longo dos anos 1940, nunca superaram a quinta posição na liga. Os milagres de Livingstone não eram suficientes para que a UC se aproximasse da taça. Para alcançar o topo, além de contar com a qualidade de seu goleiro, a Católica também trouxe um reforço de peso ao ataque: José Manuel Moreno, um dos melhores do mundo na década e tratado como o mais talentoso craque de La Máquina do River Plate. Aos 33 anos, o atacante jogou muito e fez seus companheiros jogarem bem. Os campeões conquistaram 16 vitórias em 22 rodadas, sobretudo pelo excelente segundo turno.

“Moreno é o melhor jogador que vi, me abstraindo dos chilenos. Tinha tudo que um craque deve ter, além de seu talento natural e da alegria transbordante em jogar. Um anjo. Era suficiente que ele aparecesse em campo para que a multidão pressentisse coisas que só Moreno foi capaz de fazer”, elogiava Livingstone, sobre o craque que deixou a Católica ao final do campeonato, mas retornou a mais uma passagem em 1951.

Meses depois do título de 1949, a Universidad Católica fez uma bem-sucedida turnê pela Europa, em que atuou em países como a Espanha, a Itália e a Alemanha Ocidental. Também nesta época, Livingstone elevou seu nome no Brasil. No início de 1949, o goleiro já tinha participado de mais uma edição do Campeonato Sul-Americano. O Chile fez uma campanha morna, mas o Sapo impressionou sobretudo no duelo com os anfitriões. Os brasileiros contavam com vários craques que disputariam a Copa de 1950. Os chilenos, mesmo com um a menos durante boa parte do confronto, evitaram uma goleada no Pacaembu e saíram satisfeitos com o 2 a 1 ao time de Flávio Costa. Livingstone, outra vez, respondia pela salvação da Roja.

Já em 1950, o Chile se classificou ao Mundial, após a desistência da Argentina. A equipe estava em um grupo duro, ao lado de Inglaterra, Espanha e Estados Unidos. Apenas o líder da chave avançaria ao quadrangular final. Os chilenos perderam seus dois primeiros compromissos, mas fizeram jogos parelhos contra ingleses e espanhóis. Já no encerramento da campanha, sem mais chances de classificação, a Roja afastou a zebra e derrotou os Estados Unidos por 5 a 2. Livingstone foi titular em todos os duelos, sempre com a braçadeira de capitão.

Apesar da breve participação, o Chile recebeu elogios pelo nível exibido no Brasil. Alguns conceitos táticos aprendidos pela Católica em sua visita à Europa acabaram colocados em prática no Mundial. E o próprio Livingstone apresentaria uma novidade na competição: o goleiro usou luvas. O Sapito já estava acostumado a atuar com luvas de couro, comuns, desde 1949. Com a turnê pelo Velho Continente, viu como os colegas de posição usavam equipamentos específicos e resolveu testá-los. Assim, tornou-se também um dos pioneiros do recurso na América do Sul.

Aquela seria a única Copa do Mundo de Livingstone, que seguiu na ativa com a seleção até 1954. O goleiro participou do Campeonato Pan-Americano de 1952, torneio importante que reuniu diferentes seleções principais do continente. A Roja emendou quatro vitórias consecutivas, chegando a desbancar o Uruguai campeão do mundo nesta caminhada. Entretanto, quando precisava de apenas um empate contra o Brasil na rodada final, perdeu a taça com a derrota por 3 a 0. A sorte parecia seguir contra o Sapo.

Em 1953, Livingstone disputou sua sexta e última edição do Campeonato Sul-Americano, no qual os chilenos ficaram na quarta posição. Depois da estreia ruim contra o Paraguai, a imprensa peruana diria que o Chile levou “uma lembrança, não um goleiro” para o certame. O veterano ficou mordido e daria sua resposta com uma exibição de gala no clássico contra o Peru, em que segurou o empate por 0 a 0 contra os anfitriões. Ao final de sua participação, chegaria a 34 jogos no torneio. O arqueiro é o recordista em aparições, ao lado de Zizinho, considerando também as edições da Copa América.

Por fim, em 1954, Livingstone ainda jogou as Eliminatórias e a Copa do Pacífico, suplantando o lesionado Misael Escuti. Não teve sucesso em ambas, mas voltou a sair por cima, apesar das desconfianças. Na campanha de classificação ao Mundial da Suíça, o Chile era azarão no grupo ao lado de Brasil e Paraguai – então campeão continental. Mesmo com a derrota em Santiago, suas defesas contra a Albirroja impressionaram tanto que os próprios jogadores guaranís o carregaram nos braços. Ao final daquele ano, encerrou sua trajetória na seleção com 52 partidas.

Também em 1954, a Universidad Católica conquistou seu segundo título nacional. Os Cruzados caíram na tabela do Campeonato Chileno após o troféu de 1949 e voltaram a ocupar posições intermediárias, até retomarem o topo cinco anos depois. Lesionado, o Sapito não disputou a reta final da campanha, mas a festa pelo feito aconteceu em sua própria casa. O problema viria logo na sequência: em 1955, a Católica não apenas esteve distante do bicampeonato, como terminou rebaixada. O ídolo precisou passar por uma cirurgia no joelho e ficou oito meses sem jogar, mas retornou a tempo de ajudar sua equipe no acesso. Inclusive, seria herói na vitória que rendeu a promoção à UC.

Após cumprir sua missão e recolocar a Católica na elite, Livingstone precisou sair. Fora dos planos do treinador, o goleiro de 37 anos recebeu uma boa proposta do Colo-Colo e acabou emprestado. O Sapo defendeu a meta do Cacique por uma temporada, em que o time fez uma campanha modesta no Campeonato Chileno. O arqueiro voltou a protagonizar boas partidas e usou a braçadeira de capitão, ajudando o desenvolvimento dos companheiros. O momento pessoal foi tão positivo que o medalhão chegou a ser pré-convocado à seleção para as Eliminatórias, mas declinou o convite.

“Depois da Católica, o clube que mais admiro é o Colo-Colo. Poucas vezes fui tão intimamente feliz como quando reforcei os albos”, declarou, à Estádio. “Eu estava caído. Tocou a campainha que dizia que a juventude havia passado. O futebol tinha mudado muito desde que eu começara. Já não eram possíveis sentimentalismos. Virtualmente, eu não tinha lugar em meu clube. Então, o Colo-Colo me deu esse impulso formidável. Creio que poucas vezes entrei em campo mais preocupado do que na minha estreia, poucas vezes tive ansiedade de fazer tão bem”. O intuito de Livingstone após brilhar no Cacique, de qualquer maneira, era realmente encerrar a carreira na Católica. Com a troca de comando nos Cruzados, a lenda retornou ao clube do coração.

Durante os dois últimos anos de sua trajetória, Livingstone permaneceu mais tempo no banco de reservas. Seu momento mais relevante aconteceu na Copa Chile, na qual contribuiu à campanha da Universidad Católica até a final. Por ironia do destino, o título seria perdido justamente contra o Colo-Colo. A aposentadoria se deu em 1959, sob grandes homenagens – uma delas em amistoso da seleção chilena, na qual deu uma volta olímpica diante de 40 mil torcedores no Estádio Nacional. Somando 21 anos praticamente ininterruptos defendendo a UC, o Sapito se despediu com 366 partidas oficiais. Antigo recordista, atualmente é o sexto com mais aparições pelo clube de Santiago.

“Livingstone se aposenta como um cavalheiro do gol, um senhor do futebol que deu destaque ao seu país, tanto por seu senhoria quanto por sua conduta. Tecnicamente, Livingstone foi um goleiro com defeitos. Não era certamente um estrategista do jogo. Foi um admirável pegador de chutes, mais admirável por não ser fisicamente um goleiro elástico, mas um homem com tendência a ser mais pesado, que aqui tinha sua estratégia de saber como se posicionar para brecar as jogadas. Foi aí onde se agigantou sua figura, muito mais quando atuou rodeado do clima propício de seu ambiente”, exaltou a revista El Gráfico, ante a despedida do goleiro.

“Nestas circunstâncias, foi um gigante sob as traves que, depois de muitos jogos contra os argentinos, ganhou o direito de ser reconhecido como o goleiro estrangeiro que mais gritos de ‘gol argentino’ deixou preso nas gargantas de nossos jogadores, narradores e torcedores. Como tal, o saudamos: como o adversário-cavalheiro e o adversário-muralha”, finalizou o periódico argentino, em sua homenagem.

Após pendurar as luvas, Livingstone quase participou de outro momento histórico com a seleção chilena: a Copa do Mundo de 1962. A Roja chegou a fazer um convite para o seu ídolo se tornar técnico às vésperas do Mundial. No entanto, o Sapo não se via na casamata e recusou a oferta, também por conhecer a indisciplina dos jogadores. Além do mais, o cargo naqueles anos era ocupado por Fernando Riera, seu antigo companheiro na Católica e na Roja. Seria ele a conduzir os chilenos até as semifinais. Livingstone permaneceria próximo do futebol de outra forma: como comentarista. Seja na rádio ou na televisão, era um dos analistas mais respeitados do país.

Livingstone seria apontado como o nono melhor goleiro sul-americano do Século XX, em votação realizada pela IFFHS. Receberia outros tantos prêmios e homenagens em vida, a maior delas da própria Universidad Católica: a principal tribuna do Estádio San Carlos de Apoquindo passou a levar o nome do goleiro. E a idade não seria problema para o comentarista permanecer na ativa. O Sapito seguiu trabalhando na rádio e na televisão até os 92 anos. “Perdi muitas coisas na vida por me dedicar ao futebol, mas o futebol também preencheu minha vida absolutamente”, refletiria, já idoso.

A história de Livingstone no futebol só seria interrompida mesmo pela morte, em setembro de 2012. O veterano já estava afastado do trabalho fazia um mês, por conta de uma enfermidade. Como em um conto de realismo fantástico, faleceu em dia de jogo da seleção chilena, que enfrentaria a Colômbia pelas Eliminatórias da Copa. Todas as partidas da competição naquela data respeitaram um minuto de silêncio em memória ao goleiro. A história do velho ídolo deveria ser exaltada, sobretudo pelos chilenos.

Parte das informações deste texto foi retirada do livro ‘Los 11: Los mejores jugadores de historia de la Roja’, escrito por Diego Figueroa e Ignacio Morgan. Vale conferir, também.