Mais de cinco décadas se passaram, mas a torcida do Celtic continua reconhecendo amplamente o valor que os “Leões de Lisboa” têm à história do clube. Não é apenas o time que conquistou a Copa dos Campeões em 1967, o primeiro britânico a atingir tal feito. Não é apenas o esquadrão de Jock Stein, que também dominou o Campeonato Escocês ao longo daqueles anos. Os veteranos, na verdade, representam o mais puro que há no futebol: o bando de garotos que nasceu e cresceu nos arredores de Parkhead, guiados pelo sonho de defender o clube de coração. Ainda carregando as origens e a identidade da agremiação, triunfaram na principal competição da Europa. Por isso mesmo, o amor por aquele esquadrão persiste. E por isso também que a torcida alviverde não deixou de realizar uma enorme homenagem a Billy McNeill, seu eterno capitão, que faleceu na última semana aos 79 anos.

“César”. Era assim que a torcida do Celtic costumava chamar Billy McNeill, uma clara alusão ao antigo imperador romano. O zagueiro possuía uma enorme imponência dentro de campo e mandava no campo defensivo. Praticamente perfeito no jogo aéreo e com um ótimo tempo de bola para os desarmes, oferecia a base para a equipe que conquistou todos os títulos possíveis na década de 1960. No entanto, o escocês ia além por sua liderança e seu senso de organização. Era o verdadeiro coração dos Bhoys, o homem que pulsava em voz de comando para impulsionar os companheiros. Reconhecido pela garra e pela inteligência acima da média, protagonizou um episódio particular naquela Champions de 1967: o capitão falou em todas as entrevistas coletivas dos alviverdes ao longo da campanha. E falou não apenas em inglês, sua língua, mas também no idioma de cada país que visitou. Do tcheco ao português, aproximou o clube de outros cantos da Europa e sublinhou o que a competição significava.

Assim como seus demais companheiros, McNeill cresceu nos arredores de Parkhead – em Bellshill, North Lanarkshire, a cerca de 10 quilômetros do estádio. Descendente de irlandeses e lituanos, viu sua carreira florescer no futebol estudantil e saiu de um time amador, o Blantyre Victoria, para se juntar ao Celtic quando tinha 17 anos. Não demorou a emplacar no segundo quadro, treinado justamente por Jock Stein, antes de ser pinçado pelo velho ídolo Jimmy McGrory à equipe principal. A estreia do zagueiro aconteceu em agosto de 1958, embora seu início entre os profissionais tenha sido difícil. Recebeu propostas para deixar os alviverdes, até que os rumos de sua carreira mudassem a partir da efetivação de Stein como treinador principal dos Bhoys, em 1960.

Se a aura de Jock Stein sempre paira sobre aquele timaço do Celtic, McNeill não pode ser ignorado como um dos grandes protagonistas. O capitão é a encarnação, dentro de campo, de tudo o que circunda Parkhead. Atuou pela equipe principal ao longo de 17 anos, somando 790 partidas com a camisa alviverde. E, tão notável quanto seu papel como capitão ou sua qualidade como zagueiro, também era a contribuição que oferecia ao jogo ofensivo. Em tempos nos quais dificilmente os defensores iam à área adversária para ameaçar nas bolas aéreas, McNeill possuía passe livre para avançar. Desta maneira, anotou gols que se tornaram centrais ao sucesso construído pelos Bhoys.

Em 1965, o Celtic acumulava uma seca de sete anos sem títulos. McNeill anotou o gol decisivo na vitória por 3 a 2 sobre o Dunfermline, que selou o título da Copa da Escócia e transformou o momento do clube. Na temporada seguinte, veio a reconquista do Campeonato Escocês. E dois anos depois, formando uma dupla inseparável com John Clark no miolo de zaga, César já estava conquistando territórios na Champions. Ele também balançaria as redes em um resultado memorável, definindo no último minuto a classificação contra o Vojvodina nas quartas de final e evitando a marcação de um jogo extra. Nas semifinais, outra partidaça do zagueiro, desta vez resistindo às investidas do Dukla Praga para confirmar os Bhoys na inédita decisão. Por fim, o épico contra a Internazionale em Lisboa. Os escoceses deram uma aula de futebol ofensivo contra o Catenaccio de Helenio Herrera, derrotando os bicampeões continentais por 2 a 1. A imagem eterna de McNeill, erguendo a taça prateada.

Mas não foi apenas no futebol que o Celtic derrotou a Inter na famosa final. Também foi no coração. Como recordaria McNeill, sobre o momento em que a confiança dos Bhoys começou a se sobressair. “Saímos do vestiário e entramos no túnel. Eles nos mantiveram lá por um tempo. Eu me lembro de olhar para o lado e ver que a equipe italiana parecia magnífica. É um uniforme bastante inspirador, além de serem jogadores atléticos, com belos rostos italianos. Então Bertie Auld, um grande caráter, começou a cantar ‘The Celtic Song’ e todos nós o acompanhamos. Vocês deveriam ver as expressões nas faces dos italianos”, relembrou. “A coisa mais importante que eu precisava fazer como capitão era ilustrar ao time que não tínhamos nada a temer”.

Ao longo de sua carreira como jogador, McNeill conquistou nove títulos do Campeonato Escocês, sete da Copa da Escócia e seis da Copa da Liga Escocesa. Além da Champions de 1967, também se tornou figura central na classificação para a final de 1970, mas sem o mesmo sucesso contra o Feyenoord. E sua caminhada no clube não chegaria ao fim em 1975, quando pendurou as chuteiras. César seria justamente o escolhido para suceder Jock Stein no comando do clube, em 1978. Apesar da transição natural, o antigo treinador não estava de acordo com a decisão unilateral da diretoria, o que causou desconforto. Ainda assim, nada que prejudicasse o antigo capitão. Em duas passagens distintas neste novo cargo, McNeill conquistou cinco títulos do Campeonato Escocês e mais duas Copas da Escócia. Ampliaria sua idolatria. Também passou por outros clubes, incluindo Aberdeen, Manchester City e Aston Villa, até encerrar a carreira na casamata em 1998.

Ao longo das últimas décadas, McNeill recebeu diferentes homenagens, do Celtic e de outras agremiações. Permaneceu como um emblema alviverde. E o adeus nesta semana não poderia ser mais significativo. A estátua do capitão em frente a Parkhead, erguendo a taça da Champions, virou um ponto de peregrinação em Glasgow. Diversos ex-companheiros realizaram seu adeus, assim como milhares de torcedores. Nas redes sociais, clubes de toda a Europa lamentaram a perda de McNeill, incluindo o Rangers. Os Teddy Bears passaram por cima da rivalidade secular não apenas para ressaltar o caráter de César, como também levaram uma coroa de flores. Por fim, o grande ato realizado no sábado, durante a partida contra o Aberdeen.

Antes que a bola rolasse em Parkhead, jogadores do Celtic e os veteranos de 1967 realizaram um tributo diante da estátua de McNeill. A emoção continuou dentro do estádio, com o minuto de silêncio realizado ao redor de um grande número “5” no centro do gramado. Os atletas também utilizaram braçadeiras negras, com referência à camisa do capitão. E, nas arquibancadas, um mosaico foi erguido com a imagem do zagueiro, sob o grito de “Ave, César”. Pois até mesmo as circunstâncias do jogo pareceram conspirar para relembrar o eterno ídolo. A vitória por 1 a 0 aconteceu graças a um gol anotado no 67° minuto, obra do atual camisa 5, Jozo Simunovic. Uma cabeçada fulminante, como aquelas que consagraram a lenda de McNeill.

É uma pena que, ainda encarando a dor, o Celtic precise declarar luto outra vez. Nesta segunda-feira, exatamente uma semana depois de McNeill, faleceu outro Leão de Lisboa: Steve Chalmers, aos 83 anos. Igualmente nascido e crescido em Glasgow, o atacante chegou a Parkhead em 1959, aos 23 anos. Cumpria um sonho do pai, que fora reprovado em uma peneira dos Bhoys durante a juventude, e driblava as próprias infelicidades do destino, após superar uma meningite tuberculosa que o deixou à beira da morte durante a adolescência. Virou o centroavante veloz e letal daquele esquadrão, justamente o autor do gol que selou a vitória por 2 a 1 sobre a Internazionale. É o quarto maior artilheiro do clube, com 231 gols em 406 partidas. Certamente receberá um grandioso e digno tributo ao que realizou com os Bhoys. Outro gigante – sobre o qual dedicaremos um texto específico aqui na Trivela durante as próximas horas.