Andrés Escobar costumava ser tratado pela imprensa e pelos torcedores colombianos como ‘O Cavalheiro do Futebol’. O apelido dizia muito sobre o seu estilo de jogo. Alto e esguio, o zagueiro canhoto se destacava pela qualidade técnica. Imponente, mas sem perder a lealdade. Assim, virou ídolo do Atlético Nacional e atingiu os 51 jogos pela seleção colombiana. Porém, o sentido da alcunha ia além. Referia-se também ao seu comportamento fora de campo. Um homem conhecido por ser íntegro e generoso, elogiado por todos que conviveram com ele. Dono de uma personalidade serena e, ao mesmo tempo, firme. Que, por isso, tinha tamanha influência sobre os seus companheiros. Mas que, infelizmente, faleceu cedo, por um ato covarde. Condenado por um erro que deveria se limitar às quatro linhas e acabou servindo de símbolo do caos vivido pelo país.

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Na última semana, completaram-se 50 anos do nascimento de Andrés Escobar. Viveu pouco mais da metade disso, assassinado aos 27 anos, em um crime a sangue frio – e, embora não tenha sido comprovado pela justiça, ao que tudo indica, motivado por seu gol contra na Copa do Mundo de 1994. Diante da data, entretanto, vamos deixar de lado a tragédia e a impunidade. O momento serve para relembrar aquilo que deveria ser muito mais enfatizado: a carreira respeitável construída pelo camisa 2, bem como o seu enorme caráter.

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Andrés Escobar nasceu em uma família de classe média. Cresceu no bairro de Calasanz, em Medellín, de onde podem ser ouvidos os gritos de comemoração a cada gol anotado no Estádio Atanásio Girardot. Era o caçula de cinco irmãos, em uma casa apaixonada por esportes. Todos os quatro filhos homens de Darío e Beatriz praticavam alguma modalidade a sério. O primogênito, José Darío, se sobressaiu no futebol durante a juventude, mas acabou optando pela formação universitária ao invés do profissionalismo. Juan Fernando jogava vôlei. Santiago, três anos mais velho que Andrés, foi o primeiro a defender grandes clubes, contratado pelo Atlético Nacional no início dos anos 1980. Por fim, seguindo os exemplos, o mais novo correu atrás de uma bola desde pequeno.

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Andrés acostumou-se a jogar pelas ruas de Calasanz. Saía da escola e já ia brincar com seu objeto preferido. “Andrés era um menino alegre, que irradiava felicidade por todo o tempo, que sempre estava jogando futebol. Desde os cinco anos jogávamos no pátio de casa, na garagem, no bairro, no colégio. Sempre era o menor de todos. Mas, quando jogava com os adultos e fazia uma jogada bonita, uma bicicleta, um toque de calcanhar, uma caneta, ele morria de rir. Andrés sempre teve relação com os esportes. Gostava de ciclismo, de tênis, mas me recordo que, quando falou de jogar futebol profissionalmente, me perguntou se tinha condições. Eu disse que era um jogador extraordinário. Ele sabia que tinha talento e, quando se deu conta que deveria explorar isso, focou-se, porque a única coisa que queria era jogar e se divertir. Essa era sua grande paixão”, recorda-se Santiago, em entrevista à versão colombiana do portal Terra.

A qualidade no trato com a bola tornava Andrés um dos mais requisitados nos jogos. Canhoto, jogava como meia de criação ou como atacante. E, embora fosse um bom aluno, a febre pelo futebol começou a interferir em seus estudos. Em 1984, repetiu de ano. Por isso mesmo, trocou de colégio. Foi para um menos rígido, para que conseguisse treinar sem maiores empecilhos. O sucesso era tamanho que o adolescente passou a integrar a seleção da Antioquia, departamento local, disputando o Campeonato Nacional Juvenil.

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Esta etapa, aliás, foi fundamental para a carreira de Escobar. Afinal, graças ao treinador Carlos ‘Piscis’ Restrepo é que o prodígio acabou deslocado à zaga. O comandante percebeu a elegância do novato, que jogava de cabeça erguida, dava lançamentos longos com enorme precisão, era calmo e seguro. Aproveitou a inteligência e a personalidade de Andrés para ocupar o coração da defesa. “A princípio, eu estranhei, mas depois me acostumei e soube que era minha real posição”, comentava o camisa 2. Na nova função, decolou.

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Contudo, em meio à ascensão como jogador, Andrés precisou lidar com um dos momentos mais difíceis de sua vida pessoal. A família Escobar já tinha suportado uma dor imensa quando Juan Fernando, que se mudara aos Estados Unidos para tentar a carreira como jogador de vôlei, foi assassinado após quatro meses no novo país. Já em 1985, uma perda imensa. A mãe, faleceu aos 52 anos, após batalhar contra um câncer. O caçula, muito apegado a ela, precisou seguir em frente. “Para Andrés, era o seu mundo, sua vida. Foi muito difícil superar a perda. Mas ele tinha juízo”, afirma a irmã Maria Esther, ao documentário ‘Os Dois Escobars’.

Educado pela mãe na fé católica e devoto de Nossa Senhora Auxiliadora, Escobar se agarrou ainda mais à religião. E também ao seu grande objetivo, o futebol. Passou a se preparar à carreira a cada instante de seu dia. O menino magro, que beirou a anemia e adorava guloseimas, adotou uma rotina regrada. O talento começava a se complementar com força física. “Você joga como vive: quanto melhor comer, dormir, se vestir, falar e tratar os demais, melhor vai jogar. Mas não é por isso que você vai pensar que pode alcançar o céu com as mãos”, disse certa vez ao jornalista Gonzalo Medina, autor do livro ‘Una gambeta a la muerte’.

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Em 1986, Escobar passou a integrar o time de coração, o Atlético Nacional. E aquele era apenas o início. Fenômeno nos juniores, logo subiu aos profissionais, participando de treinamentos sob o comando de Anibal Ruiz. A estreia aconteceu em março de 1987, entrando durante os minutos finais de um amistoso dos verdolagas contra a seleção uruguaia. O zagueiro canhoto, inclusive, vinha sendo improvisado como lateral esquerdo. “Foi uma alegria imensa. Como joguei? Não sei. O importante era que se cumpria um dos meus sonhos. Fazia isso no time dos meus sonhos, o Atlético Nacional”, declarou ao jornal El Tiempo, tempos depois.

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Todavia, Escobar só se firmou no elenco principal dentro de alguns meses, pelas mãos daquele que se transformaria no grande professor de sua carreira: Francisco Maturana. Defensor durante os anos 1970, Pacho virou dentista após pendurar as chuteiras, mas iniciou a trajetória como técnico em 1986, no Once Caldas. No ano seguinte, chegou ao Atlético Nacional para encabeçar um projeto ousado dos verdolagas, buscando valorizar os jogadores locais e um estilo que se praticava nas ruas, improvisado, na base da habilidade. Durante um treinamento coordenado por Maturana, o veterano zagueiro Nolberto Molina se envolveu em uma discussão e deixou o campo enraivecido. O comandante precisava de alguém para substituí-lo e olhou para o local onde trabalhavam os juniores.

“Nolberto saiu e tinha um garoto por ali, treinando com a base. Era mais que um excelente jogador, era a personificação de uma cultura, de uma retidão. Estava ali, no momento certo e na hora certa. Eu disse: ‘Venha para cá, você vai jogar’. E esse jovem era Andrés Escobar”, rememora Maturana. A partir de então, aos 20 anos, ganhou a posição e se tornou um dos jogadores preferidos da torcida. Em maio de 1988 já fazia sua estreia pela seleção. E da maneira mais contundente possível: marcou o gol que decretou o empate por 1 a 1 contra a Inglaterra, na mítica cancha de Wembley. Algo de grandioso aguardava aquele novato.

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Ainda em 1988, Escobar ficou a um triz de conquistar o seu primeiro título. O Atlético Nacional perdeu o Campeonato Colombiano para o Millonarios nos critérios de desempate, por conta do saldo de gols. O vice, ao menos, garantia os paisas na Libertadores de 1989. Na qual, de fato, fariam história. Após eliminarem Racing, Millonarios e Danubio nos mata-matas, os verdolagas travaram a decisão contra o Olimpia. Perderam o jogo de ida por 2 a 0, mas devolveram o placar no reencontro em Bogotá. O troféu seria definido nos pênaltis. Coube a Escobar, 22 anos recém-completados, converter a primeira cobrança. A insana disputa se seguiu por mais 17 chutes, desafiando René Higuita e Ever Hugo Almeida. Até que Leonel Álvarez decretasse o primeiro clube colombiano campeão continental. Na volta para Medellín, o time desfilou em carro aberto. O trajeto do aeroporto ao Atanásio Girardot, palco das comemorações, demorou seis horas, em meio às ruas abarrotadas.

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O destaque de Escobar foi tamanho que ele acabou negociado com o Young Boys, da Suíça. Mesmo assim, faria viagens regulares de volta para casa, defendendo a seleção. E, três meses depois do feito na Libertadores, viveria outro momento marcante do futebol de seu país, ao lado de Maturana e outros velhos companheiros. A Colômbia encerrou uma espera de 28 anos e voltou a disputar uma Copa do Mundo. O zagueiro foi titular em toda a campanha nas Eliminatórias, superando Paraguai e Equador, bem como nos dois jogos da repescagem contra Israel. Obviamente, foi convocado para o Mundial de 1990. A seleção colombiana passou de fase pela primeira vez, com direito a um notável empate contra a Alemanha Ocidental, que viria a se coroar campeã semanas depois. Só caiu nas oitavas de final, diante de Camarões, com a pixotada de Higuita que eternizou a imagem de Roger Milla bailando junto à bandeira de escanteio.

Sem se firmar no futebol suíço, Escobar voltou ao Atlético Nacional após a Copa. Fazia o caminho inverso de muitos de seus companheiros, que rumavam à Europa. O time campeão da Libertadores havia se desmanchado: Leonel Álvarez, Albeiro Usuriaga, John Jairo Tréllez, Gildardo Gómez e Luis Carlos Perea já tinham saído. Pacho Maturana assumiu o Valladolid e, meses depois, levou René Higuita para a Espanha. Desta maneira, ao lado do capitão Alexis García, caberia a Andrés liderar uma nova geração. Com ela, conquistou o Campeonato Colombiano de 1991, encerrando um jejum do clube de 10 anos na competição nacional. A equipe treinada por Hernán Darío Gómez consagrou, sobretudo, a dupla de ataque memorável formada pelos jovens Faustino Asprilla e Víctor Aristizábal.

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Neste período, o Atlético Nacional seguia como força recorrente na Libertadores, embora não tenha passado das semifinais entre 1991 e 1993. Tempos nos quais o narcotráfico, de influência tão pesada sobre o país, também estendia seus tentáculos sobre o futebol. E, como a maioria absoluta dos craques, Andrés tem sua história cruzada com Pablo Escobar. El Patrón costumava presentear os jogadores verdolagas e convidá-los às suas propriedades – onde realizava peladas recheadas de estrelas em seu próprio campinho. Nada, porém, que apetecesse o zagueiro. Ainda assim, não havia como dizer não ao mandante de tantos assassinatos. Chegou mesmo a visitá-lo, com outros atletas, na época em que Pablo estava preso na famosa Catedral. “A verdade é que Andrés não estava de acordo com isso. Mas tinha que ir ou ir”, relata Maria Esther.

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O fato é que o futebol, ao mesmo tempo que servia de instrumento aos narcotraficantes, era muito mais do que isso. Representava uma enorme válvula de escape à população, enquanto convivia com o medo. E Andrés Escobar tinha plena consciência deste poder. Por isso, sempre se preocupou em utilizar sua imagem para ajudar a população carente, sobretudo as crianças. Visitava escolas, dava sua atenção a garotos nas ruas e na zona rural, distribuía presentes nos bairros pobres de Medellín durante o Natal. Independentemente da maturidade, até pelo carinho que recebia em casa como caçula, mantinha alguns trejeitos de menino – apaixonado pela bola e viciado em seu Nintendo. Entendia-se bem com eles.

“Andrés encarnava a bondade, a serenidade, a honestidade que recebeu como educação. Espalhava isso no campo de jogo e no contato com seus seguidores. Ganhou o apelido de ‘O Caridoso’ por sua ética”, escreveu Gonzalo Medina. Segundo seu irmão Santiago, dois traços eram marcantes: o riso fácil, a despeito da seriedade, e o respeito em tratar todos como iguais. “Era sensível em toda a extensão da palavra. Tranquilo e sereno, com seu sorriso de dentes grandes fazia desaparecer em um instante qualquer resquício de nervosismo. Este rapaz comprido e forte era a ilusão e a esperança transformadas em homem”, complementa o jornalista Rafael Villegas, ao Colômbia Sports.

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Neste sentido, Andrés Escobar e outros nomes importantes do futebol colombiano viam a seleção como o principal caminho de resgatar o orgulho de seu povo. O próprio Pacho Maturana afirmava que a vontade de defender o país era um ponto importante na montagem de seu grupo. Visão compartilhada pelo camisa 2: “É grandíssima a responsabilidade que todos temos, porque todos estamos trabalhando por uma causa. Estamos todos nos preparando para representar bem o nosso país”.

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Andrés, no entanto, esteve fora do time durante o momento de maior empolgação com os Cafeteros. Em 1993, ele sofreu uma ruptura ligamentar no joelho, que ameaçou até mesmo o fim precoce de sua carreira. Precisou se agarrar mais uma vez à fé e ao profissionalismo para se recuperar. Enquanto isso, restava torcer pelos companheiros. E eles vinham sendo brilhantes nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Conquistaram a classificação ao Mundial de 1994 com direito à histórica goleada sobre a Argentina no Monumental de Núñez. Embora não tenha participado da façanha da seleção, o zagueiro permanecia com seu moral inabalável, retornando aos titulares durante a reta final de preparação ao torneio.

“Andrés é o tipo de jogador ideal para qualquer equipe, não só porque era apto técnica e taticamente, mas também porque sua condição humana era inigualável. Porque dentro e fora de campo sua imagem se projetava com personalidade, porque tinha o dom de lidar com as pessoas. Em síntese, porque era um senhor”, avaliou Pacho Maturana, que tinha o camisa 2 como herdeiro da braçadeira de Pibe Valderrama. Não por menos, o beque personificava aquilo que o treinador pedia aos seus jogadores: altivo, capaz tecnicamente, dono de uma saída de bola inteligente, que logo iniciava os ataques do time. Acabou se tornando um modelo àquilo que se vê com frequência entre os defensores colombianos, preferindo a frieza do passe curto à pressa do chutão.

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E Maturana não era o único admirador do futebol de Andrés Escobar. Contratado pelo Atlético de Madrid em meados de 1994, o técnico colombiano pretendia levar o zagueiro consigo, mas dificilmente venceria a disputa por sua contratação. César Luis Menotti também esteve de olho no negócio, que não saiu, enquanto dirigia o Boca Juniors. O favorito no páreo tinha mais peso: o Milan, então comandado por Fabio Capello. O zagueiro já havia enfrentado os rossoneri em 1989, quando o Atlético Nacional vendeu caro a derrota no Mundial Interclubes, sofrendo um gol apenas aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação.

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Segundo o jornalista Darío Ángel Rodríguez, em depoimento ao jornal El País, Arrigo Sacchi (à frente da seleção italiana a partir de 1991) indicara Andrés Escobar à diretoria milanista: “Havia uma estreita relação entre Arrigo Sacchi e Pacho Maturana. A ideia era que Escobar jogasse no Milan. Sacchi tinha uma fixação especial em Andrés, porque foi visto em seu momento como um Franco Baresi colombiano, um líbero com classe, canhoto, de um futebol realmente admirável”. O futebolista já pensava em sua mudança para a Itália, onde esperava se provar no mais alto nível e deixar para trás a falta de sucesso da primeira passagem pela Europa. Falava sobre os planos com parentes e amigos próximos. Queria também se casar com a noiva Pamela, sua companheira fazia cinco anos, e criar um projeto social para crianças em Medellín.

Assim, a Copa do Mundo de 1994 surgiu como uma grande oportunidade para Escobar. Seria a chance de ratificar sua transferência. Tentava focar em sua preparação, apesar do oba-oba que passou a rondar a Colômbia. “Realmente, a concentração não é fácil, mas de todas as maneiras você encontra a motivação para o grande momento que vem. Trato de ler um pouco da Bíblia, todos os dias leio algum salmo e sempre carrego as fotos da minha mãe e da minha noiva”, declarou, antes da competição. A derrota na estreia, contra a Romênia, o incomodou bastante, porque observadores do Milan estavam nas arquibancadas. E o pior ainda estava por vir. O clima de carnaval da seleção virou do avesso. O terror tomou conta depois de uma ligação anônima a Pacho Maturana, ameaçado de morte caso escalasse o meio-campista Barrabás Gómez. Abalado, o elenco entrou em campo para enfrentar os Estados Unidos. A partida fatídica, marcada pelo infeliz gol contra de Andrés aos 33 minutos do primeiro tempo. A vitória sobre a Suíça na terceira rodada apenas serviu para cumprir tabela.

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Após a eliminação, os jogadores colombianos foram dispensados de qualquer compromisso com a federação. Agiriam como bem entendessem. A família de Escobar já estava nos EUA, onde planejavam uma viagem de costa a costa. A princípio, o defensor se juntaria a eles. Também tinha o convite de uma rede de televisão local para ser comentarista durante o resto da competição. Contudo, preferiu voltar para a Colômbia. Sentiu que tinha um compromisso com os seus companheiros e com seu povo, diante de tudo o que acontecera. Embarcou ao lado de Pacho Maturana e, com outros membros da seleção, participou de uma entrevista coletiva, falando do Mundial e da sequência do trabalho.

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Durante a Copa do Mundo, Andrés assinou uma coluna no jornal El Tiempo. Uma espécie de diário, em que relatava o ambiente da equipe nacional nos Estados Unidos. Seu último texto foi publicado depois da queda na primeira fase, em 29 de junho, com palavras um tanto quanto emblemáticas: “Por favor, que o respeito se mantenha. Um abraço forte para todos. Digo que foi uma oportunidade e uma experiência fenomenal, rara, que jamais havia sentido em minha vida. Até logo, porque a vida não termina aqui”. A última frase, inclusive, tinha sido usada nos vestiários, para que seus companheiros erguessem a cabeça diante da campanha decepcionante no Mundial.

Em suas últimas horas de vida, Escobar visitou o Atlético Nacional, para saber qual o progresso da negociação com o Milan. Segundo pessoas próximas, faltava apenas a assinatura. Andou de peito aberto pelas ruas de Medellín, a cidade onde cresceu e se fez ídolo. Avaliou que tinha que dar a cara após o fracasso. E pensava que tinha segurança entre os seus, ante os olhos daqueles que o viam como referência e o respeitavam pela maneira como estendeu a mão aos necessitados. Certezas que caíram por terra na derradeira noite, em uma discussão até hoje nebulosa, mas cujo desfecho foi fatal.

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Tantos anos após a tragédia, a adoração por Andrés Escobar permanece intacta em Medellín. Sua imagem se reproduz em muros da cidade, em bandeiras no estádio, em tatuagens na pele dos torcedores do Atlético Nacional. A referência ao ‘Imortal 2’ é recorrente no Atanásio Girardot. Os verdolagas sabem o grande jogador e o grande homem que tiveram em suas fileiras, que também era um deles. Em 1994, foi criada uma barra chamada ‘O Cavalheiro do Futebol’, para honrar a memória do zagueiro. Três anos depois, ela se fundiu com Los del Sur, a principal torcida organizada do clube. O grupo possui um senso de responsabilidade aguçado, responsável por diversas ações sociais em Medellín. E cantam a trajetória do ídolo nas arquibancadas.

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Andrés voltou a triunfar, na figura de seu irmão. Santiago tornou-se técnico do Atlético Nacional em duas oportunidades. Conquistou o Campeonato Colombiano em 2005 e em 2011. A associação à imagem era natural, assim como a emoção pelo feito. Além disso, a intenção do camisa 2 em criar um projeto social para crianças seguiu em frente. Falecido em 2008, o pai do defensor comandava a instituição, que conta com escolas de futebol espalhadas por bairros de Medellín e oferece a meninos carentes a oportunidade de praticar o esporte.

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No fim das contas, o envolvimento dos colombianos (e, sobretudo, dos paisas) com a morte de Andrés Escobar vai além da perda de um ídolo. É um retrato muito particular da antiga realidade local, misturando o pavor sufocante da guerra entre narcotraficantes e a paixão pelo futebol que fazia as pessoas respirarem. Como explica o jornalista Esteban Duperly, em matéria da revista Don Juan: “Apesar da aparente devoção, Andrés não é considerado um santo. Mais que um ser divino, preferem pensar nele como um amigo que os acompanha ao estádio. No entanto, ao redor de sua figura ocorre um fenômeno psicológico considerável: Escobar também serve como fator de coesão. Ao menos em Medellín, o seu caso é próximo, dói a todos. É, por assim dizer, uma espécie de primo coletivo na cidade, onde cada um tem o drama de um parente vinculado a uma tragédia com balas. Daí o culto a sua imagem e sua presença permanente”.

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Aos poucos, a Colômbia se afastou do cotidiano pesado que repercutiu ao mundo com a morte de Andrés Escobar. Hoje, se aproxima muito mais daquilo que o jogador da seleção pregava há 23 anos: “Neste esporte, fica demonstrada a estreita relação entre a vida e o jogo. No futebol, diferentemente das touradas, não há morte. No futebol, jogando, não matam ninguém. É mais de alegria, de diversão”.