Time com presenças esporádicas na elite espanhola na segunda metade do século 20, o Castellón teve, porém, seu momento de brilho na temporada 1972/73, quando cumpriu ótima campanha na liga e chegou à decisão da copa, em ambos os casos registrando vitórias expressivas sobre grandes forças do país. E de quebra, ainda revelou um nome que faria história no futebol ibérico, tanto como jogador e posteriormente como treinador: um certo Vicente del Bosque. A trajetória dos alvinegros da comunidade de Valência é o tema desta coluna “Azarões Eternos”.

O Castellón nasceu como tal em 1922, com o rebatismo do Cervantes, clube fundado poucos anos antes, a partir do desejo de se contar com um clube que levasse o nome de sua província, onde se situa a cidade de Castellón de la Plana. No ano seguinte, o clube inaugurou seu estádio de Sequiol (substituído pelo de Castalia em 1946) e em 1925 mudou o uniforme – antes todo branco, inspirado no do Valencia – para alvinegro com listras verticais.

Em 1933, o clube foi excluído da liga ao se negar a cumprir uma suspensão após distúrbios em uma partida no Sequiol, sendo obrigado a fechar as portas. O fim foi apenas temporário para os “orelluts” (apelido nascido em um cântico da torcida com referência a um elefantinho que José Alanga, antigo goleiro do clube dos anos 20, deixava atrás da meta como amuleto). Logo após o encerramento da Guerra Civil no país, o time voltou a campo, readmitido.

Em 1941, pouco depois da retomada das competições com o fim do conflito, o clube ascendeu à elite pela primeira vez, figurando na categoria máxima por seis anos. Na temporada 1942/43 chegou a brigar pelo título, mas perdeu suas chances ao sofrer uma goleada de 5 a 0 frente ao Celta em Vigo a três rodadas do fim. Terminou em quatro lugar (embora com saldo de gols negativo), sua melhor colocação na história, numa liga com apenas 14 clubes.

O clube ainda terminou num bom quinto lugar na temporada seguinte, à frente de Barcelona e Real Madrid, mas, aos poucos, seu melhor momento foi se esvaindo e a equipe foi descendo na classificação até chegar o rebaixamento na temporada 1946/47 como lanterna da competição, somando apenas quatro vitórias e 80 gols sofridos em 24 jogos. A partir de então, o Castellón permaneceu no limbo entre a segunda e a terceira divisões até o início dos anos 70.

Em novembro de 1970, o técnico Vicente Dauder deixou o cargo e foi substituído pelo francês Lucien Muller, ex-meia de Real Madrid e Barcelona, que havia pendurado as chuteiras no Stade de Reims há poucos meses. Em seu primeiro trabalho como treinador, levaria o clube a um sexto lugar na segunda divisão naquela temporada. E na seguinte, renderia frutos ainda melhores, ao confirmar o retorno dos “orelluts” à máxima categoria após 25 anos.

Em 1º de junho de 1972, o Castellón derrotou o Mallorca por 2 a 0 em casa na última rodada e garantiu o vice-campeonato da segunda divisão, subindo após disputa acirrada com o Oviedo (campeão), o Zaragoza (terceiro colocado) e o Elche, que ficou pelo caminho, em quarto. E como se não bastasse a alegria do acesso, os torcedores ainda viram o arquirrival local Villarreal – situado a menos de oito quilômetros de distância – ser rebaixado para a terceirona.

O jovem Vicente del Bosque

Mantido no cargo, Lucien Muller confiou na mesma base que garantiu o retorno à elite, somada a reforços pontuais. Entre eles, o que chamava mais a atenção era o meia Vicente Del Bosque, surgido no Plus Ultra, clube filial do Real Madrid, e que já havia defendido o Castellón em 1970/71 por empréstimo, antes de passar pelo Córdoba, rebaixado da elite na temporada seguinte. Em seu retorno, novamente por empréstimo, teria a missão de estabilizar o setor.

O time-base

Outro reforço, o jovem goleiro Pedro Corral, 24 anos, venceu a disputa inicial com os experientes Andrés Mendieta (pai do futuro meia da seleção Gaizka Mendieta) e José Araquistain (que esteve na Copa de 1962) para assegurar a camisa 1. A lateral direita foi outra posição pela qual passaram vários nomes ao longo da temporada, mas só na segunda metade é que um deles, o do meia de origem Manuel Figueirido, pôde se firmar ao ser adaptado na função.

Já o zagueiro central Luis Poncela, o Cela, e o lateral esquerdo Pascual Babiloni não tiveram concorrência em suas respectivas posições, sendo titulares durante toda a campanha. A quarta zaga, por sua vez, teve um titular em cada turno: Óscar Ramírez (ex-Las Palmas) no primeiro e José Fernando Ferrer, prata da casa, no segundo. À frente da defesa, atuando como uma espécie de líbero adiantado, o volante Jorge Cayuela (ex-Valencia) foi nome certo entre os titulares.

O destaque do time ficava com dois jogadores do meio-campo. O primeiro, o já citado Vicente Del Bosque, era um jogador dinâmico, de boa técnica, que podia ser escalado para vigiar o meia adversário sem com isso deixar de exercer bem seu papel de distribuidor de jogo. Já o segundo, Juan Bautista Planelles, era um ponta-de-lança incisivo, versátil, talentoso, que jogava encostado no ataque, chegando bem na área e marcando muitos gols.

Na frente, o arisco ponta-direita Antonio Navarro, Tonín, também ganhou um lugar fixo no time a partir do returno. Sua posição chegou a ser ocupada também por Manuel Clarés, atacante oportunista, mas também útil por abrir espaços, e que acabou se firmando mesmo pelo meio do setor, como homem de área. Do lado esquerdo, Félix Javier Carnero fazia a função de ponteiro recuado, cobrindo o apoio por aquele flanco e ajudando na organização.

Com esses jogadores, o desenho tático do Castellón se assemelhava ao 4-3-3 utilizado pela Seleção Brasileira na Copa de 1962. Um falso ponta (Félix) recuava para auxiliar o meio-campo e, com isso, abria espaço na esquerda para o apoio forte do ofensivo lateral Babiloni, o qual tinha liberdade para fazer jogadas de fundo. Enquanto isso, pelo miolo, o ponta-de-lança (Planelles) avançava e encostava no centroavante (Clarés), tabelando e invertendo os papéis com ele.

Uma curiosidade era a grande presença no elenco de jogadores com passagem pelo Real Madrid, fosse pela equipe principal ou pelos clubes filiais. Nesta lista estão os goleiros Corral e Araquistain (que defendeu os merengues por sete temporadas), o lateral reserva Rafael Echarri, o zagueiro Cela (cria dos madridistas), o lateral Babiloni (que havia trocado o Castellón pelo Real Madrid e retornou após duas temporadas), o atacante reserva Fernando Ortuño e os dois principais nomes da equipe, Del Bosque e Planelles, ambos emprestados pelo clube da capital.

O começo tortuoso na volta à elite

A campanha de retorno à elite, que teve como adversário de estreia exatamente o Real Madrid em casa, não começou bem, deixando a sensação de que o time pouco poderia fazer além de tentar amenizar um descenso desastroso. A equipe de Lucien Muller perdeu seus três primeiros jogos: 3 a 2 para os merengues, 1 a 0 para o Espanyol no Sarriá e 4 a 1 para o Athletic Bilbao dentro do Castalia. Ao fim de sete rodadas, havia sido derrotado cinco vezes e vencido apenas uma, diante do Málaga em casa pelo placar mínimo.

Mas nas duas partidas seguintes, dois triunfos ajudaram a colocar a equipe nos eixos. Os 1 a 0 sobre o Gijón em casa e o Las Palmas nas Ilhas Canárias foram um respiro necessário, e o empate em 1 a 1 diante do favorito Atlético de Madrid no Castalia logo a seguir deu confiança à equipe, além de manter uma invencibilidade em seu estádio que vinha desde o primeiro triunfo, aquele contra o Málaga no início da campanha.

A trajetória se estabilizou na reta final do primeiro turno. O time venceu o Zaragoza fora de casa (1 a 0) e manteve o bom retrospecto jogando no Castalia, ainda que sofresse derrotas nas visitas ao Barcelona, Valencia, Betis e Real Madrid, resultados considerados normais. Daí em diante viria o melhor momento da campanha: entre 28 de janeiro e 13 de março, o time acumulou seis jogos sem perder, com quatro vitórias e dois empates, alavancando sua colocação na tabela.

Primeiro veio a vitória por 2 a 0 sobre um Espanyol que brigava palmo a palmo pelo título. Depois, o empate em 1 a 1 com o Athletic Bilbao arrancado graças a um gol de Vicente Del Bosque na etapa final. Em seguida, três vitórias com placar elástico em casa, com o empate em 1 a 1 diante do Málaga em La Rosaleda no meio: um categórico 3 a 0 na Real Sociedad, um arrasador 5 a 1 sobre o Celta e um tranquilo 3 a 1 contra o Burgos, que levou o time à quinta colocação.

A goleada memorável sobre o Barcelona

Embora a sequência terminasse com duas derrotas apertadas fora de casa para o Gijón e para o Atlético de Madrid, ambas por 1 a 0, o Castellón ainda mantinha o ótimo aproveitamento em casa e dele faria proveito para obter seu resultado mais memorável naquela campanha, ao receber o Barcelona no dia 8 de abril, pela 28ª rodada. Dirigido pelo holandês Rinus Michels (embora ainda não contasse com Johan Cruyff, que só chegaria na temporada seguinte), o time catalão liderava a competição, dois pontos à frente do Espanyol e da dupla de Madri, Real e Atlético.

Os “orelluts”, no entanto, estavam dispostos a surpreender e, após reclamarem um pênalti não marcado, abriram o placar aos 23 minutos com Clarés em cobrança de falta. E nos acréscimos do primeiro tempo, ampliaram após uma cobrança de escanteio. A defesa azul-grená saiu errado e Planelles, sozinho, fuzilou para as redes na pequena área. A retaguarda barcelonista voltaria a vacilar na etapa final: De La Cruz entregou a bola de presente para Tonín, que invadiu a área pela direita e bateu cruzado, com força, para vencer o goleiro Reina pela terceira vez.

Aos 26 minutos, a vitória já se convertia em goleada: após cobrança de escanteio, outra vez a zaga afastou mal e a bola sobrou para Planelles, que teve tempo de dominar e chutar de modo inapelável da pequena área para estabelecer o 4 a 0 em favor dos donos da casa, para o delírio da torcida local – e a revolta da visitante, que atirou os assentos no gramado, paralisando a partida por cerca de três minutos. E o placar terminou como estava.

Porém, a fase positiva que poderia aproximar o Castellón de uma vaga na Copa da Uefa acabou congelada ali. A equipe travou numa sequência de quatro empates em cinco jogos, perdendo a outra partida da série para o Valencia em casa (3 a 1), pondo fim a uma invencibilidade doméstica que já durava 13 jogos. Os resultados fizeram o time descer para o oitavo posto, e foi nessa situação que os comandados de Lucien Muller chegaram para a última rodada.

A vontade de coroar a campanha com uma grande atuação de sua torcida para apagar a decepção da derrota para o Valencia e também a expectativa de voltar a subir na tabela se traduziram numa exibição categórica do Castellón diante de um Betis que, embora estivesse duas posições acima da zona de rebaixamento ao início da rodada, corria sério risco de queda. E foi o que aconteceu, embora um empate sem gols na primeira etapa tivesse deixado tudo indefinido.

Mas nos 45 minutos finais, o time da casa deslanchou e abriu 3 a 0, com gols de Del Bosque (logo no primeiro minuto), Clarés e do reserva Ortuño. Os andaluzes descontaram no fim, mas nunca chegaram a ameaçar uma reação e acabaram condenados. Do lado dos “orelluts”, a combinação de resultados foi bastante feliz: o time voltou a pular para o quinto posto, ultrapassando Valencia, Málaga e Athletic Bilbao de uma vez só e confirmando a colocação histórica.

Campanha histórica também na copa

A quinta colocação infelizmente não se traduziu em vaga na Copa da Uefa: Barcelona, Espanyol e Real Madrid ficaram com as três que cabiam ao país, enquanto o Atlético de Madrid, vencedor da liga, foi para a Copa dos Campeões. Mas ainda havia outra vaga em disputa, a da Recopa, preenchida pelo time que conquistasse a Copa del Generalíssimo (em uma das últimas edições sob esse nome, antes da troca do regime político espanhol).

E o Castellón se tornou um dos candidatos após emendar a bela campanha na liga com outra histórica na copa. O time entrou na disputa ainda em fevereiro de 1973, na quinta fase, batendo o Valladolid, da segunda divisão, por 5 a 0 em casa antes de perder pelo placar mínimo na volta. A competição seguiria após o encerramento da liga, a partir das oitavas de final. E o adversário seria o vizinho Valencia. Após um duplo 0 a 0 em 180 minutos, o jogo da volta no estádio Luís Casanova (atual Mestalla) foi para a prorrogação.

A 12 minutos do fim do tempo extra, o reserva Causanilles foi lançado, avançou com a bola dominada e tocou tirando do alcance do goleiro Balaguer. Foi o gol da vitória, da classificação e sobretudo da revanche pela derrota sofrida para os Ches em casa pela liga, menos de um mês antes. Classificado para as quartas, o time voltou a fazer o Bétis sofrer, goleando os andaluzes por 4 a 0 na partida de ida (com direito a tripleta de Clarés) perdendo apenas por 2 a 0 na volta.

Nas semifinais, o Gijón foi batido em ambas as partidas: 2 a 0 no Castalia e 1 a 0 em El Molinón, com Planelles marcando todos os três gols e carimbando o passaporte para uma final inédita do torneio. A decisão seria em jogo único em campo neutro, o Vicente Calderón, no dia 29 de junho de 1973. O adversário seria o Athletic Bilbao. E o Castellón contaria com a torcida de mais de 15 mil “orelluts” que viajaram até Madri para apoiar o alvinegro.

Infelizmente para aquele grande contingente, o time sentiu a pressão da ocasião e, nervoso, foi presa relativamente fácil para os Leones, que venceram por 2 a 0 (gols de Arieta e Zubiaga, um em cada tempo) e levantaram a taça, garantindo ainda a vaga na Recopa. Mas a derrota não impediu uma recepção bastante acolhedora aos jogadores do Castellón na volta para casa, num reconhecimento dos grandes feitos de uma temporada inesquecível.

Final da Copa entre Castellón e Athletic Bilbao
O “dia seguinte”: convocações, desmonte e decadência

Para Planelles, a temporada seria ainda mais especial por marcar a primeira de suas duas partidas com a seleção espanhola, num amistoso contra a Holanda em Amsterdã em maio. Mais tarde, em outubro, ele voltaria a vestir a camisa da Espanha em amistoso contra a Turquia, o mesmo em que Clarés faria seu único jogo pela seleção. Naquela altura, porém, Planelles já havia sido negociado com o Valencia. E Clarés, ao fim da temporada 1973/74, seguiria para o Barcelona.

Outro que deixou o Castellón logo após a temporada histórica juntamente com Planelles foi Vicente Del Bosque, que voltou ao Real Madrid e foi definitivamente incorporado ao elenco merengue, no qual permaneceria pelas próximas 12 temporadas, quase todas como titular e um dos homens-chave da equipe, levantando cinco ligas e quatro copas. Seria ainda parte da seleção entre 1975 e 1980, disputando neste último ano a Eurocopa na Itália.

Naturalmente, o Castellón não resistiu à perda de seus dois principais jogadores, embora reforços tenham chegado para tentar compensar as ausências. O time seria rebaixado logo na temporada seguinte, após uma derrota para a Real Sociedad na última rodada. Voltaria à elite para mais uma temporada em 1981/82 e, por fim, outras duas em 1989/90 e 1990/91. Dali em diante, porém, oscilou entre a segunda e a terceira divisões, chegando a cair para a quarta em 2011, e de onde só saiu na última temporada, promovido de volta à Segunda B.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.