A Conmebol anunciou nesta terça-feira a punição ao Santos pela escalação irregular de Carlos Sánchez. Depois de um longo julgamento, que deveria ter sido concluído nesta segunda-feira e se estendeu por mais um dia, a entidade internacional assegurou a vitória por 3 a 0 ao Independiente pela utilização indevida do uruguaio no jogo de ida das oitavas de final da Copa Libertadores. Os santistas erraram ao utilizar o jogador e acabam sofrendo uma pena da qual dificilmente escapariam. No entanto, em um cenário que só enfatiza a bagunça que impera na Conmebol.

Que a Conmebol não é exemplo de entidade administrativa, isso está claro há décadas. A negligência da confederação sul-americana está arraigada em suas práticas, virando as costas para entraves evidentes em suas competições e deixando sempre margem para a suspeita de corrupção. Contudo, nos últimos meses, os dirigentes locais têm se superado. Desde a punição aplicada à Chapecoense na Libertadores de 2017, são quatro episódios de irregularidades na escalação envolvendo seus dois principais torneios. Custando quase sempre a eliminação das equipes envolvidas.

Nos dois episódios já concluídos, Chapecoense e Deportes Temuco se despediram das competições por conta das derrotas no tapetão. O Santos ainda precisa de um milagre nesta terça-feira. O suado empate por 0 a 0 em Avellaneda não serviu de nada e agora o Peixe deverá reverter os 3 a 0 na Pacaembu. Já o caso mais aberto é o do River Plate. Os millonarios escalaram o suspenso meio-campista Bruno Zuculini em nada menos que sete jogos nesta Libertadores. O erro foi descoberto apenas depois e a Conmebol precisou admitir a própria incompetência, já que os argentinos possuíam uma resposta oficial da entidade afirmando que ele estava livre para atuar. Os resultados seguem válidos e o atleta só deverá cumprir o gancho de dois jogos, mas sob a promessa de uma batalha judicial movida pelo Racing.

O Santos se defendeu dizendo que o sistema de suspensão usado pela Conmebol não registrava o gancho de Carlos Sánchez. Segundo o mecanismo, o uruguaio tinha sido absolvido em maio – sem nenhum motivo aparente para isso. Entretanto, o próprio regulamento disciplinar da Conmebol lava as suas mãos prevendo falhas. Ele atribui a responsabilidade aos clubes, sem que seu sistema precise informar a suspensão. Assim, o Peixe falhou ao não fazer como o River Plate e deixar uma consulta formal registrada junto à entidade. Não se nega sua culpa. Mas, de resto, há uma pura e simples ingerência da confederação sul-americana, por conta de sua falta de transparência e de suas próprias falhas.

Há ainda outras discussões inerentes, como o joguete político nos corredores da Conmebol. Isso sempre pesou na competição internacional. E numa queda de braço envolvendo Santos, enfraquecido pela CBF, ou Independiente, com trânsito fortíssimo no comando do futebol argentino e sul-americano, parecia mesmo provável que a corda arrebentaria no lado mais fraco – como sempre. Por um momento, a confederação até pareceu querer retardar o seu julgamento para depois do jogo, tentando aproveitar o ocorrido em campo para determinar a sua decisão e, assim, ter um álibi conforme o placar – algo que, por exemplo, já aconteceu em outros momentos da entidade. Ao final, a posição saiu, horas antes da partida. O Santos terá pouco tempo para se preparar animicamente e tentar reverter o resultado.

Além do mais, é muito provável que a Libertadores 2018 se arraste por anos, ao menos na justiça. O Santos promete recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte, que tende a levar alguns meses para chegar ao veredito. O mesmo pode acontecer com o Racing, que se sente prejudicado com a decisão relacionada ao River Plate sobre a escalação de Zuculini. Faz com que alguns jogos possam se tornar simplesmente inúteis por algo banal. Um erro de Excel, num futebol que cada vez mais abraça o VAR e outras tecnologias. O que acontecer em campo prevalecerá, independentemente do que o TAS diga depois. No entanto, fica a mancha.

Há um asterisco que sempre acompanhará a Libertadores 2018. Se a punição é prevista pelo regulamento, que seja aplicada. E não se nega que, por uma certa dose de ingenuidade, o Santos paga o preço por confiar na Conmebol. Contudo, cada vez fica mais claro que há uma série de entraves internos, que tornam o problema recorrente. O lado esportivo só perde. É impressionante como uma das competições mais fascinantes do planeta acaba boicotada por aqueles mesmos que deveriam fortalecê-la.

E aí qual o moral da Conmebol para aplicar qualquer punição ou exigir mais dos clubes? Um exemplo dos mais absurdos aconteceu no próprio Santos x Independiente. O clube argentino, que nos últimos meses teve diversos episódios de racismo envolvendo sua torcida em encontros com brasileiros, publicou uma cartilha sobre a viagem a São Paulo e orientou que “não comentam atos racistas por ser um delito e por render uma penalização econômica ao clube”. Passam o pano a uma questão seríssima, temendo as consequências, e não combatendo as causas. Mas então, quem poderia cobrar uma postura mais enérgica do Independiente? Não parece ser a Conmebol, essa entidade que sequer sabe organizar uma planilha e destrói a credibilidade de seu próprio torneio. Que, mais do que isso, já ignorou casos de racismo anteriores e dá brechas a tal contemporização.

Por fim, vale dizer ainda que os clubes têm sua parcela de responsabilidade por serem reféns de uma entidade como a Conmebol. Há uma pirâmide de poder em que os próprios dirigentes das equipes são as bases, mantendo um sistema que envolve troca de favores e desejo por ascender na escala. Enquanto a permissividade permanece na CBF, ela se reflete na Conmebol, e mais em um momento no qual os cartolas brasileiros perdem força – não por se contraporem ao sistema, mas por se afundarem nas próprias relações. A falta de voz do Santos na entidade continental é apenas a casca. O miolo está no joguete político em que dirigentes apenas se retroalimentam e não exigem o mínimo de competência e qualidade na gestão. Incompetência da Conmebol à parte, também fica meio tarde para reclamar de problemas que não vêm de hoje.


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