A Itália faz parte do Boca Juniors desde suas origens. O bairro portuário de La Boca, afinal, era um reduto de muitos imigrantes italianos que chegavam a Buenos Aires. Grande parte desta comunidade vinha da Ligúria, vários deles da cidade de Gênova. E justamente uma corruptela do termo “genovês” é que ainda hoje denomina os boquenses: o apelido “xeneize”. Se as raízes italianas foram percebidas na Bombonera de tantas outras formas, incluindo até mesmo os “oriundi” que abraçaram a ascendência para defender a Azzurra, a partir desta semana o clube ganha uma nova bandeira para exibir em campo: Daniele de Rossi chegou ao Boca. O novo reforço da equipe não foi anunciado oficialmente por mero charme da diretoria. As imagens do volante já tomam as redes sociais do clube. Nesta quinta, ele conheceu as instalações, conversou com os companheiros e até participou do primeiro treinamento. A confirmação só não está assinada no papel.

O namoro do veterano com o time argentino se alongou durante as últimas semanas, desde a questionável decisão da Roma em não renovar o contrato de seu capitão, após 18 anos como profissional do clube. Um ex-romanista, aliás, se tornou fundamental nas tratativas: antigo companheiro de De Rossi, Nicolás Burdisso agora atua como diretor esportivo do Boca Juniors. O ex-zagueiro entrou em contato com o meio-campista e conseguiu convencê-lo que mudar-se a Buenos Aires seria uma boa. Aos 36 anos, o italiano terá a chance de disputar a Copa Libertadores. E a própria admiração do campeão do mundo pelos xeneizes pesou.

De Rossi assinará seu contrato nesta sexta-feira. Firmará vínculo por um ano, com cláusulas que podem antecipar o término. Realizou os exames médicos nesta quinta em Buenos Aires e fará um trabalho físico específico durante as próximas semanas. O volante será convidado de honra na Bombonera no domingo, quando os xeneizes estreiam no Campeonato Argentino 2019/20 contra o Huracán. Porém, só deverá estrear em meados de agosto – provavelmente diante do Almagro, pela Copa Argentina. Mas, se dependesse de sua vontade, entrava em campo o quanto antes. A apresentação oficial na Bombonera está prevista para segunda.

Conforme o jornal La Nación, De Rossi parecia uma “criança com seu brinquedo novo” ao visitar La Boca nesta quinta. Prestou sua reverência à estátua de Maradona e, mesmo sob chuva, quis participar de uma atividade reduzida com os atletas que não entraram em campo durante a vitória sobre o Athletico Paranaense pela Libertadores. “Caminhamos juntos pela Bombonera e começamos a sentir o calor do povo de perto. De Rossi tinha viajado a noite toda e devia estar cansado, mas me encontrei com uma pessoa que tinha vontade de treinar junto de seus companheiros. Nota-se que está no lugar que deseja”, relatou Christian Gribaudo, secretário-geral do Boca, ao La Nación. “De Rossi chegou para qualificar ainda mais o time. A decisão fala sobre seus valores pessoais, mas também sobre o que o Boca representa como instituição: além da paixão, há um clube com respaldo, que consegue trazer uma estrela dessa magnitude”.

Entre as opções à sequência de sua carreira, a permanência na Itália parecia improvável a De Rossi, por conta de sua história na Roma – apesar do interesse de clubes como o Milan e a Fiorentina. Também poderia buscar uma qualidade de vida melhor nos Estados Unidos e aproveitar o ritmo menos intenso da MLS, diante das ofertas dos americanos. Cogitava até mesmo a aposentadoria, o que parecia provável antes do acerto com os argentinos. Contudo, a escolha pelo Boca Juniors ressalta o espírito competidor do veterano e até mesmo certo romantismo ao seu redor, privilegiando um clube reconhecido pela sua intensidade. A mudança a Buenos Aires, em partes, também é um acréscimo à sua própria imagem como jogador, em um ambiente tão passional.

A decisão de De Rossi, ao final, vai ao encontro de algo que ele declarou já em maio de 2018, durante entrevista à Fox Sports: “Meu coração é da Roma, mas gosto muitíssimo do Boca. Comecei a ver o Boca quando era pequeno, por Maradona e pelo estádio. Eu me apaixonei pela Bombonera e pelos torcedores, que são muito passionais. Eles me fazem chorar. […] O Boca tem bons jogadores e não necessita de mim. Mas, em um futuro longe da Roma, penso em buscar uma experiência diversa. Sempre cogitei ir à América, subir as escadas e entrar na Bombonera. Jogar no Boca seria um prazer”. Pouco mais de um ano depois, eis que a oportunidade surge.

Companheiro de De Rossi na Roma e torcedor do Boca Juniors, Leandro Paredes também afirmou que o interesse do veterano pelo clube argentino é antigo. “Daniele é maluco pela ideia de vestir a camisa do Boca. Não estou brincando. Quando ele estrear, quero estar nas arquibancadas. Desde o momento em que cheguei na Roma, Daniele me perguntava sobre o Boca. Ele é apaixonado pelos torcedores e pelo clube. Sempre que tínhamos uma oportunidade, assistíamos aos jogos juntos. Jogar no Boca é um sonho para ele, estará muito feliz. Tem o perfil ideal ao que o time deseja. Se estiver em boas condições físicas, não acho que terá problemas em se adaptar ao futebol argentino”, afirmou Paredes, ao TyC Sports. Agora, o italiano poderá sentir tudo isso à flor da pele.

O que o Boca ganha com De Rossi

Esportivamente, De Rossi já deve agregar bastante ao Boca Juniors. O meio-campista vinha perdendo espaço na equipe titular da Roma e a idade compromete as suas condições físicas. Ainda assim, se utilizado pontualmente, qualidade não será problema para dominar a faixa central dos xeneizes. A combatividade do veterano sempre foi uma de suas marcas fundamentais, assim como a sua capacidade na saída de jogo. E, em um nível de exigência mais baixo dentro do futebol argentino, tende a se sobressair. Questão maior é o ajuste do time, que oscila sob as ordens de Gustavo Alfaro.

Mais importante que suas virtudes como atleta, porém, está o caráter de De Rossi. Que se limite a apenas alguns meses, a experiência do antigo capitão da Roma e da Azzurra impõe inegavelmente um respeito, seja nos vestiários ou mesmo em campo. Em um momento de reformulação do Boca Juniors, é um cara para servir de referência. E a própria atitude do volante se transforma em ganho aos xeneizes. O italiano parece ter o espírito perfeito para se colocar como um ídolo na Bombonera, mesmo que efêmero.

O casamento de De Rossi com o Boca Juniors, inclusive, suscita a própria mística do clube. Durante os últimos anos, os boquenses namoraram com alguns ídolos italianos. Roberto Baggio se diz torcedor do clube, enquanto houve certa especulação quando Gianluigi Buffon deixava a Juventus, dada a sua relação com Carlos Tevez. O volante, acima de ambos os compatriotas, é um cara que absorve o entendimento sobre o estilo de jogo xeneize: um marcador implacável, que chega firme nas divididas e sempre demonstra muita vontade em vestir a camisa. É a essência que tantas vezes se nota na Bombonera, e que ganha um representante de fora, mas que parece moldado a isso.

Até por essa ligação, De Rossi deve fazer ainda mais sucesso à exposição e à mídia do Boca Juniors. O interesse sobre a transferência não acontece apenas por ser um jogador de elite da Europa, mesmo que em fim de carreira, e sim por suas características dentro do contexto sul-americano. Se os argentinos terminarem de cumprir sua missão contra o Athletico Paranaense, o volante poderá se apresentar em meio ao furor da Copa Libertadores. Será uma grande história a se contar e que, no fim das contas, reforça a marca dos boquenses no exterior. Certamente o clube ganhará em cobertura da imprensa internacional, em venda de camisas e mesmo na possibilidade de realizar ações de marketing em outros continentes.

A viagem de De Rossi rumo à Argentina já causou um enorme alvoroço, tanto na despedida em Roma quanto no recepção em Buenos Aires. Não é uma mera questão de “eurocentrismo”. É a importância de um jogador que se eternizou pela dedicação ao seu clube de coração e que, agora, poderá escrever um apêndice à sua história no futebol com outra camisa pesada. Inicialmente, o negócio é um caso circunstancial, como foi a passagem de Seedorf pelo Botafogo. Entretanto, o sucesso na empreitada pode também ajudar a América do Sul a entrar como destino de grandes jogadores. Que a disparidade econômica atual mantenha alijado o ápice técnico dos principais craques sul-americanos, a contratação de um cara como De Rossi garante uma boa história. Adiciona paixão, esse elemento que cada vez mais serve para mover o futebol por essas bandas. É esse o fator vital ao redor de toda essa novela.