O caos no Cruzeiro é geral, mas fica ainda mais difícil de caminhar sem estabilidade em campo

Desde o início da Série B, estava claro como o Cruzeiro não teria a vantagem de outros gigantes do futebol brasileiro que acabaram rebaixados pela primeira vez. Os seis pontos de punição da Fifa pesavam contra os celestes e, ainda que o elenco seja mais caro que a maioria dos concorrentes, não tinha a superioridade expressa em outros rebaixamentos de grandes. A realidade, entretanto, é pior que as perspectivas cautelosas poderiam indicar. O início da Raposa na segundona é muito ruim e, na espiral de tropeços, a demissão do técnico Enderson Moreira se tornou um passo compreensível neste momento.

A chegada de Enderson Moreira se sugeria como uma correção de rota, após a manutenção de Adílson Batista no início de 2020. O casamento até parecia com potencial, especialmente pelo esforço de Enderson para assumir os celestes. O treinador deixou seu trabalho no Ceará e fez uma longa viagem durante o início da pandemia para começar seu período na Toca da Raposa, declarando a empreitada como um desejo pessoal. Mas toda a vontade do comandante para que a história desse certo não se refletiu em campo. Os resultados logo desapareceram.

A eliminação precoce no Campeonato Mineiro nem era muito problema de Enderson e não se tornava prioritária neste momento caótico do Cruzeiro, até pelos resultados positivos na reta final da campanha. O acesso na Série B é a grande missão, até para que a crise não se aprofunde com mais um ano longe da elite. Apesar dos seis pontos negativos, o início de caminhada foi animador, com três vitórias consecutivas. Mas aí vieram as atuações fracas e a posição cada vez pior na tabela. A eliminação diante do CRB na Copa do Brasil era uma pressão a mais sobre o técnico, além do próprio futebol sofrível. E no reencontro com os alagoanos na Segundona durante este feriado, o empate culminou na sexta partida consecutiva sem vencer. O bilhete azul era óbvio.

Que a demissão de Enderson Moreira parecesse inescapável, a um trabalho que não engrenou (apesar do pouco tempo), a culpa está longe de se concentrar no treinador. Passa muito pelo elenco, com uma dose de apatia e erros crassos, com baixo rendimento sobretudo no ataque. Nem mesmo os antigos ídolos se salvam das críticas, pela maneira como não assumem a responsabilidade em meio a essa crise. E, logicamente, a bomba tem participação ativa da diretoria. Não só desta atual, considerando a herança podre dos antecessores, embora escolhas ruins se notem nas últimas semanas – seja na montagem do elenco ou na própria gestão do grupo. O presidente Sérgio Santos Rodrigues até deu a cara à tapa, o que não foi feito pelos diretores Ricardo Drubscky e Deivid.

O afastamento de jogadores às portas do jogo contra o CRB é um sinal claro dos problemas, com Enderson passando a responsabilidade aos seus superiores. Não é a melhor maneira de lidar com os ânimos dos atletas horas antes de uma partida importante. Que o Cruzeiro precise realmente mudar o espírito de seu time, não fez isso de forma aceitável. E, considerando ainda os embargos no mercado e as próprias limitações atuais na Toca da Raposa, os celestes não podem esquecer como dependem bastante do grupo atual.

Numa edição equilibrada da Série B, o Cruzeiro não entrou na disputa com um elenco tão superior ao de seus concorrentes. O renome não parecia garantia suficiente de sucesso e mesmo o vizinho América Mineiro se mostrava mais preparado a lutar pelo acesso. Mas não é isso que diminui o peso do desempenho ruim da Raposa. Os jogadores não pareceram abraçar a proposta de Enderson Moreira e a falta ao menos de uma postura mais aguerrida atravanca os celestes. Que a equipe tenha suas carências, se percebe uma estagnação, como se não desse para fazer mais nas atuais condições. E a série em jejum reforça tal impressão.

O Cruzeiro precisa confiar em muitos jogadores da base e outros tantos atletas que dificilmente passariam na porta da Toca da Raposa em outros momentos do clube. Mas não é que o elenco possui tamanha inferioridade, a ponto de ser ameaçado pelo rebaixamento, como acontece agora. Fábio, Léo, Henrique e Marcelo Moreno não apresentam o que podem, quando deveriam tomar as rédeas e representar o espírito do time. O desgoverno se reflete repetidamente nas últimas semanas. E são eles que precisarão aparecer mais, independentemente de quem será o técnico.

Não bastasse toda a falta de perspectivas, o Cruzeiro parece fazer questão de virar piada. A sondagem a Rogério Ceni tinha uma única resposta e o “não” dado pelo treinador o faz ficar ainda mais por cima depois da passagem turbulenta em 2019. Neste momento, as especulações mais fortes giram ao redor de Ney Franco, que estava no Goiás. É um técnico com muitos poréns, apesar da própria relação com o Cruzeiro desde a base. Que o mercado não ofereça tantas opções, esperava-se um nome mais forte ou pelo menos um olhar que fugisse do lugar-comum.

O futebol, neste momento, nem é o maior dos problemas do Cruzeiro. As dívidas exorbitantes e o longo trabalho para contornar a crise são as urgências na Toca da Raposa. Mas não há como ter paz quando o próprio fantasma da Série C dá as caras no clube. O papel dos cruzeirenses é torcer. Desta vez, não apenas por bons resultados dentro de campo ou um time mais consciente sobre a forma como precisa lutar. Também precisa torcer por boas decisões do lado de fora e, mesmo com as trocas na gestão, isso não parece tão simples. Arrancar ao acesso já começa a exigir um trabalho hercúleo e não oferece margem aos erros.