Ali bem na metade da década de 1980, a seleção masculina de futebol do Canadá viveu um dos melhores momentos de sua história, senão o melhor. Saindo de longa hibernação histórica no esporte, os Canucks emendaram uma ótima e surpreendente participação nos Jogos Olímpicos de Los Angeles com a conquista da Copa da Concacaf – que, por sua vez, levou ainda à sua única presença numa Copa do Mundo. É hora de relembrar aquela curiosa equipe.

A PRÉ-HISTÓRIA DO ‘SOCCER’ NO PAÍS

Devido à forte influência britânica, presente no país desde meados do Século XVIII, o Canadá foi um dos primeiros territórios fora das Ilhas Britânicas ao qual o futebol foi levado. Há relatos de que ele tenha sido praticado ainda em 1870, menos de uma década após codificação das regras no país onde o esporte nasceu. Tempos depois, em 1885, um combinado canadense entraria em campo no que seria extraoficialmente a primeira partida da seleção nacional.

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Em 1904, os Jogos Olímpicos de Saint Louis, nos Estados Unidos, contaram com um torneio de exibição do futebol, modalidade na época ainda não incluída no programa olímpico. Naquela ocasião, um escrete canadense representado pelo Galt FC (extinto clube do estado de Ontario) sagrou-se campeão derrotando duas equipes dos Estados Unidos. Mas a seleção do Canadá só teria sua estreia oficial em 1924 – e entraria em quase hibernação logo depois.

Com a equipe reunida apenas de tempos em tempos, o país entrou e saiu da Fifa, o time chegou a ficar 20 anos sem jogar e disputou apenas as Eliminatórias para a Copa do Mundo da Suécia, em 1958. Até retomar sua atividade regular ao ser formado para jogar a fase classificatória para o Mundial do México, caindo na etapa inicial. Também não foi longe no torneio preliminar da Copa da Alemanha Ocidental, mas ao menos a frequência de jogos aumentara.

Em 1976, com os Jogos Olímpicos sediados em casa, em Montreal, a equipe foi de novo reunida, sob o comando do alemão Eckhard Krautzun. Mas a inexperiência fez os Canucks perderem os dois jogos para União Soviética e Coreia do Norte. Logo em seguida, um ligeiro progresso foi notado nas Eliminatórias para o Mundial da Argentina, na qual a seleção chegou ao hexagonal decisivo. E em 1979, o país participaria do Mundial de Juniores disputado no Japão.

Alguns nomes que logo participariam dos grandes momentos do futebol do país em meados dos anos 1980 já despontavam naquele torneio de base, como o zagueiro Ian Bridge, os meias Gerry Gray e Mike Sweeney e o atacante Branko Segota. Os canadenses foram a sensação da primeira rodada, ao baterem Portugal por 3 a 1. Nos jogos seguintes, porém, perderam para a Coreia do Sul (1 a 0) e para o Paraguai de Romerito (3 a 0), caindo na fase de grupos.

Em nítida evolução, a seleção principal quase se classificou para a Copa do Mundo da Espanha: no turno final disputado em Honduras, bastava aos canadenses vencer Cuba e torcer para que a dona da casa (líder e já garantida no Mundial) tirasse ponto dos mexicanos. Mas os Canucks não fizeram sua parte, parando num 2 a 2 com os caribenhos. Com o sonho de novo adiado, o técnico Barrie Clarke (que também comandara o time sub-20) deixou o cargo.

Quando a seleção voltou à atividade após um 1982 sem jogos oficiais, tinha novo comandante: Tony Waiters, um inglês de 43 anos que iniciaria uma revolução no futebol local. Ex-goleiro de certa reputação em seu país, Waiters havia se destacado defendendo a meta do Blackpool, onde atuou por oito temporadas, e chegara a fazer cinco jogos pelo English Team – um deles contra o Brasil no Maracanã pela Taça das Nações de 1964.

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Após pendurar as luvas em 1972 no Burnley, assumiu o cargo de técnico do Plymouth Argyle, então na terceira divisão inglesa, e levou o clube ao título da categoria dali a três anos. Em 1977, foi convidado a cruzar o Atlântico para dirigir o Vancouver Whitecaps. Dois anos depois, levou a equipe ao título da NASL, batendo o Tampa Bay Rowdies no Soccer Bowl, depois de ter despachado o galáctico New York Cosmos na decisão da Conferência Nacional.

O bom currículo e a vivência do jogo local o credenciaram ao posto, e ele logo iniciou um processo de renovação no time. Promoveu vários jovens sem deixar de lado alguns veteranos de confiança, como o lateral-direito Bob Lenarduzzi, seu jogador nos Whitecaps e um dos principais jogadores da equipe. Após várias séries de amistosos dentro e fora do país contra México, Honduras e Escócia, o time começou a se preparar para o torneio pré-olímpico.

Depois de eliminar com facilidade a seleção de Bermudas e derrotar o México num jogo extra, em Fort Lauderdale, o Canadá garantiu a vaga nos Jogos de Los Angeles ao terminar em segundo no triangular decisivo contra Costa Rica (que também se classificou) e Cuba, disputado em turno e returno em março e abril de 1984. Oito anos depois, os Canucks voltavam ao torneio olímpico, mas desta vez levando a vaga em campo e com um time menos ingênuo.

BRILHANDO NOS JOGOS DE LOS ANGELES

Aquele torneio foi marcado pela retaliação dos países alinhados à União Soviética ao boicote promovido pelos Estados Unidos (e seus aliados) aos Jogos de Moscou, quatro anos antes. Além das desistências de última hora, a elegibilidade dos jogadores também foi muito discutida. Até que se decidiu admitir, pela primeira vez, atletas de futebol profissionais, exceto europeus e sul-americanos que já tivessem jogado partidas de Copa do Mundo.

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No torneio que se iniciaria no fim de julho de 1984, o Canadá foi sorteado no Grupo B, que incluía Iugoslávia, Camarões e Iraque e, ironicamente, foi sediado bem longe de Los Angeles, mais exatamente em Boston e Annapolis, na costa leste norte-americana. Os favoritos da chave eram destacadamente os iugoslavos treinados por Ivan Toplak, que trouxeram atletas que haviam participado da Eurocopa disputada na França, no mês anterior.

Entre os vários nomes balcânicos que ganhariam destaque, estavam o goleiro Tomislav Ivkovic, o volante Srecko Katanec e o armador Dragan Stojkovic. Já a seleção de Camarões também era bastante experiente: beneficiada pelo novo regulamento, trouxe nada menos que dez jogadores que haviam estado na Copa da Espanha, dois anos antes. Entre eles, o goleiro Joseph-Antoine Bell, o defensor Emmanuel Kundé e o atacante Roger Milla.

O Iraque, que havia chegado às quartas de final do torneio olímpico de Moscou, também tinha seus destaques, como o experiente goleiro Raad Hammoudi e o meia-atacante Hussein Saeed. Curiosamente, seria outra seleção que, junto com os canadenses, disputaria sua única Copa do Mundo dali a dois anos, no México e incluiria vários dos atletas que atuaram em Los Angeles, mas comandados então pelo brasileiro Evaristo de Macedo.

A estreia dos Canucks seria exatamente contra os iraquianos, no dia 30 de julho, no estádio da Universidade Harvard. O time que entraria em campo com sua equipe-base ao longo de toda a competição. Começava pelo experiente goleiro Martino “Tino” Lettieri, nascido em Bari, na Itália, e criado no Canadá. Nos jogos da liga local, ele costumava levar consigo um papagaio empalhado, apelidado Ozzie, o qual deixava dentro do gol, como amuleto.

Nas laterais, dois outros veteranos, mas de estilos distintos: enquanto pela direita Bob Lenarduzzi (que chegara a defender o Reading, na liga inglesa, no início dos anos 1970) era mais defensivo, um marcador duro, do outro lado o capitão Bruce Wilson ainda mantinha o vigor no apoio aos 33 anos. No miolo de zaga, Ian Bridge atuava como líbero, um pouco mais atrás do central Terry Moore, nascido no Canadá, mas criado na Irlanda do Norte.

No meio-campo, a proteção defensiva ficava a cargo de Randy Ragan e do galês de nascimento Paul James, que eram dinâmicos o bastante para também ajudarem na organização. Um pouco mais à frente, jogava o habilidoso Gerry Gray, nascido na Escócia, atleta do New York Cosmos e principal armador da seleção. Aberto pelo lado direito, o também armador Mike Sweeney completava o setor como uma espécie de desafogo do time.

A dupla de ataque deste 4-4-2 simples de Tony Waiters contava com o perigoso centroavante Dale Mitchell – que logo se tornaria o maior artilheiro da história da seleção, recorde que só perderia em 2012 – e o jovem Igor Vrablic, nascido na antiga Tchecoslováquia e usado naquele momento como um jogador de mais movimentação no setor. O meia escocês naturalizado David Norman e os atacantes Ken Garraway e John Catliff também jogaram.

No primeiro jogo, o time saiu na frente do Iraque com um gol de Gerry Gray aos 25 minutos da etapa final, mas não conseguiu segurar o resultado e Hussein Saeed empatou a partida a sete minutos do fim. A Iugoslávia, que vencera Camarões de virada por 2 a 1 na estreia, seria a segunda adversária e voltaria a vencer. Mas os canadenses venderam caro a derrota por 1 a 0, vinda num gol de Jovica Nikolic, após Lettieri rebater um chute de Dragan Stojkovic.

Na última rodada seria a vez de enfrentar os camaroneses, que haviam batido o Iraque e agora precisavam só de um empate (contanto que os asiáticos não derrotassem os iugoslavos). Mas os canadenses arrancariam a vitória com uma grande atuação. Dale Mitchell abriu o placar pouco antes do intervalo e Igor Vrablic ampliou aos 27 minutos da etapa final. Os africanos tentaram reagir, descontando com Louis Mfédé. Mas Mitchell fecharia o placar aos 37.

Três dias depois, os canadenses cruzariam os Estados Unidos de uma ponta a outra, até Stanford, na Califórnia, onde teriam pela frente nada menos que o Brasil nas quartas de final. A Seleção do técnico Jair Picerni havia terminado na primeira colocação no Grupo C, vencendo seus três jogos contra Alemanha Ocidental, Marrocos e Arábia Saudita. A base da equipe era o Internacional, enxertada por jovens destaques de outros clubes brasileiros.

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Embalado, o Brasil não esperava encontrar dificuldades, mas depois de esbarrar no aplicado e sólido sistema defensivo canadense, viu o primeiro tempo terminar sem gols. E na etapa final, o Canadá é que abriu a contagem aos 13 minutos. Lenarduzzi recebeu na direita e alçou a bola à área. Mauro Galvão tentou cortar, mas ela sobrou para Vrablic, que cruzou de novo. Mitchell se aproveitou de uma furada na defesa para tirar a bola do goleiro Gilmar Rinaldi.

A Seleção Brasileira teria de esperar até os 27 minutos para empatar, desta vez numa falha da defesa do Canadá. O centroavante Kita desceu pela direita e cruzou rasteiro para a área. Ragan tentou afastar, mas chutou em cima do ponta Paulo Santos, e a bola sobrou para Gilmar Popoca. O meia do Flamengo girou e chutou meio caído, mas venceu Lettieri. Os canadenses ainda tiveram um gol anulado por impedimento, e o jogo foi para a prorrogação.

Sem movimentação no placar durante o tempo extra, a decisão da vaga nas semifinais foi para os pênaltis. E aí, para a tristeza dos Canucks, brilhou a estrela do goleiro Gilmar Rinaldi. Na primeira série, Bruce Wilson e Gilmar Popoca converteram. Na segunda, o camisa 1 brasileiro deteve o chute de Mitchell, antes de Kita marcar. Em seguida, Bridge também parou em Gilmar, enquanto o volante Ademir ampliava a vantagem do Brasil com um chute forte.

Na quarta cobrança, Gerry Gray mandou a bola para um lado e o arqueiro para o outro, mantendo acesa, de leve, a esperança canadense. Mas o lateral-esquerdo André Luís também converteria sua cobrança, decretando a vitória brasileira. A empolgante trajetória da equipe de Tony Waiters naqueles Jogos Olímpicos se encerrava ali. Mas ela seguiria em outras competições pelos anos seguintes. O sonho agora era a Copa do Mundo.

CAMPEÃO DA CONCACAF

Com a classificação direta do México por ser o país-sede, a única vaga na Copa em disputa pela região da América do Norte, Central e Caribe seria definida pelo Campeonato da Concacaf, que valeria também pelas Eliminatórias. Na fase preliminar, classificatória para o torneio regional, os canadenses nem precisaram entrar em campo devido à desistência da Jamaica. A falta de atividade, porém, passou a ser algo com que os jogadores teriam de conviver.

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Com o fim da North American Soccer League (NASL) – onde muitos jogadores da seleção atuavam, fosse em times do próprio país ou dos Estados Unidos – no fim de 1984, os atletas que não conseguiram se transferir para o futebol europeu ficaram relegados a disputar campeonatos de showball norte-americanos. Até entrar em cena o milionário ítalo-canadense Ed Cavalier, dono de uma empresa de computação, que injetou dinheiro na preparação da equipe.

Um ponto positivo (ou menos pior) da falta de atividade regular era que os atletas ficariam mais tempo à disposição do técnico Tony Waiters, ganhando coesão e entrosamento. Ao longo do ano de 1985, além dos jogos do Campeonato da Concacaf, a equipe disputou dez amistosos. E na fase inicial do torneio regional a classificação veio sem sustos, batendo duas vezes o Haiti por 2 a 0 e derrotando a Guatemala em casa (2 a 1) e empatando fora (1 a 1).

No triangular final da competição, o time estreou tendo que correr atrás do empate com a Costa Rica em Toronto (1 a 1), mas logo passou à liderança ao vencer Honduras em Tegucigalpa (1 a 0). Um novo empate com os costarriquenhos, agora em San José (0 a 0) ajudou a se manter na ponta. E quando Honduras bateu a Costa Rica em casa, a vaga ficou bem perto. Os Canucks receberiam os hondurenhos em St. John’s precisando penas do empate.

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Naquela altura, a seleção já contava com caras novas, como o goleiro Paul Dolan (que substituiu Lettieri na primeira fase das Eliminatórias), o zagueiro Randy Samuel (nascido em Trinidad e Tobago), o meia-atacante George Pakos e o ponteiro Carl Valentine, nascido em Manchester, na Inglaterra, e que atuava pelo West Bromwich Albion. Além destes, o armador David Norman, reserva do time olímpico, também conquistara um lugar entre os titulares.

E seria com uma jogada envolvendo dois desses novatos que o Canadá abriria o placar contra Honduras: Valentine bateu escanteio e, após confusão na área, Pakos chutou para vencer o goleiro Arzú. Os centro-americanos empataram no início da etapa final com Betancourt, dando um susto na torcida da casa. Mas pouco depois, em outro escanteio de Valentine, a bola foi desviada na primeira trave e chegou a Vrablic, que escorou para as redes.

Com o título regional conquistado e a vaga na Copa do Mundo enfim assegurada, o time retomou a preparação. Mas o sorteio dos grupos, realizado em 15 de dezembro de 1985, não foi nem um pouco animador: o Canadá teria pela frente três seleções europeias consideradas fortíssimas. A começar pela França campeã europeia, semifinalista do Mundial anterior e candidata ao título desta vez, liderada em campo por Michel Platini, tricampeão da Bola de Ouro.

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Havia ainda a Hungria, candidata a sensação da Copa, que havia despachado Holanda e Áustria nas Eliminatórias e obtido grandes resultados nos amistosos de preparação. E a União Soviética, baseada quase toda no Dinamo Kiev campeão da Recopa, e que vinha forte apesar da turbulenta troca de treinador às vésperas do Mundial. Diante disso, o Canadá era a seleção menos cotada nas bolsas de apostas de Londres (1000 para 1) entre as 24 equipes do torneio.

Em relação ao elenco que disputara as Eliminatórias, a lista de convocados para a Copa trazia poucas novidades. As maiores eram o retorno do meia Gerry Gray, que havia sido titular do time olímpico, mas não disputara o torneio da Concacaf, e a chance ao atacante Branko Segota, nascido na Iugoslávia e que havia despontado no Mundial de Juniores de 1979, mas ficara de fora tanto dos Jogos de Los Angeles quanto do campeonato regional.

A ÚNICA CAMPANHA MUNDIALISTA

A estreia na Copa, no dia 1º de junho, em León, foi contra os franceses, cujo técnico Henri Michel se mostrava despreocupado: “Só os temeria se fosse um torneio de hóquei no gelo”, afirmou. No entanto, e mesmo com todos os seus astros, os Bleus sofreram muito mais do que o esperado. O Canadá entrou com Paul Dolan no gol; Lenarduzzi, Bridge, Samuel e o capitão Wilson na defesa; Ragan, James, Sweeney e Norman no meio; e Valentine e Vrablic na frente.

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Para quem esperava uma goleada dos campeões europeus, o jogo começou com muitas chances de gol de ambos os lados. Depois, apesar de tomarem conta da partida aos poucos, os franceses esbarraram na marcação cerrada canadense, na própria falta de pontaria e de sorte e nas ótimas defesas de Paul Dolan, substituto de Lettieri. E só conseguiram sair do sufoco aos 34 minutos da etapa final, quando Papin escorou cruzamento de Stopyra para anotar o gol do jogo.

Apesar da boa partida de Dolan contra a França, Lettieri voltaria ao gol canadense no segundo jogo, contra a Hungria no dia 6, sob um sol de meio-dia em Irapuato. Tony Waiters também fez uma troca no meio: saiu Mike Sweeney e entrou Gerry Gray. Humilhados pela União Soviética com um 6 a 0 na estreia, os magiares entraram mordidos e abriram o placar logo aos dois minutos. Mas contando com a sorte, que desta vez jogou contra os canadenses.

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O atacante Kiprich foi lançado na ponta direita e tentou um cruzamento rasteiro, mas a bola bateu em David Norman e sobrou para Esterházy, que chutou num espaço mínimo entre Lettieri e a trave. O Canadá tentou a reação e perdeu algumas boas chances no segundo tempo: um tiro forte de Branko Segota cobrando falta, um chute desajeitado de Norman, uma cabeçada perigosa do mesmo Segota e uma boa jogada individual de Vrablic.

Aos 30 minutos, porém, os húngaros mataram o jogo num contra-ataque. Kiprich foi novamente lançado na ponta direita, nas costas da defesa e chutou em cima de Lettieri. A bola sobrou na entrada da área para Detari finalizar com o gol vazio e fazer 2 a 0. Perto do fim da partida, aos 40 minutos, os canadenses ainda ficaram com dez depois que Mike Sweeney (que havia entrado na etapa final) recebeu o segundo amarelo após parar um contragolpe húngaro.

Para a terceira e última partida, contra a União Soviética no dia 9, outra vez em Irapuato e outra vez sob o sol mexicano do meio-dia, apenas uma alteração em relação ao time titular do jogo anterior: o centroavante Dale Mitchell – artilheiro do time no torneio olímpico e nas Eliminatórias – enfim entraria no ataque, no lugar de Vrablic. Do outro lado, com a classificação para as oitavas virtualmente assegurada, os soviéticos escalaram vários reservas.

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Mesmo assim, a primeira boa chance foi dos europeus: uma cabeçada de Protasov bem no canto, que Lettieri – do alto de seu 1,73 metro – se esticou e foi buscar. O Canadá respondeu com uma cobrança de falta de Dale Mitchell que raspou o travessão. E no segundo tempo, David Norman recebeu uma boa bola na área, mas foi travado pelo goleiro reserva soviético Chanov. Logo em seguida, Belanov entraria no jogo para decidir a vitória europeia.

Um minuto depois de entrar em campo, o atacante recebeu na ponta direita, deu um belo drible em Bruce Wilson e cruzou para Blokhin escorar e abrir o placar. Lettieri ainda voltaria a brilhar ao salvar um lindo voleio de Aleinikov. Mas não teria o que fazer quando Zavarov (que havia entrado no lugar de Blokhin) tabelou com Belanov, apareceu de cara para ele, e, mesmo combatido por Samuel, finalizou com um leve toque por cobertura para fazer 2 a 0.

A eliminação com três derrotas, diante do nível dos adversários, já era esperada. A se lamentar, apenas o fato de ter passado as três partidas em branco, sem balançar as redes – o que jogou os canadenses para a lanterna da classificação final da Copa do Mundo. Mas o saldo para o estreante era positivo quando se constatava que a equipe havia vendido caro todos os revezes. Com toda a sua fragilidade e inexperiência, o Canadá esteve longe de ser um saco de pancadas.

AGUARDANDO A NOVA CHANCE

Após o Mundial, alguns dos jogadores mais veteranos, como o goleiro Tino Lettieri e o capitão Bruce Wilson, decidiram se aposentar da seleção. O técnico Tony Waiters também se retirou do cargo, embora ainda retornasse brevemente em 1990. E logo no início do processo de renovação, a seleção veria alguns de seus jovens envolvidos num caso de suborno num torneio em Cingapura, e quatro deles seriam suspensos da equipe por tempo indeterminado.

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De lá para cá, só uma vez o Canadá esteve perto de voltar ao Mundial. Nas Eliminatórias para a Copa de 1994, com uma equipe que trazia vários remanescentes do time de 1986, como Randy Samuel, Mike Sweeney, David Norman, Carl Valentine e Dale Mitchell, além de Bob Lenarduzzi agora como técnico, mesclados a jovens como o goleiro Craig Forrest, o líbero Frank Yallop, o meia Paul Peschisolido e o atacante Alex Bunbury, todos com carreira longa na Europa.

Na ocasião, o Canadá chegou à última rodada do quadrangular final da Concacaf precisando vencer o México no Varsity Stadium de Toronto para levar a única vaga direta na Copa. Chegou a abrir o placar logo no início, mas sofreu o empate ainda no primeiro tempo e a virada nos minutos finais. Despachado para a repescagem, caiu diante da Austrália: venceu em casa por 2 a 1, perdeu fora pelo mesmo placar e acabou desclassificado nos pênaltis.

O país ainda teria um momento de brilho ao conquistar a Copa Ouro em 2000. Depois de precisar do sorteio para eliminar a Coreia do Sul na primeira fase, o time surpreendeu o México no gol de ouro nas quartas de final, superou Trinidad e Tobago de Dwight Yorke nas semifinais e derrotou a Colômbia por 2 a 0 com gols de Jason de Vos e Carlo Corazzin na final em Los Angeles. O título valeu ainda a participação na Copa das Confederações de 2001.

Curiosamente, naquele torneio os canadenses caíram na primeira fase sem marcar nenhum gol, como haviam feito na Copa do Mundo de 1986. Mas também conseguiram arrancar um empate com o Brasil, assim como nos Jogos de Los Angeles, só que desta vez por 0 a 0. Os Canucks agora ficam na expectativa pelo Mundial de 2026, o qual sediarão junto com Estados Unidos e México, e que virá em meio à comemoração dos 40 anos de sua estreia em Copas.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.