O Uruguai experimentou um clássico diferente neste domingo. O Centenario, tradicionalíssima casa do Nacional x Peñarol, estava vazio. Pela primeira vez em quase 90 anos, um dérbi válido pelo Campeonato Uruguaio se realizou longe do palco construído para a Copa de 1930. O Peñarol sinalizou seu desejo de sediar a partida como mandante no Estádio Campeón del Siglo e, com a permissão das autoridades, promoveu a estreia do clássico em seu campo, inaugurado há três anos. E mesmo com a pressão da torcida aurinegra, prevaleceu o empate: 1 a 1, que amplia a liderança dos carboneros no Torneio Apertura.

O último clássico longe do Centenario pelo Campeonato Uruguaio aconteceu em 13 de outubro de 1929. A partir de então, com a inauguração do histórico estádio de Montevidéu, todos os duelos pela liga se deram lá. Foram 312 encontros desde então, 212 apenas pela competição nacional. O último confronto oficial fora do Centenario havia ocorrido na Copa Libertadores de 1998, quando um dos embates pela fase de grupos se deu no Estádio Domingo Burgueño Miguel, na cidade de Maldonado. Também foi lá que se desenrolou o último amistoso longe do Centenario, em 2006. Ocasiões raríssimas, como a deste domingo.

Obviamente, existia uma enorme preocupação com a segurança para o jogo. O Estádio Campeón del Siglo, diferentemente do Centenario não fica em uma região central de Montevidéu. Ele está localizado ao norte da capital, nas cercanias do aeroporto internacional. São quase 20 quilômetros de distância em relação ao coração da capital e, por isso mesmo, o Ministério do Interior ofereceu um sistema de transporte específico aos torcedores do Nacional, incluso no preço do ingresso. Os tricolores foram delimitados a dois mil bilhetes (metade da quantidade prevista inicialmente) e ficaram isolados atrás de um dos gols. Diante do histórico de violência, houve um certo alarmismo em relação à ocasião. O lado bom é que não foram registrados incidentes, com o sucesso na operação policial.

No dia anterior ao clássico, o Nacional realizou um treino aberto no Gran Parque Central. Recebeu o calor de sua torcida, com um imenso ‘banderazo’ na velha cancha. Já neste domingo, antes que a bola rolasse no Campeón del Siglo, o grande show nas arquibancadas ficou por conta do Peñarol. A torcida aurinegra ofereceu um recebimento intenso, com bandeiras, trapos, bandeirão e tudo mais o que tivesse direito. Mas, dentro de campo, os aurinegros não aproveitaram tanto o mando.

Mal no Campeonato Uruguaio, o Nacional abriu o placar aos 40 minutos, graças a um gol contra de Cristian Rodríguez, em lance brigado com Gonzalo Bergessio. Logo nos acréscimos, outro gol contra decretou o empate do Peñarol. A bola bateu na trave e, no rebote, Guzmán Corujo levou a pior na disputa com Gabriel Fernández. Como é de se imaginar no dérbi, também sobraram lances ríspidos e cartões, incluindo a expulsão de Bergessio pouco antes do gol de empate. O Peñarol lidera o Apertura com 27 pontos, cinco a mais que o Fênix, restando três rodadas para o final. O Nacional é apenas o sétimo colocado, nove pontos atrás.

Após a partida, a imprensa uruguaia elogiou a cortesia do Nacional nos vestiários do Campeón del Siglo, deixando tudo em ordem. O mesmo não é possível dizer de sua torcida, que depredou alguns banheiros do estádio. E é possível que uma disputa de bastidores comece a se desenrolar após o passo dado pelo Peñarol. O Centenario estava disponível a este domingo e não foi utilizado por escolha. O Bolso afirma que, enquanto foi o único dos rivais a ter estádio próprio, respeitava as possibilidades dos aurinegros e o consenso era mandar seus jogos no Centenario. Durante o Clausura, é provável que o Gran Parque Central receba o clássico. Mas, antes disso, há outra parada: Boca Ratón. Em junho, haverá um amistoso de intertemporada na Flórida. Será apenas o terceiro encontro da história do dérbi fora do Uruguai, o primeiro desde 1996. Um novo capítulo que se escreve.