“Ele não é um camisa 10 clássico”. “Falta um camisa 10, 10 mesmo, não só de número, mas de característica”. “Falta alguém para pensar o jogo”. “Não produzimos mais camisas 10”. “Falta um autêntico camisa 10”.

Mudam os adjetivos, mas não o fetiche. O camisa 10 é buscado há tempos, com uma fé maior que em algumas igrejas – e, em alguns casos, cobram até um dízimo que chamam de sócio-torcedor, sempre na esperança de um milagre. Mas quem é o tal camisa 10 clássico? Quem é essa entidade no futebol brasileiro, que tanto se cobra e pouco se vê? Quem, afinal de contas, tem essa figura no seu elenco?

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Na Alemanha, campeã do mundo, não há um “camisa 10 clássico” (não me venham falar de Özil). Na Espanha também não. Na Itália, menos ainda. Na Argentina, o 10 é Messi, que é um craque, mas está longe do fetiche do camisa 10 clássico. Na Copa América, os camisas 10 eram completamente diferentes entre si. Neymar é um atacante, mais do que tudo, com mais características de finalização do que de armação; James Rodríguez é um jogador que mais chega ao ataque do que arma jogadas; Valdívia é, talvez, o que mais se aproxime desse delírio coletivo de camisa 10 clássico, mas no Palmeiras não deixou saudades.

O 10 clássico que se pede é um jogador quase impossível. Um armador de jogadas, que tenha visão de jogo, que tenha um passe milimétrico e toques de genialidade. Precisa fazer gols, mas também precisa estar na construção das jogadas. Precisa chutar bem, passar bem, cabecear na área, vir buscar o jogo com os volantes. Precisa ser um grande passador, mas também um grande finalizador; tem que ter a “elegância” de Didi na armação e a frieza de Romário em frente ao gol. Precisa ser um 10 que nunca houve, mesmo que vários craques tenham vestido esse número, mas com características muito diferentes um do outro.

O tal camisa 10 clássico é uma entidade do futebol brasileiro. Os times buscam como um Santo Graal, como a salvação da lavoura. Talvez por isso tenha havido tanta esperança com Paulo Henrique Ganso quando ele surgiu e a decepção com ele seja tão grande. Se imaginou que ele poderia ser o “’10 clássico”, mas ele nunca foi. Tanto que Muricy o cobrava para entrar na área e fazer gols, se cobra que ele é um jogador muito lento, que participa pouco do jogo.

Um delírio coletivo que busca no passado um jogador que raramente existiu. Zico era um 10 clássico ou um craque com a camisa 10? Pelé talvez não tenha sido um 10 clássico, se aproximando muito mais de um atacante. Rivaldo, o 10 do penta, era mais atacante do que armador. Nos anos 1960, Ademir da Guia vestia a 10 do Palmeiras e, mesmo sendo craque, era criticado por ser “lento” e “sobrecarregar Dudu”, o volante do time. Alex, anos depois, vestiria a mesma 10 do Palmeiras e seria tachado de Alexotan, inclusive na seleção. O 10 do tetra era Raí, que nunca foi um armador de jogadas propriamente dito, mas muito mais um ponta de lança, fazia muitos gols e com muitas qualidades técnicas, mas altamente criticado, desde as Eliminatórias até a Copa, quando foi para o banco para a entrada de Mazinho, um volante. Zinho, que vestia a 9 em 1994, mas vestiu a 10 no Palmeiras quando Rivaldo chegou ao time, era uma espécie de armador, mas foi apelidado injustamente de “enceradeira”. Para ser o “10”, é preciso lances plásticos, bonitos, espetaculares. Não basta ser um craque do passe, que faça o time jogar. É preciso ter algo de Ronaldinho no auge.

Muito se diz que a camisa 10 ganhou a relevância que tem por causa de Pelé, envergando a 10 do Santos e da seleção, conquistando três Copas do Mundo. Talvez a melhor definição para o que Pelé fez foi criar a camisa 10 mística. Um número que Rivellino usou, no Corinthians, Fluminense e seleção, Rivaldo no Barcelona e na seleção, Giovanni, o messias, no Santos e no Barcelona, Raí no São Paulo, Edmundo e Roberto Dinamite no Vasco, mesmo sendo atacantes puros, Neto, no Corinthians, Dirceu Lopes, no Cruzeiro e tantos outros, completamente diferentes entre si. Talvez não haja um camisa 10 clássico. Nós buscamos mesmo é a camisa 10 mística.