O calendário de 2021 é um acinte e um símbolo descarado de que, acima de tudo, a máquina da CBF precisa seguir funcionando

Durante a noite desta quarta-feira, enquanto muita gente se irritava com o baixo nível técnico deste Brasileirão, a CBF divulgou o seu calendário de competições para 2021. E a certeza de uma situação ainda mais degradante se escancara: a nova temporada começará logo em 28 de fevereiro, com os estaduais, quatro dias após o término da Série A. Não há qualquer redução de datas ou mesmo adaptações de competições. Mesmo com o calendário de 2020 totalmente atropelado por conta da pandemia, a entidade que deveria prezar pela qualidade do futebol brasileiro acha plausível emendar as temporadas e sequer garantir férias aos jogadores.

O calendário de 2020 reelaborado pela CBF durante a paralisação já é difícil de aceitar como praticável – desprezando o desgaste físico dos atletas, encavalando competições e ignorando as consequências da pandemia. Os principais clubes do país precisarão entrar em campo ao menos duas vezes por semana, inclusive em dezembro, para terminar o Brasileirão em 24 de fevereiro – enquanto se desdobram ainda na Copa do Brasil e nos torneios continentais.

As datas acumuladas mal dão margem de manobra para adiamentos de jogos e outros imprevistos – como tanto se vê neste início de Brasileiro, com as remarcações geradas pelos casos de coronavírus, também responsabilidade da própria CBF por seu protocolo furado. E, dentro desta maratona de sete meses até fevereiro, a “solução” mais inventiva dos dirigentes foi reduzir o intervalo mínimo entre partidas, de 72 para 48 horas. Os jogadores serão mais exigidos, os elencos precisarão de mais profundidade e as Datas Fifa causam ainda mais um motivo para desfalques.

No entanto, se o calendário de 2020 parecia difícil de se concretizar, o calendário de 2021 é simplesmente um acinte. Serão quatro dias de diferença entre o final do Campeonato Brasileiro e o início dos estaduais, mantidos com 16 datas. Em teoria, os jogadores não poderão ter férias ou fazer a pré-temporada adequada ao próximo ano. A situação cria uma bola de neve gigantesca, com mais desgaste físico e uma qualidade técnica cada vez mais em xeque. Tudo isso para que a Série A volte já em maio, com final previsto para dezembro. Aparentemente, Caboclo também confia em uma vacina distribuída em 2021, já que o calendário seguirá sem escapes.

As pausas às Datas Fifa não passam de utopia e, com a Copa América pela frente, os desfalques acontecerão a rodo ao longo do Brasileirão. O cenário é até pior neste sentido. O torneio na Colômbia e na Argentina durará um mês, enquanto serão mais oito rodadas das Eliminatórias para a Copa de 2022 realizadas ao mesmo tempo que a Série A. Segundo o cálculo do jornalista Rodrigo Mattos, as convocações atrapalharão os clubes em 18 rodadas do Brasileiro.

A CBF poderia tomar uma decisão simples, mesmo que fosse apenas provisória: enxugar as datas dos estaduais para 2021. Seria cortar na carne das federações, mas a entidade poderia tomar as rédeas para apoiar os clubes menores. Rogério Caboclo prefere varrer a sujeira para baixo do tapete e não encarar as consequências políticas e financeiras de diminuir as datas, até pelos contratos firmados anteriormente. O resultado disso é previsível: estaduais realmente esvaziados, com os times das divisões nacionais colocando a base em campo e os profissionais ganhando ao menos um pouco de descanso, em preparação às competições que interessarão.

Todavia, com Data Fifa e Copa do Brasil se iniciando em março, não será possível um boicote total à situação. Não abriram mão nem da Supercopa do Brasil, também marcada para este mês. No mínimo, terão que readaptar essa previsão. E ainda será preciso ver como agirá a Conmebol. Com a Libertadores e a Sul-Americana se estendendo até janeiro, é possível imaginar um intervalo maior até que as próximas edições se iniciem. Porém, não espere nada da cartolagem do continente, especialmente quando é o próprio dinheiro que está em jogo. É bem mais capaz que tudo se acumule, ainda mais com essa Copa América desnecessária que representa apenas ganância.

O calendário de 2021 da CBF merecia uma resposta contundente de clubes e jogadores, os mais prejudicados pela falta de noção e de respeito que as datas representam. Entretanto, ver uma reação organizada parece demais, quando nada aconteceu mesmo diante de situações graves recentemente – como os casos de coronavírus nas divisões nacionais. O “faz de conta” prevalece e o próprio futebol brasileiro acaba como o maior prejudicado. A qualidade geral piora, os jogadores preferem sair por condições melhores e sequer há um zelo para vender as competições ao exterior. No atual estágio do calendário, seria difícil aos estrangeiros entenderem o que está se passando.

Seria bom demais acreditar que esse calendário de 2021 gerará o esvaziamento dos estaduais e provocará mudanças reais com o passar do tempo. Entretanto, os últimos meses foram duros o suficiente para se agarrar em idealismos e achar que eles se concretizarão. Mais plausível é ver os dirigentes se alimentando de mentiras e os clubes aceitando silenciosamente. Este seria um momento oportuno para realmente redesenhar o calendário brasileiro e melhorá-lo como um todo, para tornar as competições locais mais atrativas e mais rentáveis. Da maneira como está, a crise gira em círculos, com um produto cada vez pior e sem perspectivas. Mas tudo bem quando os cartolas se sentem suficientemente acomodados, os jogadores pagam as consequências e o torcedor sofre com uma qualidade menos que medíocre.

Confira as principais datas do calendário de 2021 do futebol brasileiro:

– Início da temporada: 28/02
– Campeonatos Estaduais: 28/02 a 23/05 (16 datas)
– Supercopa do Brasil: 10/03 (jogo único, entre o campeão brasileiro e o campeão da Copa do Brasil da temporada de 2020)
– Copa do Brasil: 10/03 a 27/10 (16 datas, em oito fases)
– Campeonato Brasileiro Série A: 30/05 a 05/12 (38 datas)
– Campeonato Brasileiro Série B: 29/05 a 27/11 (38 datas)
– Campeonato Brasileiro Série C: 30/05 a 21/11 (26 datas)
– Campeonato Brasileiro Série D: 30/05 a 14/11 (26 datas)
– Eliminatórias para a Copa 2022: 25/03 e 30/03; 03/06 e 08/06; 02/09 e 07/09; 07/10 e 12/10; 11/11 e 18/11 (5 períodos)
– Copa América: 11/06 a 11/07 (31 dias)
– Final da temporada: 05/12
– Início do Período de Férias: 06/12