Quando o Porto anunciou a contratação de Rabah Madjer em 1985, confiava no talento de um grande jogador. O atacante vinha referendado por uma boa passagem pelo Racing de Paris, assim como tinha levado a seleção da Argélia à sua primeira Copa do Mundo em 1982. O que dificilmente os portistas imaginariam é que dos pés daquele homem esguio nasceria o primeiro título do clube na Copa dos Campeões. Ou melhor, de seu calcanhar. Com uma atuação sempre lembrada com carinho pelos torcedores, Madjer acabou com o Bayern de Munique e, ao lado do brasileiro Juary, comandou a virada por 2 a 1 nos minutos finais. Consagrou os dragões em Viena, em partida que completa 30 anos neste 27 de maio.

O Porto vinha de boas campanhas continentais desde o início da década. Já havia eliminado Milan, Roma e Ajax nas copas europeias, além de ter sido vice-campeão da Recopa em 1984, derrotado na final pela poderosa Juventus. Todavia, nada que se comparasse ao sucesso vivido em 1986/87. Os portistas derrubaram Rabat Ajax, Vítkovice e Brondby nas etapas iniciais, até o grande desafio nas semis. O Dynamo Kiev havia conquistado a Recopa na temporada anterior e vinha com o status de potência continental. Pois os lusitanos mostraram sua força com duas vitórias por 2 a 1, tanto no antigo Estádio das Antas quanto no Estádio Olímpico de Kiev. Na decisão, pegariam o Bayern de Munique, em momento de recuperação da hegemonia na Alemanha.

Treinado pelo mítico Udo Lattek, o Bayern estava às vésperas de encadear seu segundo tricampeonato nacional, o primeiro desde a geração de ouro dos anos 1970. Tinha como protagonistas Lothar Matthäus, Andreas Brehme e Jean-Marie Pfaff, além dos irmãos mais novos (e menos talentosos) Dieter Hoeness e Michael Rummenigge. O Porto, do outro lado, contava com um time experiente. Vários de seus jogadores locais tinham passagens pela seleção portuguesa, incluindo o lateral João Pinto. Paulo Futre despontava como um legítimo talento, aos 21 anos. A defesa dispunha dos serviços do zagueiro brasileiro Celso e do goleiro polonês Józef Mlynarczyk. Já na linha de frente, o peso da responsabilidade ficava com Madjer, sem a companhia do ídolo e capitão Fernando Gomes, lesionado.

Apoiado por boa parte da torcida, o Bayern abriu o placar no Estádio Prater, em Viena. Aos 24 minutos, um cochilo da zaga permitiu que Ludwig Kögl estufasse as redes. O Porto precisaria perseverar. E o duelo só se abriria na reta final do segundo tempo. Bagunçando a zaga com seus dribles, Madjer quase abriu o placar após jogada espetacular de Paulo Futre. Contudo, não demoraria para que o argelino começasse a escrever sua lenda, com letras douradas. O ex-santista Juary, que saíra do banco na volta do intervalo, deu o passe e o camisa 8 emendou para as redes de calcanhar. Magistral. Restavam ainda 13 minutos no relógio. Três bastaram para que Madjer deixasse o marcador perdido e cruzasse para Juary decretar a virada. O gol que elevou os dragões de patamar.

“Foi uma explosão, não estava contando que ia marcar de calcanhar na final. O que aconteceu comigo é extraordinário. Se você ver o gol, quando Juary cruza da direita, a bola sofre um desvio num marcador e muda de trajetória. Eu já corria para a primeira trave, deixei a bola passar entre as pernas e acertei com o calcanhar, pois tinha um defensor no gol. Se tivesse controlado a bola, nunca teria marcado”, contou tempos depois, ao site da Uefa. “O gol de calcanhar começou a mudar a história internacional do Porto e a minha também”.

Em 1987, Madjer ganhou o prêmio de melhor jogador africano e também comandou o Porto na conquista da Copa Intercontinental, fazendo o gol da vitória sobre o Peñarol por 2 a 1, já no segundo tempo da prorrogação. Momentos importantes, mas nada que supere aquele calcanhar, inesquecível aos portistas.


FC Porto2 x 1Bayern Munique Taça dos Campeões… por settoreoffensivo