No futuro, torcedores brasileiros poderão dizer que assistiram ao desabrochar de algumas estrelas internacionais in loco. Talvez um campeão do mundo pinte no gramado do Bezerrão, quem sabe um artilheiro da Champions desfile em Cariacica, pode até ser que um ídolo da Seleção desponte em Goiânia. Neste sábado, começa o Mundial Sub-17 no Brasil. A competição, que originalmente deveria acontecer no Peru, será distribuída em quatro estádios de Goiás, Distrito Federal e Espírito Santo. Chance de ver futebol e, com sorte, uma grande promessa que confirmará seu talento dentro de alguns anos.

Treinado por Guilherme Dalla Déa, o Brasil surge como um favorito entre aspas na competição. O fato de jogar em casa pesa, assim como os bons nomes que pintam no elenco. Entretanto, não fosse a mudança de sede, a Seleção sequer participaria deste Mundial Sub-17. O time foi eliminado ainda na primeira fase do Sul-Americano, em grupo no qual quatro equipes terminaram com sete pontos e só três passaram. Por caminhos tortos, a geração nascida em 2002 ganhou uma segunda chance.

Alguns protagonistas da equipe já apresentam seu talento no futebol profissional. Reinier deveria ser a grande estrela, mas permaneceu no Flamengo. Assim, os holofotes se concentram sobretudo em cima de Talles Magno, que encanta a torcida do Vasco neste Brasileirão. O incisivo ponta é a referência do ataque, que também conta com o centroavante Kaio Jorge, outro a já pintar na equipe principal do Santos. O ponta Gabriel Veron (Palmeiras) e o meia João Peglow (Inter) foram outros dois nomes importantes no ciclo preparatório. O Palmeiras é o clube que mais cedeu atletas à convocação, com quatro jogadores, incluindo o capitão Henri.

Na América do Sul, a Argentina surge como a principal concorrente, após conquistar o Sul-Americano Sub-17 – apesar da apertada disputa com o Chile. O principal astro é o treinador, ninguém menos que Pablo Aimar. O Payaso entregou a camisa 10 para Matias Palacios, que já fez sua estreia como profissional pelo San Lorenzo. Equador e Paraguai são os outros representantes da Conmebol. Os paraguaios, aliás, possuem seu candidato a estrela: o camisa 10 Fernando Ovelar, de 15 anos, que estreou aos 14 pelo Cerro Porteño e marcou até gol em clássico contra Olimpia. O artilheiro equatoriano Johan Mina e o 10 chileno Alexander Aravena também valem a aposta.

A Europa terá quatro pesos pesados no Mundial Sub-17. França, Holanda, Itália e Espanha alcançaram a classificação, enquanto a Hungria complementa a lista do continente. Ansu Fatih não pintou na convocação espanhola, como se esperava. Assim, a principal estrela será o francês Adil Aouchiche, que arrebentou no último Europeu Sub-17. O meio-campista balançou as redes nove vezes em seis aparições no torneio continental e já ganhou os primeiros minutos no time de cima do Paris Saint-Germain.

O defensor holandês Ki-Jana Hoever, que participou da pré-temporada com o Liverpool, é outra boa promessa, assim como o espanhol Pedri, que brilha na segundona pelo Las Palmas. A Itália não contará com seu destaque no Europeu Sub-17, Sebastiano Esposito, que passou a entrar no time principal da Internazionale após a lesão de Alexis Sánchez. Sem ele, a missão de comandar o ataque fica com Lorenzo Colombo, do Milan.

Tradicional potência nos Mundiais de base, a África vem representada por Camarões, Angola, Senegal e Nigéria. Os camaroneses estão um passo à frente, após o título na competição continental. A equipe não pôde convocar Etienne Eto’o, filho de Samuel, que segue os passos do pai no Mallorca. Segundo um decreto presidencial, apenas jogadores do futebol local podem integrar os Leões Indomáveis no sub-17. Sem ele, os olhares ficam a Stève Mvoué, melhor jogador do último Campeonato Africano Sub-17 e que até já estreou pela seleção principal.

A Concacaf terá quatro equipes, com Canadá, Estados Unidos, México e Haiti. Campeões regionais, os mexicanos confiam em Israel Luna, camisa 10 que atrai atenções na base do Pachuca. Já entre os americanos, o sobrenome mais conhecido é o de Giovanni Reyna. Sim, ele é filho de Claudio Reyna, referência da seleção na virada do século. Destaque da equipe, o atacante integra as inferiores do Borussia Dortmund.

Pela Ásia, as vagas ficaram com Japão, Tajiquistão, Austrália e Coreia do Sul. Os japoneses possuem a equipe mais rodada, com menção honrosa ao camisa 10 Jun Nishikawa. O garoto, além de pintar no time adulto do Cerezo Osaka, defendeu os Samurais Azuis no último Mundial Sub-20. Além disso, com dois representantes, a Oceania contará com a representação de Nova Zelândia e Ilhas Salomão. Apesar do vice-campeonato, o salomônico Raphael Lea’i terminou eleito o craque do qualificatório.

Além de ver boas promessas, a maior diversão dos brasileiros nos estádios será torcer por alguma surpresa. O apoio às zebras sempre é um esporte nacional, como o Taiti bem lembra na Copa das Confederações de 2013 ou, em escalas menos galhofeiras, a Argélia de 2014. Assim, aproveitamos a deixa para apresentar cinco seleções que merecerão sua torcida neste Mundial Sub-17. Confira:

Ilhas Salomão

Bom, se uma modesta equipe da Oceania não é motivo de sua torcida, quem será? Ilhas Salomão merece o reconhecimento neste Mundial Sub-17. Nos últimos anos, a Fifa passou a atribuir duas vagas nas competições de base à Oceania, justamente para auxiliar o desenvolvimento das equipes da região. Esta é a primeira vez que os salomônicos disputarão uma competição internacional no futebol de campo. De campo, porque o arquipélago de 600 mil habitantes costuma bater cartão nas competições da Fifa no futsal e no futebol de areia.

Ilhas Salomão, aliás, teve uma campanha de destaque na Copa da Oceania Sub-16. A seleção chegou a golear a Nova Zelândia por 5 a 0 na fase de grupos e, no reencontro com os All Whites na decisão, deixou a taça escapar apenas nos pênaltis. O problema é que a escalação de um jogador irregular, acima da idade limite, quase colocou tudo a perder. A OFC chegou a retirar a vaga do país e a situação só se reverteu após uma apelação que segue em trâmite. O destaque é Raphael Le’ai, que também faz parte da seleção olímpica de futsal. Já o técnico Stanley Waita é uma lenda do futebol local, com 31 jogos pela seleção. Ele era meio-campista do Hekari United que ganhou a Liga dos Campeões da Oceania em 2010.

Tajiquistão

A saga do Tajiquistão se tornou famosa no Brasil depois do amistoso insignificantemente maravilhoso que os asiáticos disputaram nesta semana. Com ares de épico, os garotos tajiques arrancaram o empate por 2 a 2 contra o Audax em Osasco, no implacável Rochdalão. O resultado contou com o protagonismo do goleiro Shohrukh Qirghizboev. O rapaz falhou nos dois gols dos paulistas, foi substituído no primeiro tempo e chorou no banco de reservas, mas voltou após a lesão de seu companheiro para defender o pênalti que evitou a derrota.

O Tajiquistão volta ao Mundial Sub-17 após 12 anos, mas fez uma campanha digna no qualificatório asiático. A equipe se recuperou de uma derrota por 6 a 2 na estreia, antes de despachar Coreia do Norte e Coreia do Sul nos mata-matas. Os tajiques chegaram à decisão, vice-campeões diante do Japão. A seleção adulta também vem em crescente e bateu na trave em sua tentativa de se classificar à Copa da Ásia de 2019. O principal nome dos juvenis é o goleiro Mukhriddin Khasanov – justamente quem substituiu Qirghizboev e se lesionou em Osasco. Ele salvou a equipe em duas disputas por pênaltis no Asiático Sub-17. Vale mencionar ainda que Musashi Mizushima, o homem que inspirou Oliver Tsubasa, é o assistente técnico.

Haiti

Por todos os laços entre Haiti e Brasil, torcer para a equipe caribenha é praticamente uma obrigação. O país costuma se mobilizar inteiro para apoiar a seleção brasileira a cada Copa do Mundo e, no Mundial de 2018, até o premiê caiu em uma crise relacionada à eliminação contra a Bélgica. Os haitianos têm registrado resultados mais expressivos com a seleção principal na Concacaf e os reflexos se notam na base. O país, que nunca foi a um Mundial Sub-20, retorna ao Sub-17 pela primeira vez em 12 anos.

O Haiti ficou atrás das forças da Concacaf, mas ainda realizou um bom papel no qualificatório. Terminou na liderança de sua chave na primeira fase, antes de eliminar República Dominicana e Honduras nos mata-matas. O time ainda deu trabalho na semifinal ao México, que levou a taça. Os defensores Jean Geffrard e Stanley Guirand terminaram eleitos à seleção do campeonato, após brilharem em uma defesa que sofreu apenas três gols em seis partidas. Doze jogadores vêm da Academie Camp Nou, projeto fomentado pela federação local. Além disso, o time se vale da diáspora haitiana, com atletas que atuam no New York Red Bulls e no Vissel Kobe. O comando técnico é de um brasileiro: Rafael Novaes Dias, que se mudou ao país em 2012, para trabalhar com os Pérolas Negras em meio aos esforços de reconstrução após o terremoto, e assumiu a seleção sub-17 em 2017.

Angola

Neste Mundial, a África possui vários representantes que ocupam o imaginário dos torcedores brasileiros por suas campanhas em Copas do Mundo. Camarões, Nigéria e Senegal estarão nos gramados do país. Porém, mesmo encarando o Brasil na fase de grupos, Angola merece o apoio. Ao lado dos senegaleses, os angolanos também são estreantes na competição. Os Palancas Negras não aparecem em uma competição internacional de base desde 2001. Na ocasião, os lusófonos alcançaram as oitavas de final no Mundial Sub-20 realizado na Argentina. Quatro atletas daquele grupo disputaram a Copa de 2006, incluindo o artilheiro Mantorras.

O atual elenco se divide pelos principais clubes do país. O nome mais badalado é o do camisa 10 Zito, que defende o Primeiro de Agosto e chegou a passar por um período de testes no Manchester United. O ponta já disputou duas partidas com a seleção principal de Angola. Zito brilhou na campanha do Africano Sub-17, na qual os angolanos caíram nas semifinais. O atacante Capita também ganhou os holofotes, ao levar a artilharia do torneio com quatro gols. Pedro Gonçalves, técnico de origem portuguesa que também trabalha na base do Primeiro de Agosto, assumiu a seleção principal de maneira interina neste ano.

Hungria

Aos saudosistas, torcer pelo renascimento da Hungria sempre parece uma boa ideia. A tradição dos magiares nos mundiais de base é rasa. A última vez que o país disputou o Mundial Sub-17 foi em 1985, quando chegou a vencer o Brasil na fase de grupos, mas caiu para a Nigéria nas quartas de final. O zagueiro Zsolt Limperger, que passou por Celta e Mallorca, foi o único que realmente vingou daquela geração. Já no Mundial Sub-20, os húngaros participaram duas vezes. O momento mais relevante aconteceu na campanha até as semifinais de 2009. O goleiro da equipe era Péter Gulácsi, atual titular do RB Leipzig.

A Hungria também merece respeito pelo presente de sua geração sub-17. A equipe fez uma grande campanha no Campeonato Europeu da categoria. Superou Portugal para terminar na primeira colocação de seu grupo. Já nos mata-matas, apesar da queda para a Espanha nos pênaltis durante as quartas de final, os magiares conquistaram a classificação na repescagem contra a Bélgica. András Németh, aposta na base do Genk, foi o artilheiro da equipe. O elenco ainda possui jogadores atuando nos juvenis de Benfica, RB Salzburg e Parma. Olho também no goleiro Krisztián Hegyi, que começou no Haladás (o clube que formou Gábor Király) e atualmente integra a base do West Ham. O técnico é Sandor Preisinger, que chegou a enfrentar o Brasil nas Olimpíadas de 1996 e, após pendurar as chuteiras, trabalhou por um tempo como professor de matemática, antes de retornar ao esporte.

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Abaixo, a lista de jogos do Mundial Sub-17, divididas por estádios

Bezerrão, em Gama
Brasil x Canadá, 26 de outubro
Nova Zelândia x Angola, 26 de outubro
Itália x Ilhas Salomão, 28 de outubro
Paraguai x México, 28 de outubro
Brasil x Nova Zelândia, 29 de outubro
Angola x Canadá, 29 de outubro
Paraguai x Ilhas Salomão, 31 de outubro
México x Itália, 31 de outubro
Canadá x Nova Zelândia, 1 de novembro
Austrália x Nigéria, 1 de novembro
Camarões x Espanha, 3 de novembro
Itália x Paraguai, 3 de novembro
Oitavas de final (1° Grupo D x 3° B/E/F), 6 de novembro
Oitavas de final (1° Grupo A x 3° C/D/E), 6 de novembro
Semifinal, 14 de novembro
Semifinal, 14 de novembro
Decisão do Terceiro Lugar, 17 de novembro
Final, 17 de novembro

Estádio Olímpico, em Goiânia
Nigéria x Hungria, 26 de outubro
Equador x Austrália, 26 de outubro
Nigéria x Equador, 29 de outubro
Austrália x Hungria, 29 de outubro
Hungria x Equador, 1 de novembro
Angola x Brasil, 1 de novembro
Oitavas de final (2° Grupo A x 2° Grupo C), 5 de novembro
Oitavas de final (1° Grupo B x 3° A/C/D), 5 de novembro
Quartas de final, 11 de novembro
Quartas de final (possível jogo do Brasil), 11 de novembro

Estádio da Serrinha, em Goiânia
Coreia do Sul x Haiti, 27 de outubro
França x Chile, 27 de outubro
Coreia do Sul x França, 30 de outubro
Chile x Haiti, 30 de outubro
Holanda x Estados Unidos, 2 de novembro
Haiti x França, 2 de novembro
Oitavas de final (1° Grupo E x 2° Grupo D), 6 de novembro
Oitavas de final (1° Grupo C x 3° A/B/F), 6 de novembro

Estádio Kléber Andrade, em Cariacica
Estados Unidos x Senegal, 27 de outubro
Japão x Holanda, 27 de outubro
Espanha x Argentina, 28 de outubro
Tajiquistão x Camarões, 28 de outubro
Estados Unidos x Japão, 30 de outubro
Holanda x Senegal, 30 de outubro
Espanha x Tajiquistão, 31 de outubro
Camarões x Argentina, 31 de outubro
Senegal x Japão, 2 de novembro
Chile x Coreia do Sul, 2 de novembro
Argentina x Tajiquistão, 3 de novembro
México x Ilhas Salomão, 3 de novembro
Oitavas de final (2° Grupo B x 2° Grupo F), 7 de novembro
Oitavas de final (2° Grupo F x 2° Grupo E), 7 de novembro
Quartas de final, 10 de novembro
Quartas de final, 10 de novembro