Se houve um momento em que os torneios olímpicos de futebol masculino tiveram grande atratividade técnica, ele ocorreu na década de 1980. O regulamento diferente para uso de jogadores fortaleceu um pouco mais o nível do que se via em campo: o profissionalismo já era permitido e não havia limite de idade, desde que os convocados jamais houvessem disputado partidas por Copas do Mundo, nas Eliminatórias ou na fase final. Talvez, nenhuma outra edição dos Jogos Olímpicos tenha ganho tanto com isso quanto a de Seul, em 1988. E no futebol, naquele momento, o Brasil teve uma lembrança agridoce. O amargor ficou por causa do fracasso em mais uma final olímpica, completando exatamente 30 anos nesta segunda. No entanto, os anos vindouros mostraram que havia totais razões para se confiar que aquela geração ascendente traria razões para sorrir, por mais que ela tivesse chorado na final de 1º de outubro de 1988.

Essa crença na capacidade técnica daquela geração foi consolidada já no decorrer da campanha olímpica em gramados da Coreia do Sul. A capacidade de André Cruz na zaga (sem contar a insuspeita habilidade do zagueiro nas cobranças de falta); a técnica que Geovani oferecia no meio-campo; e acima de tudo, o nascente entrosamento de Bebeto e Romário no ataque – e a capacidade assombrosa que o carioca da Vila da Penha já mostrava ter para colocar a esférica no filó adversário; todas essas qualidades foram vistas na primeira fase perfeita (três vitórias, sobre Nigéria, Austrália e Iugoslávia) e no 1 a 0 conseguido com imposição técnica e emocional sobre a Argentina, nas quartas de final.

E se faltava mostrar equilíbrio emocional em momentos difíceis, não faltou mais depois do que se viu na semifinal, contra a Alemanha (ainda Ocidental), já no Estádio Olímpico de Seul: empate em 1 a 1 nos 90 minutos, e decisão nos pênaltis. E além de todos os protagonistas citados naquela campanha, um viveu naquela semifinal o primeiro dos vários momentos de destaque com a camisa da Seleção. Afinal, ainda no tempo normal, um minuto após Romário empatar a difícil partida contra os alemães – que tinham Thomas Hässler no meio e Jürgen Klinsmann no ataque -, Taffarel defendeu um pênalti que quase certamente seria fatal para o sonho do ouro. 120 minutos encerrados, e a estrela de Taffarel seguiu brilhando intensamente nos penais: duas cobranças defendidas, mais um chute alemão na trave, 4 a 2 Brasil, vaga na final assegurada, e o goleiro gaúcho se convertia no destaque indiscutível daquela classificação. O narrador Galvão Bueno deixava isso claro, na transmissão da TV Globo, eufórico com aquele novato, após os pênaltis: “Passa a existir um novo herói no futebol brasileiro e ele se chama Taffarel!”. Parecia que nada mais poderia frustrar o Brasil, na tentativa de conquistar a medalha máxima da modalidade mais popular do país.

Até porque, fora os citados (Taffarel, André Cruz, Geovani, Romário, Bebeto), havia mais gente jogando bem naquele torneio olímpico. Como Jorginho, outro nome que faria parte de alegrias posteriores – jogando então na lateral esquerda, no lugar do titular Nelsinho, do São Paulo, com um dedo do pé fraturado. Como Luís Carlos Winck, do Internacional, cumprindo bem seu papel na lateral direita. Como o volante Ademir, que já fizera parte da campanha da medalha de prata em 1984 e voltava a figurar numa seleção olímpica. Como Andrade, já experientíssimo no meio-campo, conseguindo na seleção olímpica a chance real que nunca teve na adulta. Como João Paulo, brilhando então no Guarani, nos dois anos anteriores. Como Careca – não o do Napoli, mas o jovem atacante Hamilton de Souza, que surgia bem no Cruzeiro, antes de perder espaço nos anos seguintes, pelos problemas disciplinares. Fora vários outros nomes que estavam no banco e tinham alto nível técnico: o goleiro Zé Carlos, o meio-campista Neto, o atacante Edmar. E ainda houve alguns nomes convocados mas não liberados para aqueles Jogos – aqui entram Ricardo Gomes e Valdo, que tiveram de ficar no Benfica.

Porém, na final daquele 1º de outubro de 1988, o Brasil já entraria com dois duros desfalques, ambos suspensos pelo segundo cartão amarelo. O técnico Carlos Alberto Silva não poderia escalar Ademir, muito útil na marcação pelo meio, e Geovani – para muitos, o meio-campista do Vasco era simplesmente o melhor jogador daquele torneio olímpico, até a final. Restava confiar no que o substituto Neto poderia fazer na armação, para ajudar Romário a ampliar sua artilharia em Seul (eram seis gols).

Seria necessário, porque naquele torneio olímpico a União Soviética trazia a última demonstração de força antes da queda do Muro de Berlim, da má campanha na Copa de 1990 e da dissolução. Também sobravam nomes promissores do lado do time soviético, treinado por Anatoli Byshovets. No gol, Dmitri Kharine, que reencontraria alguns brasileiros seis anos depois, defendendo o gol russo na Copa de 1994. Na zaga, Sergei Gorlukovich, outro que teria Copas no currículo. Mas os grandes nomes daquela equipe que buscava seu segundo ouro olímpico estavam mais adiante. No meio-campo, o ponta-de-lança Alexei Mikhailichenko, 25 anos, que já tinha a Eurocopa daquele mesmo ano no currículo. No ataque, a grande promessa que era Igor Dobrovolski, 21 anos, tratado como o futuro grande nome para suceder Igor Belanov, disputando gol a gol com Romário e Kalusha Bwalya a artilharia daquele torneio olímpico. Como coadjuvantes, mereciam citação o meia Vladimir Tatarchuk, o ponta-de-lança lituano Arminas Narbekovas e o atacante Vladimir Liutyi. De mais a mais, ambos também haviam superado jogo dramático na semifinal: 3 a 2 na Itália, na prorrogação. E antes, haviam mostrado capacidade técnica, nos 3 a 0 sobre a Austrália, nas quartas.

Pelo entrosamento dos soviéticos e pelos desfalques brasileiros, foi previsível a superioridade daqueles em boa parte do tempo normal. Na crônica do jogo feita por Marcos Augusto Gonçalves para a Folha de S. Paulo de 2 de outubro de 1988, ficava clara a falta que Geovani fazia: “Completamente fora de jogo, Neto parecia um menino perdido no meio do exército soviético”. O jornalista também apontava os desacertos na marcação do meio: “Milton fez o que pôde – talvez o jogador que mais tenha se sacrificado ao longo do torneio, atuando em todas as posições, menos na sua -, mas nem sempre se acertou com Andrade”. Ainda assim, a União Soviética também mostrava um nível técnico tenso naquela final olímpica. Passava longe de impressionar, conforme João Saldanha (também comentarista da TV Manchete) apontou, em sua coluna no Jornal do Brasil do dia seguinte à final: “Bem disseram os italianos sobre o nosso adversário da final: é um time que sabe trocar passes, mas muito ingênuo”.

Num jogo meio truncado, não impressiona que os gols tenham vindo de bolas paradas. No primeiro tempo, o Brasil se valeu da maior capacidade individual para abrir o placar, aos 30 minutos. Neto se valeu de sua proverbial habilidade em escanteios e faltas, cobrou da direita, a bola passou por cima da área, e quem estava na segunda trave, bem colocado, pronto para desviar e fazer 1 a 0? Claro, Romário – que ali se tornava o artilheiro do torneio olímpico, com 7 gols. A vantagem fez a torcida explodir, no Estádio Olímpico de Seul e no Brasil, assistindo à transmissão de quatro emissoras, na manhã daquele dia, esperando por uma medalha que amenizaria um pouco o jejum vivido então na Copa e as dores das eliminações de 1982 e 1986.

Todavia, o Brasil continuou cometendo erros, muitos erros. E eles foram punidos merecidamente, no segundo tempo: aos 17 minutos, Mikhailichenko dominou a bola na esquerda, já na grande área, foi acossado por Andrade, caiu, e o juiz francês Gérard Biguet marcou o pênalti. Após o que se vira na semifinal contra a Alemanha, esperava-se que Taffarel fizesse milagre de novo. Dobrovolski frustrou a esperança brasileira: cobrança perfeita, bola de um lado, Taffarel do outro, 1 a 1. O pênalti não passou despercebido pelo Jornal do Brasil, que espicaçou Andrade nas notas: “Irreconhecível. Errou passes e cometeu um pênalti bobo”.

Só então Carlos Alberto Silva decidiu mudar. Tirou Neto e Bebeto aos 30 minutos, para as respectivas entradas de Edmar e João Paulo. Pois o Brasil melhorou naquele final de tempo normal – e começo de prorrogação. Voltou a criar jogadas, parecia mais calmo em campo, chegava mais perto do gol, houve até queixas sobre pênalti em João Paulo. No entanto, poucas finalizações efetivas contra o gol de Kharine. O que causou a irritação de muita gente, conforme João Saldanha esbravejou em sua coluna: “A entrada do João Paulo (…) virou tudo para o nosso lado. Mas como fazer o gol? Só passando por cima do Careca, que torturou o país inteiro que assistiu à berração [sic] de sua manutenção após o final. Saíram vários jogadores, mas Careca é efetivo. O Brasil telespectador que julgue. Por quê tanta teimosia?”.

Os 90 minutos terminaram, e começou a prorrogação. Aí, o nervosismo aumentou para quem estava vendo aquela final na televisão: era a primeira semana do horário eleitoral gratuito para as eleições municipais que ocorreriam em 15 de novembro, e o TSE não quis saber – obrigou todas as emissoras a exibi-lo, e os 30 minutos extras em Seul tiveram de ficar para VTs posteriores. Restou ouvir o rádio. No começo do tempo suplementar, o Brasil seguiu no mesmo ritmo: dominando o meio-campo, mas sem chegar com real perigo ao ataque. Pior, deixando espaços na defesa, pela fragilidade da marcação. Uma hora, a União Soviética os aproveitou. Foi aos 14 minutos da primeira parte do tempo extra: longo lançamento soviético do meio para o ataque, a linha de impedimento brasileira falhou, Yuri Savichev (vindo do banco, no intervalo do tempo normal, no lugar de Narbekovas) saiu com a bola, escapando da tentativa de André Cruz em agarrá-lo. Taffarel saiu do gol e da área, tentando evitar a finalização. Não deu: Savichev tocou com calma e classe, por cima do goleiro brasileiro, a bola entrou, e era o 2 a 1 da medalha de ouro soviética. Na transmissão da TV Bandeirantes, só restou ao narrador Silvio Luiz lamentar a marcação frouxa: “Cacilda, eu tô falando, olha o meio…”.

O Brasil seguiu tentando, até viu Tatarchuk ser expulso, mas o emocional já estava em frangalhos. No minuto final da prorrogação, Edmar também levou o cartão vermelho, por falta dura em Mikhailichenko. E logo Gérard Biguet apitou o final, fazendo com que os brasileiros amargassem “um Sarrià em proporção um pouco menor”, conforme o relato do jornalista Vicente Senna no Jornal do Brasil. Uma medalha de ouro esperada virara uma “prata com gosto de lata”, no relato de Marcelo Duarte para a edição posterior da revista Placar. A lamentação pela derrota era visível na demora brasileira para ir ao pódio, na cerimônia de premiação. Era visível também no inconformismo da imprensa – João Saldanha pesou a mão, lembrando as suspensões: “Tanto Geovani como Ademir deveriam ser energicamente punidos, porque deixaram de jogar apenas por indisciplina da mais vulgar”. Aliás, a frustração era visível, principalmente, no choro incontrolável e ininterrupto de Geovani, que sabia ter feito falta, mas reconhecia: “Perdemos, mas saímos de cabeça erguida, não só pelo adversário que enfrentamos mas também pela consciência de que fizemos um bom trabalho”.

Presenteado com a medalha entregue ao preparador físico Bebeto de Oliveira, Carlos Alberto Silva sabia: se o Brasil saísse com o ouro, talvez ele ficasse para comandar a seleção principal rumo à Copa de 1990. Não ganhou, e a demissão – para muitos, injusta – se tornou inevitável, até por se saber que Carlos Alberto Parreira era a opção preferencial de Ricardo Teixeira, então presidenciável da CBF. Ainda assim, o técnico mineiro pôde sair respaldado. Às vezes, com declarações mais agudas, como à Placar: “Fiz aberturas, conciliações, e abri mão de muita coisa de que não poderia para que o futebol pudesse seguir (…) Para qualquer outro treinador que não tivesse espírito de renúncia como eu, seria a hora de abandonar tudo”. Outras, mais amenas, como ao Jornal do Brasil: “Nós não perdemos. Ganhamos com essa medalha de prata. Mostramos que temos jogadores de futuro, um grupo que ganhou maturidade com a Olimpíada, cujo nível foi excelente, com jogos excelentes”.

Um desses jogadores de futuro, Romário, artilheiro daquele torneio olímpico, deixou claro ao Jornal do Brasil: “Estamos chateados por não termos conseguido a medalha de ouro, por que tanto lutamos, mas acho que podemos sair de cabeça erguida com essa de prata. Nós fomos a segunda das 16 seleções que vieram a Seul e espero que tenhamos conquistado também a confiança da torcida”. Pois nos anos que viriam, de fato, aquela geração conquistou essa confiança. Entre promessas que fraquejaram por vários motivos (Geovani, Careca, André Cruz, João Paulo), ficaram Taffarel, Jorginho, Romário e Bebeto. Que choraram e viram o Brasil chorar com a derrota, há 30 anos. Mas que sorririam muito mais, num certo 17 de julho de 1994, numa certa final de Copa do Mundo.