A História em um campo de futebol pode ser construída de diferentes maneiras. O aspecto esportivo, obviamente, é a principal. O resultado em si, único e inegável, que eterniza em símbolo numérico vencedores e vencidos. O placar, porém, quase nunca é suficiente para se contar a história de uma partida. Há o caráter lúdico, aquilo que não se representa de uma forma tão exata, mas preenche muito mais a memória. E os entendimentos sobre um grande evento podem extrapolar os limites. Podem significar mais do que um mero jogo ao seu povo. Podem significar muito além do futebol. Basicamente, é o que fez o Colo-Colo em 1973 diante do Botafogo, abrangendo tantas compreensões sobre um feito histórico. Marcou no resultado e no lúdico, no futebol e nos desdobramentos além. Virou um marco de tempos que se transformavam no Chile. Passado para se relembrar, diante do reencontro das equipes nesta quarta pela Libertadores, em duelo que acontecerá no Estádio Nilton Santos.

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O Cacique vivia anos gloriosos. Os albos constituíram uma de suas equipes mais célebres. Não eram altos e nem imponentes, em tempos nos quais o esporte se tornava cada vez mais físico. Muitos deles, jovens, mal superando a casa dos 20 anos. Mas extremamente habilidosos. E que floresceram sua vocação ao gol a partir da chegada do técnico Luis Álamos. Com um desempenho avassalador, o Colo-Colo conquistou o Campeonato Chileno de 1972, repetindo o feito de dois anos antes. Garantiu a classificação para a Copa Libertadores da América, se permitindo a sonhos maiores.

A sede pelo ataque se repetiu também no torneio continental. Líder absoluto de seu grupo e dono do melhor ataque, o Cacique avançou ao triangular semifinal. No entanto, teria que superar pedreiras. O Cerro Porteño vinha de anos hegemônicos no Paraguai, ainda que o maior temor da chave fosse mesmo o Botafogo. Vice-campeões brasileiros em 1972, os alvinegros sustentavam uma reputação internacional imensa. Pudera: com Jairzinho, Brito e Roberto Miranda, o elenco contava com três campeões mundiais. Some-se a eles jogadores do porte de Fischer, Dirceu, Wendell, Marinho Chagas e Scala. No banco, o comandante era Sebastião Leônidas, um dos zagueiros mais condecorados da história do clube em seus tempos como jogador. Timaço que sobrevivera na primeira fase à Academia do Palmeiras, assim como a Nacional e Peñarol, arrancando a primeira colocação.

Na abertura do triangular, colo-colinos e botafoguenses se encontraram no Maracanã. O técnico Luis Álamos prometia uma formação defensiva, satisfeito com o empate. Não foi o que se viu. O Colo-Colo dominou o Botafogo em pleno gigante de concreto. Vitória por 2 a 1, a primeira de um clube chileno em competições oficiais dentro do Brasil. “Incrível, mas verdadeiro: o Botafogo apanhou, ontem, em casa, tomando um show de futebol do time chileno Colo-Colo. Dois que poderiam ter sido quatro, tamanha a superioridade do campeão do Chile, dominando inteiramente um time que parecia ter sido dopado ao contrário”, escreveu Armando Nogueira, em sua coluna no Jornal do Brasil.

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O grande nome do time chileno foi um garoto de 22 anos, um tanto quanto atarracado, mas extremamente talentoso: Carlos Caszely. O ponta direita maltratou o Botafogo com seus contra-ataques, decisivo para o resultado. Marcou o primeiro gol, sofreu o pênalti que originou o segundo e ainda acertou uma bola na trave. Pequena mostra daquele que se afirmou como uma das maiores lendas do futebol chileno. “Ele é um monstro, um monstro”, dizia o companheiro Sergio Messen, na saída de campo. Já o técnico Luis Álamos admitiu que teve a ajuda de um espião para desenvolver sua estratégia: Elias Figueroa, já no Internacional, deu as dicas sobre o estilo de jogo alvinegro.

No Chile, aquela vitória gerou uma comemoração digna de título. A partida foi transmitida ao vivo pela televisão local. E, ao apito final, a massa colo-colina saiu às ruas de Santiago para comemorar o triunfo. Ocuparam o centro da cidade e celebraram madrugada adentro, sob gritos de ‘Colo-Colo és Chile’. Já o presidente Salvador Allende enviou um telegrama à equipe, ressaltando o “orgulho pelo comportamento mostrado como esportistas e chilenos”. O tom dos gritos e da mensagem não era sem motivo. O Chile atravessava uma séria crise política. Um mês antes, as eleições parlamentares com vitória da situação, que tentava realizar uma transição ao socialismo por meios legais e democráticos, aumentou o ranço político com a oposição.

Nas rodadas seguintes, o Colo-Colo oscilou. Foi goleado pelo Cerro Porteño por 5 a 1 em Assunção, mas deu o troco com os 4 a 0 em Santiago. Já em 8 de maio, o reencontro com o Botafogo, no Estádio Nacional abarrotado. Os albos jogavam a sua classificação naquele momento. E tiveram garra para buscar o resultado, em uma noite alucinante. O empate por 3 a 3, no fim das contas, selou a eliminação dos cariocas e manteve as esperanças dos chilenos, que ainda precisavam secar o Cerro na última rodada.

Em apenas 12 minutos, o Colo-Colo já vencia o Botafogo por 2 a 0. O primeiro gol veio a partir de um calcanhar de Caszely, que Ahumada concluiu por cobertura para as redes. Logo na sequência, Rubilar chutou no ângulo de Wendell para ampliar. O Botafogo reagiu, descontando com um gol contra de Herrera ao final do primeiro tempo, antes de virar na volta do intervalo. Fischer aproveitou uma sobra para anotar o segundo, enquanto Dirceu, em um chute violentíssimo, fez do terceiro um golaço. Porém, o baque não derrubou o Cacique. E o valioso empate acabou arrancado no último minuto, em troca de passes que habilitou Véliz para escorar.

Na última rodada, o Botafogo, mesmo sem pretensões, ajudou o Colo-Colo a fazer ainda mais história. A vitória por 2 a 0 sobre o Cerro Porteño no Maracanã confirmou a classificação dos albos rumo à final da Libertadores, a primeira de um time chileno na história da competição. Na decisão, entretanto, o Cacique não conseguiu superar o cascudo time do Independiente. Depois de dois empates, as duas equipes disputaram um jogo extra no Estádio Centenário, vencido pelos argentinos por 2 a 1, na prorrogação. Caszely terminou como artilheiro da competição, autor de nove gols. Chegou a ser especulado no Santos. Mas, nos meses posteriores, sua vida e de todos os chilenos mudariam radicalmente.

Fator de união para a população chilena em momentos difíceis, aquele timaço do Colo-Colo teve seu papel político aos diferentes lados da disputa vivida em 1973. Em 11 de setembro, à força, a queda de braço pendeu para um dos lados com o golpe comandado por Augusto Pinochet. Outro marco de transformação e ponto de virada para os albos, que saíram derrotados em todos os seus seis jogos na Libertadores de 1974 e só voltariam a conquistar o Campeonato Chileno no final da década, em 1979.

Para entender melhor o contexto político do Chile e a representatividade deste time do Colo-Colo, recomendo fortemente a reportagem publicada por Maurício Brum no excelente Puntero Izquierdo: “Quando o Colo Colo adiou o golpe de Pinochet”.


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