Por Joshua Law* 

Eu nunca tinha chorado escrevendo uma matéria sobre futebol. Que eu me lembre, eu nunca tinha chorado escrevendo uma matéria sobre qualquer assunto. Não até agora.

Na última terça-feira, o Bury, um time da pequena cidade do mesmo nome no norte da Inglaterra, foi expulso da terceira divisão inglesa. As dívidas foram crescendo e o dono que comprou o clube por uma libra, Steve Dale, não conseguia provar que tinha os recursos necessários para pagar os funcionários e cumprir o calendário. Dale – incompetente, maldoso, cruel – não firmou um acordo para vender os Shakers antes do prazo estabelecido pela Football League, organizadora das segunda, terceira e quarta divisões.

Não tinha mais como adiar a decisão. Nesta temporada, que começou há 21 dias, o Bury ainda não tinha jogado. Teve cinco partidas suspensas.  Sem divisão, não tem futuro. Bury morrerá. E morrerão junto com ele 134 anos de história e tradição, o motor econômico de uma cidade, o ponto focal de uma comunidade. 

Bolton, outro clube da mesma região, poderia ter sido o próximo a conhecer esse trágico destino. Encontrou uma situação muito parecida, com dívidas, um dono irresponsável e a real ameaça de um processo de liquidação que ia começar na quarta. Mas a Football League permitiu mais tempo para o dono, Ken Anderson, completar uma venda. E, aos 45 minutos do segundo tempo, assinou um contrato com a empresa Football Ventures Limited. Bolton Wanderers sobreviverá. Os Whites já fizeram quatro jogos nesta temporada com os moleques da base. Até conseguiram um ponto heróico contra o Coventry, em casa, com um time com uma idade média de 19 anos. Mas já começaram com menos 12 pontos, punição por terem entrado em administração. Agora iniciam a busca por jogadores, permanência na terceira divisão e, finalmente, um pouco de estabilidade.

Para mim, é um assunto pessoal. Meu pai é torcedor roxo do Bolton. Como foi meu avô, como foi meu bisavô e como foi meu tataravô. O traço genético pulou a minha geração. Nasci e cresci em Londres, torço para outro clube. Mesmo assim, o Bolton significa muito na minha vida. Fui para o meu primeiro jogo com três anos, fora de casa contra o Watford. Fiquei apavorado por causa da mascote do Watford, uma abelha com mais de dois metros. Viajávamos pela Inglaterra inteira para acompanhar jogos de qualidade extremamente duvidável. Não importava.

Ao longo das gerações, minha família testemunhou os melhores e piores momentos dos 145 anos de história do clube. Meu tataravô, imagino, vibrou com o título da FA Cup em 1923. Conhecida como a ‘Final do Cavalo Branco’, foi a primeira partida a ser jogada no estádio de Wembley. Meu avô começou a frequentar Burnden Park, a então casa do Bolton, nos anos que antecederam a segunda guerra mundial. Durante a guerra, a Football League foi suspensa. Quatorze jogadores do Bolton foram lutar e o seu capitão nunca mais voltou.

Ao fim da guerra, o futebol recomeçou, mas um ano depois meu avô presenciou uma das piores tragédias da história do jogo inglês. No dia 9 de março de 1946, 33 pessoas morreram sufocados e pisoteados durante uma partida contra Stoke City, devido à superlotação. Venderam 70.000 ingressos, mas, querendo ver o jogo, mais de 15.000 pessoas entraram pulando a linha de trem e o muro atrás da arquibancada. O meu bisavô e o resto da família não sabiam se meu avô, Gordon, estava entre os mortos até ele voltar para casa horas depois. Nos anos seguintes, viu momentos mais felizes, sendo vice-campeão da FA Cup em 1953 (a famosa ‘final de Stanley Matthews’) e campeão em 1958, contra um Manchester United que acabara de perder oito jogadores no desastre aéreo de Munique.

Anos péssimos vieram depois. Meu pai, quando jovem, viu os Wanderers caírem até a quarta divisão. Mas vimos juntos a volta ao topo da pirâmide. Em 2000, fomos para Wembley assistir ao Bolton na semifinal da FA Cup. Em 2001, viajamos para Cardiff para ver o time do técnico Sam Allardyce subir à Premier League, vencendo o rival Preston por 3 a 1 na final dos ‘play-offs’. Começou um período glorioso, com jogadores do nível de Jay-Jay Okocha, Youri Djorkaeff e Iván Campo.

Passei a terça-feira inteira pensando que o clube não iria existir mais na quarta. E se tivesse que fechar as portas, encerraria também a possibilidade de criar mais memórias como essas. Clubes de futebol são, muitas vezes, um elo que nos liga com o passado, uma conexão entre nós e nossos antepassados. Meu avô morreu há pouco menos de dois anos. Fico feliz por ele ter visto o seu clube nesta situação. Mas se o clube tivesse morrido, uma pequena parte dele morreria novamente. A sensação era de luto. Chorei por ele.

E se eu estava sentindo assim, imagina para as pessoas que torcem para Bolton ou Bury, as pessoas que vão ao estádio todo sábado. Imagina para as pessoas que trabalhavam no Bury ou para os donos de lojas, pubs e lanchonetes em volta do estádio. Imagina para os funcionários do Bolton que tiveram que fazer um apelo nas redes sociais, pedindo doações de comida porque não receberam os salários e não tinha como alimentar as suas famílias.   

A BBC produziu um podcast sobre o Bury na semana passada. Um torcedor concedeu entrevista e falou que o filho tem autismo severo e que tem dificuldades para falar. A maior alegria do rapaz era ver os jogos dos Shakers. Ele presenciou 46 partidas na temporada passada e agora fica fazendo uma pergunta para o pai: “Quando o futebol vai voltar?” O que esse homem fala para o seu filho agora? A sensação é de raiva. Choro por eles.

Como escreveu David Conn no jornal inglês The Guardian, as situações do Bury e do Bolton são também um reflexo da desigualdade da sociedade inglesa. Quando esses dois clubes foram fundados, a região em volta do Manchester era o centro industrial do país, talvez do mundo. Tanto é que se desenhasse no mapa um círculo com Bolton no centro e raio de 60km, teria dentro dele 18 clubes profissionais. Ontem teria tido 19. Mas a região foi esquecida. Fábricas fecharam. Empregos foram sendo perdidos. Quando o Reino Unido sair da União Europeia, a economia dessa região sofrerá outro golpe; a queda prevista é de 12%. O líder do governo local de Bury disse que o falecimento do clube seria “o prego no caixão” da cidade.

Enquanto isso, os ricos foram ficando mais ricos, no futebol e fora dele. O Old Trafford, estádio do Manchester United, fica a 15km do Gigg Lane, estádio do Bury. Para garantir a sobrevivência até o fim desta temporada, Bury precisaria de 2,7 milhões de libras, ou seja, cinco semanas do salário do Alexis Sánchez. O palácio da Premier League é construído sobre o alicerce feito com a história de clubes como Bury. Não seria possível distribuir mais um pouquinho da sua renda bilionária? É tarde demais para o Bury, mas poderia ajudar outros a evitarem problemas parecidos.

Ken Anderson e Steve Dale não são os únicos culpados. Os problemas graves para o Bury começaram sob o comando do antigo dono Stewart Day. Para o Bolton, a dívida vinha crescendo há anos. Em 2016, um consórcio liderado pelo ex-atacante Dean Holdsworth comprou o clube do então dono Eddie Davies, prometendo pagar os impostos devidos. Um ano depois, a empresa criada pelo Holdsworth foi liquidada por não pagamento de outras dívidas e as ações foram adquiridas pelo atual proprietário, Anderson, que se pagou um salário de 500 mil libras em 2017. Os problemas se agravaram nos primeiros meses deste ano; impostos e salários não foram pagos, o elenco foi desmanchado e na semana passada o técnico Phil Parkinson finalmente pediu demissão. Durante esse tempo, Anderson fez de tudo para atrapalhar a venda. Felizmente, os torcedores do Bolton não precisam se preocupar mais com ele.

Mas a pergunta fica: se esses dois homens, Anderson e Dale, não tinham dinheiro nem competência para sustentar um clube, como passaram no chamado ‘Fit and Proper Persons Test’ – avaliação feita pela Football League antes de qualquer venda? A própria Football League tem de aceitar uma grande parte da culpa para tudo que está acontecendo. Existem muitas sugestões para melhorar esse processo ou achar um outro modelo para que não permita que uma única pessoa possa comprar um clube. Não sei qual solução é a melhor, mas algo tem que mudar. Se não, muito mais lágrimas serão derramadas por causo de donos irresponsáveis. Quando você vai no estádio ou liga a televisão para ver seu time nesse final de semana, pense no Bury. Fique triste, mas também fique feliz, mesmo em derrota. Você, pelo menos, tem um time para ser derrotado.

*Joshua é inglês, jornalista e filho de uma família de apaixonados pelo Bolton